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ABC - Academia Brasileira de Ciências

Reflexões sobre a neurociência e a influência de Poincaré

Publicado em 18 maio 2015

Por Elisa Oswaldo-Cruz

Graduado em medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), o Acadêmico Fernando Cendes fez residência médica em neurologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com especialização em neurofisiologia clínica no Montreal Neurological Institute and Hospital, no Canadá, país em que também obteve seu doutorado em neurociência, pela Universidade McGill.

Sua palestra na Reunião Magna da ABC intitulou-se "Reflexões sobre a neurociência e a influência de Poincaré ", e teve início com algumas reflexões sobre o método cientifico. Cendes destacou que para observar atentamente o fenômeno no qual estamos focados, temos que fazer uma seleção, pois não podemos registrar tudo a nossa volta.

E como nosso cérebro faz essa seleção? O matemático francês Henri Poincaré discutiu isso em seu livro 'A Ciência e o Método', publicado em 1914. Segundo Cendes, "esse critério seletivo é uma questão que diz respeito tanto ao físico quanto ao historiador, ao matemático e a todos os outros cientistas, e os princípios que os guiam não são assim tão diferentes."

Colocando num contexto mais amplo, Cendes - que  atualmente é professor titular do Departamento de Neurologia da Unicamp e um dos coordenadores da área de saúde da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - citou Nabokov, que em 1947 dizia que "a consciência é a única coisa real no mundo e o maior mistério de todos."

Ele descreveu situações  de pacientes que são vítimas de lesões cerebrais que causam situações de negligência espacial. Estas provocam impactos dramáticos em seus julgamentos e avaliações conscientes. Mas estudos comprovaram que a informação obtida não é totalmente perdida.

Alguns indivíduos acometidos de lesões desse tipo não conseguem descrever uma fenda onde enfiar um objeto, por exemplo, mas conseguem executar a função. Ao verem figuras de duas casas iguais, sendo que uma está incendiando e a outra não, eles não identificam as metades da figura; mas ao serem indagados sobre qual delas escolheriam para morar, escolhem invariavelmente a que não está em chamas. Ou seja, percebeu-se que os danos causados pelas lesões mantêm uma determinada independência com relação a operações conscientes e inconscientes.

Cendes colocou então a pergunta: será que nós, indivíduos sem lesões cerebrais, também temos percepções ocorrendo nos nossos cérebros das quais não estamos conscientes? Para ilustrar a resposta, apresentou o vídeo inglês "WHODUNNIT", que mostra que a desatenção pode causar cegueira. "Freud acertou quando afirmou que a consciência é supervalorizada. Existem varias coisas acontecendo o tempo todo no nosso cérebro sobre cuja percepção não temos consciência", afirmou o pesquisador.

O neurocientista abordou então a impressão subliminar, que é a apresentação de um estímulo de forma tão rápida que o individuo não percebe, mas fica impresso no subconsciente. A partir da alfabetização, essa impressão subliminar é tão poderosa que a criança pode ser exposta a sequências de letras - como radio eRADIO - que, embora tendo a letra A grafada diferente na forma maiúscula e minúscula, o cérebro interpreta de forma semelhante.

Ócio criativo

A função normal do cérebro depende de uma interação complexa de redes estruturais e funcionais, que desempenham atividades com o indivíduo dormindo ou acordado. Cendes explicou que quando o individuo aparentemente não está fazendo nada, existem estruturas e redes altamente conectadas trabalhando.

"Interrupções na atividade dessas redes parecem estar associadas a desvios cognitivos e comportamentais identificados em doenças como autismo, epilepsia e Alzheimer. Hoje podemos visualizar essas situações através da ressonância magnética."

Fernando Cendes foi presidente da Liga Brasileira de Epilepsia e secretário da Subcomissão de Neuroimagem da Liga Internacional Contra a Epilepsia. É membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Brasileira de Neurologia, da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica e da Sociedade Brasileira de Neuroradiologia Diagnóstica e Terapêutica. É membro associado da American Academy of Neurology e da American Epilepsy Society.

O inconsciente e a matemática

Poincaré relatou diversos casos em que teve ideias dormindo ou finalizou-as durante o sono, episódios em que aparentemente seu inconsciente fez todo o trabalho.  "Essas declarações reforçam o conhecimento que temos hoje de que não nos damos conta de quantos processos cognitivos estamos ativando no dia a dia," afirmou Cendes.

Outro matemático, Jacques Hadamard, desconstruiu o processo da descoberta matemática em quatro estágios sucessivos: iniciação,incubaçãoiluminaçãoverificação. A iniciação envolveria todo o trabalho preparatório, consciente, de exploração do problema. A fase de incubação seria um período invisível de "gestação",  durante o qual a mente vaguearia, preocupada com o problema, mas não demonstrando nenhum sinal consciente de estar trabalhando nisso.

De repente, após uma boa noite de sono ou uma caminhada relaxante, ocorre a iluminação: a solução aparece em toda a sua glória e invade a mente consciente do matemático - na maioria das vezes, de forma correta. Esse momento é sucedido pelo trabalhoso processo de verificação.

"Quando tomamos algumas decisões conscientemente, temos um trabalho que demanda muita energia na nossa memória. Isso tira o nosso foco do problema real. Durante o sono ou inconscientemente, muitas operações matemáticas podem ser procedidas. Existe uma atuação cerebral que parece ser randômica durante o sono", explicou Cendes. O especialista completou, esclarecendo que alguns neurônios muito ativos no hipocampo e no córtex são muito mais ativos durante o sono. "Ratos submetidos a tarefas complexas num labirinto conseguem repetir o trajeto no dia seguinte, quando dormem bem. A consolidação da memória só se dá com um sono adequado", reforçou.

Em vários aspectos, portanto, sabemos hoje que nosso sistema visual resolve problemas sem a nossa consciência. Em 1902, Poincaré antecipou diversas dessas questões, especialmente a força do inconsciente sobre o consciente. Ele percebeu que os poderes subliminares do cérebro não começam a ocorrer se ele não for alimentado por uma pergunta consciente. Cendes apontou que o cérebro tem que ser despertado. "E depois, temos que verificar conscientemente o resultado. Mas a intuição é uma manifestação da inteligência que independe da educação formal, afirmava Poincaré."

(Elisa Oswaldo-Cruz para Notícias da ABC)