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Jornal da USP online

Reflexões sobre a minha trajetória na USP

Publicado em 13 agosto 2020

Por Redação

Em comunicado, reitor Vahan Agopyan escreve sobre sua carreira na Universidade e a importância da autonomia financeira conquistada em 1989

Este texto tem caráter mais pessoal do que institucional: hoje completo 45 anos de docência formal na USP. Se contarmos meu tempo de alunado, tenho mais de 50 anos de atuação na Universidade. Por isso, peço licença para compartilhar com você essa minha experiência de vida.

Quando da minha graduação, tive a felicidade de me destacar nas duas disciplinas de Materiais de Construção, oferecidas no 5º e 6º semestres do curso de Engenharia Civil da Poli e, com isso, fui convidado a me candidatar a uma Bolsa de IC da Fapesp. Provavelmente fui um dos primeiros bolsistas de IC na Engenharia e um dos dois únicos da minha turma de 200 alunos. Fiz IC em 1973 e 1974, utilizando a infraestrutura do laboratório de uma empresa, já que não se tinha, na USP de então, esse tipo de facilidade: eram outros tempos. Essa oportunidade definiu a minha vida profissional e me conduziu para a carreira acadêmica.

Ser professor da USP não era simples para um jovem. Fui contratado no RTC, em 1975, na vaga do meu orientador que, infelizmente, faleceu precocemente. Nesse momento, como acontecia à época, entrei em uma fila para obter a mudança para RDIDP. Com a contratação, perdi a Bolsa de Mestrado da Fapesp que tinha. Meu salário no RTC, como Auxiliar de Ensino, correspondia à metade do valor dessa bolsa e, para sobreviver, trabalhei em empresa de projetos, construtora e no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), como autônomo.

O número de docentes na Poli era pequeno e, por isso, dar aulas teóricas para 100 alunos era algo corriqueiro. As aulas de laboratório eram oferecidas através de um convênio com o IPT, que gentilmente nos franqueava as instalações, inclusive com apoio técnico. Para as aulas práticas, cabia à USP fornecer os materiais a serem ensaiados, e, muitas vezes, por falta de recursos financeiros da instituição, eu tinha que correr os canteiros de obras de colegas para coletar os materiais necessários.

Quando voltei do meu Doutorado na Inglaterra, em outubro de 1982, entrei em uma nova fila para conseguir o RDIDP, agora para professores doutores. A minha vez chegou só em 1985, quando eu já tinha assumido o compromisso de trabalhar no IPT. Dessa forma, não só não pude passar para o RDIDP, como tive que reduzir meu regime de trabalho na USP para RTP, para torná-lo compatível com as atividades no instituto.

Assim continuei, na época, em RTP, mas ministrando de seis a oito horas de aula de graduação e de duas a três horas de pós por semana, orientando em média dez alunos (faltavam doutores), além de organizar a instalação do laboratório, ocupar interinamente a Chefia do Departamento, coordenar o programa de pós etc. Finalmente, consegui ser admitido em dedicação exclusiva em 1990, depois da reforma estatuária, e pude desenvolver a minha profissão adequadamente.

Fiz um relato resumido do início das minhas atividades para reforçar que a carreira docente é bastante dinâmica e flexível, dependendo muito da abordagem e do rumo que cada um quer dar a ela. É uma carreira muito instigante e somos nós que imprimimos o ritmo desejado. Por isso, noto a satisfação da maioria de meus colegas próximos.

a carreira docente é bastante dinâmica e flexível, dependendo muito da abordagem e do rumo que cada um quer dar a ela

Nesta mensagem, também quero evidenciar a importância da reforma estatutária de 1988 e da autonomia financeira e administrativa obtida pela USP em 1989, por decreto estadual. A Universidade, a partir desse momento, de fato mudou!

Antes de 1988, a USP já era uma excelente universidade de pesquisa. Tenho orgulho de ter estudado em um ambiente em que o conhecimento é desenvolvido e a inovação, inclusive nos princípios teóricos, é constante. Confesso que, como aluno, eu não tinha uma noção clara do diferencial de uma instituição em que o ensino era ministrado em um ambiente de pesquisa, mas, na minha vida profissional, como docente e engenheiro, percebi a importância da formação que tive.

Até então, a USP padecia de uma dependência não frutífera com o Tesouro do Estado. A inconstância e variabilidade nos repasses de recursos deixavam a universidade muito insegura, com períodos de penúria que obstaculizavam um desenvolvimento harmônico das atividades de ensino e pesquisa.

Convivíamos, também, com entraves burocráticos, hoje inaceitáveis, desde coisas triviais, como a necessidade de aprovação do governador para que um docente pudesse ir ao exterior, até a necessidade de autorização junto aos órgãos governamentais para a realização de atividades básicas na vida administrativa da instituição, como concursos e compras.

Além disso, a reforma estatutária de 1968 não estava adequadamente implantada, principalmente no que se refere à sua visão interdisciplinar e à superação da cultura da cátedra (nada a ver com as modernas Cátedras, implantadas desde 2013, para integrar personalidades de fora da Universidade em nossas atividades).

Pelo exposto, considero o biênio 88-89 como um divisor de águas na USP, que resultou nesta instituição que nos orgulha e que é respeitada internacionalmente. Logicamente, tínhamos na época um líder que lutou para alcançar essas conquistas, luta essa que não foi fácil nem curta: o nosso reitor, professor José Goldemberg, a quem devemos reverenciar sempre.

Cabe a todos nós, alunos, servidores e docentes, a grande responsabilidade de continuar essa tarefa de manter e melhorar ainda mais a qualidade da nossa instituição. Continua sendo uma tarefa difícil e trabalhosa, porque a universidade pública de pesquisa com qualidade incomoda e agride muitos interesses. Os seus detratores não são poucos e se distribuem em vários grupos. No momento, estamos vivendo, após quase um século de culto ao conhecimento, um período impressionante de negacionismo e obscurantismo.

Apesar disso, a USP demonstra sua pujança e suas qualidades, contribuindo significativamente para o combate à pandemia que assusta e paralisa todo o globo. Estamos servindo à sociedade com o que temos de melhor. Foi assim ao longo de nossa história, em todos os momentos difíceis. Devemos lutar para que assim continue sendo sempre.

Vahan Agopyan, reitor