Notícia

Jornal da USP

Reflexões sobre a interdisciplinaridade

Publicado em 24 julho 2011

Por Sylvia Miguel

Pode-se dizer que estamos atravessando hoje um momento de reconstrução radical, que pode ser comparado àquele que, na Europa, deu impulso à explosão de descobertas, redescobertas e ideias novas nos séculos 14 e 15, período que se costuma chamar de Renascença. O movimento atual, desta vez em âmbito mundial, apela por novos paradigmas, novas categorias de pensamento, novas metodologias de pesquisa e novas formas e ensino." O trecho, extraído de texto do antropólogo Claude Raynaut, do Centre National de la Recherche Scientifique, está entre os mais de 30 artigos do livro Interdisciplinaridade em Ciência, Tecnologia e Inovação, compilados pelo professor Arlindo Philippi Júnior, pró-reitor adjunto de Pós-Graduação da USP e coordenador da Área Interdisciplinar da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). A obra, de quase mil páginas e lançada recentemente pela Manole Editora, é dedicada aos dez anos da Área Multi e Interdisciplinar da Capes.

Raynaut, ele próprio um dos pioneiros na criação de programas de pós-graduação interdisciplinares no Brasil, é quem explica que o pensamento interdisciplinar, por ser complexo, não pode seguir "receitas" metodológicas. Significaria, portanto, a adoção de "uma nova postura intelectual em face da natureza complexa dos problemas com os quais o cientista contemporâneo se confronta", afirma.

Para sair do campo seguro da tradição disciplinar, o cientista deve trilhar um caminho com base teórica clara e firme. Os motivos que tornam necessário sair das rotas acadêmicas devem ser enunciados claramente. Da mesma forma, as necessidades científicas que demandam inovações no domínio da pesquisa e da pedagogia precisam estar fortemente delineadas, ensina Raynaut. É justamente nessas "orientações" que o livro pode ajudar. Oferece elementos de resposta a algumas das inquietações mais frequentes da prática interdisciplinar na pesquisa e no ensino, e aponta caminhos no campo teórico, afirma o autor.

De forma resumida, a interdisciplinaridade pode ser entendida como a interação ou a convergência de diferentes áreas do saber, para a formação de um novo profissional. Por outro lado, a multidisciplinaridade congrega profissionais de diferentes áreas para discutir ou resolver determinada questão. Como discussão teórica e acadêmica, a interdisciplinaridade surgiu na década de 1960 na França e Itália, como resposta às mudanças sociais em curso. Na mesma década, influenciou as diretrizes do cenário educacional brasileiro.

Bastante disseminada em universidades europeias, a abordagem interdisciplinar já é praticada de forma natural também por cientistas norte-americanos, afirma o professor Arlindo Philippi Júnior. "Mas, no Brasil, como técnica e metodologia, ainda é pouco praticada. Não fosse assim, talvez nem haveria necessidade de se ter criado uma área interdisciplinar na Capes dedicada ao fomento de programas de pós-graduação nessa linha", afirma.

Fomento - Tal é a importância que a interdisciplinaridade vem ganhando nos últimos anos que o Conselho de Pós-Graduação da USP colocou de forma destacada em suas diretrizes o incentivo a programas que tenham a interdisciplinaridade como "instrumento para o aperfeiçoamento da pós-graduação praticada na Universidade", segundo o professor Philippi.

"É política da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP estimular os programas interdisciplinares e interunidades, como condição para o avanço para a internacionalização", afirma pró-reitor adjunto.

No que diz respeito à pesquisa, os 43 Núcleos de Apoio à Pesquisa (Naps), lançados no dia 30 de junho pela Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, representam mais uma etapa da concretização de uma política acadêmica e científica com clara valorização da interdisciplinaridade, diz Philippi.

Com recursos de R$ 70 milhões provenientes da própria Universidade, as 43 propostas de pesquisa sobre os mais variados temas possuem como característica principal a interdisciplinaridade. Os núcleos, que integram o Programa de Apoio à Pesquisa da USP, são parte de uma estratégia institucional para reestruturar a forma de fazer pesquisa na USP, promovendo a sinergia entre os pesquisadores e disponibilizando recursos complementares para a produção científica.

Focar os problemas de pesquisa em temas - que não necessariamente respeitam os limites departamentais e de grupos de pesquisa - deve ser o novo perfil da organização de pesquisa acadêmica voltada à competitividade global, defendeu o Pró-reitor de Pesquisa da USP, Marco Antônio Zago, em debate realizado em maio na Faculdade de Saúde Pública. "Caminhos da interdisciplinaridade: instrumento para a qualidade da pós-graduação" foi o tema da mesa-redonda que reuniu pesquisadores de todo o País, durante o lançamento do livro organizado pelo professor Philippi.

A proposição e o encaminhamento de programas e de projetos interdisciplinares em instituições de ensino e de pesquisa, bem como seu incentivo por órgãos de fomento como Capes, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por exemplo, estão previstos nas diretrizes nacionais da educação, lembra o organizador do livro.

"O Programa Nacional de Pós-Graduação (PNPG) para o decênio 2011-2020, aprovado pelo Conselho Superior da Capes e pelo Conselho Nacional de Educação, descreve a interdisciplinaridade como uma necessidade ao desenvolvimento científico e tecnológico do País", afirma Philippi.

Excelência -Antônio J. Silva Neto, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Carlos dos Santos Pacheco, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Valdir Fernandes, professor da FAE - Centro Universitário de Curitiba, além do professor Arlindo Philippi Júnior, compõem o quadro de editores do livro, que conta com a assinatura de 94 autores do Brasil e do exterior.

Dividido em três partes, o livro traz nos sete primeiros capítulos abordagens e desafios teóricos e metodológicos para a prática da interdisciplinaridade. Do capítulo 8 ao 27, os artigos trazem as experiências de programas nacionais de pós-graduação com perfil interdisciplinar. Nessa parte, os textos mostram desde a concepção ao desenvolvimento e avaliação desses programas, ressaltando pontos fortes e desafios enfrentados por 16 programas escolhidos como exemplares pelos editores do livro, todos eles com conceito de excelência pela Capes.

A terceira e última parte traz a interdisciplinaridade no contexto institucional, formas de fomento e cuidados para a criação de programas do gênero, bem como seu desenvolvimento e critérios de avaliação.

Jorge Almeida Guimarães, presidente da Capes, posfacia a obra. O pró-reitor de Pós-Graduação da USP, professor Vahan Agopyan, prefacia o livro, apresentado por ele como "produto da reflexão de parte substantiva da comunidade científica".