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Construção Mercado

Referência sustentável

Publicado em 30 novembro 2012

Por Romário Ferreira

Há 13 anos, o Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (Nutau-USP) vem concentrando suas pesquisas e seminários em torno da sustentabilidade das edificações e das áreas urbanizadas do Brasil. O tema, hoje prioridade para muitas empresas do mercado imobiliário, foi adotado como diretriz num momento em que pouco se falava - e se sabia - sobre sustentabilidade. Foi justamente esse pioneirismo que rendeu ao núcleo a homenagem de Iniciativa Setorial de Destaque do Prêmio PINI 2012.

As discussões mais aprofundadas sobre sustentabilidade no País não começaram com o Nutau, mas o grupo contribuiu para ampliar o debate sobre o assunto e suas implicações na área de arquitetura, urbanismo e design. O próprio Nutau, quando criado em 1992, não tinha como premissa inicial a sustentabilidade, mas sim a informática aplicada à arquitetura. Poucos anos depois, seguindo a tendência que começava a ganhar força da Europa, "o objetivo principal passou a ser auxiliar a sociedade brasileira e internacional no desenvolvimento sustentável das cidades e na aplicação de conceitos de sustentabilidade nos projetos e edificações", explica o atual coordenador científico do grupo, Bruno Padovano, que também é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

O Nutau é um dos Núcleos de Apoio à Pesquisa vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa da universidade. Ele é formado por uma equipe de mais de 100 consultores e pesquisadores e busca estimular a pesquisa e assistir os pesquisadores, individualmente ou em grupos. Os trabalhos publicados, como estudos, laudos, planos e projetos, são destinados a órgãos governamentais, associações sem fins lucrativos e empresas privadas, como as do setor da construção civil. Padovano estima que mais de mil trabalhos já tenham sido elaborados.

Entre as áreas de pesquisa destacam-se cidades, edifícios, produtos e mensagens sustentáveis, prevenção e combate a incêndios, conforto ambiental, centros de treinamento olímpicos e paraolímpicos, mobilidade e habitação de interesse social. Os estudos são apresentados em seminários internacionais bienais organizados pelo próprio núcleo, o principal meio de divulgação dos trabalhos.

Em outubro deste ano, por exemplo, foi promovido o 9o Seminário Internacional do Nutau, com o tema "Brics e a Habitação Coletiva Sustentável", durante o qual foram apresentados mais de 30 trabalhos científicos. O encontro discutiu como os países emergentes - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - vêm enfrentando os problemas na área da habitação, abordando questões como meio ambiente, economias energéticas, qualidade do ar, da água e do solo nas cidades, entre outros aspectos.

Organização compartilhada

O Nutau é gerido por um departamento de coordenação científica - encabeçado pelo professor Bruno Padovano desde 2007 - e por um conselho deliberativo, integrado por membros de todos os departamentos e áreas de ensino da FAU-USP, além de um representante da Escola Politécnica. Os cargos de gestão, com mandato de dois anos, são definidos por meio de votação entre todos os professores pesquisadores do núcleo.

As pesquisas são financiadas com recursos oriundos de agências de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O núcleo também conta com a receita advinda das taxas de inscrição dos seminários, do patrocínio de empresas aos eventos científicos e dos trabalhos elaborados para clientes diversos em parceria com a Fundação para a Pesquisa em Arquitetura e Ambiente (Fupam).

"Essas verbas têm sustentado o funcionamento do Nutau e a compra de equipamentos, softwares, móveis e materiais. Recentemente, nossa Pró- Reitoria de Pesquisa tem disponibilizado recursos para as próprias pesquisas e para melhorias na infraestrutura dos núcleos e laboratórios da universidade", relata Padovano.

Parcerias também têm papel importante no desenvolvimento do núcleo. O coordenador conta que tem firmado acordos de troca de experiência com centros internacionais de pesquisa. É o caso da cooperação com o London East Research Laboratory, da East London University, na Inglaterra, para tratar dos legados de megaeventos esportivos, e com o Master of Collective Housing da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Madri, na Espanha, no campo da habitação de interesse social. "Com uma universidade aberta à interação com a sociedade em todos os níveis, captando informações sobre demandas não atendidas pela sociedade, podemos construir um novo paradigma acadêmico", defende Padovano.

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Áreas de pesquisa

- Tecnologia (linhas verticais): estuda questões como desempenho do ambiente construído, avaliação pós-ocupação, acessibilidade, inovações tecnológicas, gerenciamento de obras, sustentabilidade e meio ambiente.

- Planejamento e projeto (linhas horizontais): trata dos diferentes tipos de arquitetura, como arquitetura comercial, educacional, esportiva, etc., e aborda planos e projetos de urbanismo.

- Cruzamentos entre linhas verticais e horizontais: desenvolvimento de pesquisas de caráter interdisciplinar, com ênfase nos aspectos tecnológicos.

- Embasamento teórico-conceitual para áreas verticais e horizontais: conceituação de paradigmas de projetos e de planejamento na tecnologia da arquitetura e urbanismo. Estuda teoria e crítica da tecnologia da arquitetura e urbanismo.

Principais trabalhos em andamento

A maioria dos trabalhos do Nutau tem sido realizada em parceria com a Fundação para a Pesquisa em Arquitetura e Ambiente (Fupam), como os estudos sobre tecnologias construtivas em conjuntos habitacionais populares e pesquisas urbanísticas da Operação Urbana Faria Lima para a Associação Imobiliária Brasileira (AIB).

Atualmente, o Nutau atua em pesquisas aplicadas para o Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável da cidade de Ilha Comprida (SP), para um plano de saneamento básico em Itaquaquecetuba (SP), para regularização fundiária em Itapevi (SP) e ajuda na busca de novas áreas para pesquisa aplicada, como os Centros de Treinamento Olímpicos e Paraolímpicos para as delegações estrangeiras na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Além disso, o núcleo trabalha em projetos de recuperação ambiental das marginais dos rios Tietê e Pinheiros e em novos sistemas de mobilidade, a exemplo de um estudo recente para a ciclopassarela entre a USP e o Parque Villa Lobos, a pedido do Governo do Estado de São Paulo.

Concursos

Desde 2011, o Nutau passou a adotar também concursos públicos de arquitetura, urbanismo e design como objeto de pesquisa e como meio de buscar soluções inovadoras. Recentemente, o núcleo participou de um concurso em Brasília e outro em Curitiba, cujos projetos foram elaborados em parceria com técnicos e estagiários de outros centros universitários.

Em Brasília, o concurso organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil do Distrito Federal (IAB-DF) previa a concepção de passagens subterrâneas para pedestres e ciclistas no Eixo Rodoviário Norte-Sul. A proposta desenvolvida pelo Nutau em parceria com a empresa Cap Paisagismo e o Pratt Institute de Nova York foi batizada de Sucuri, e teve suas linhas inspiradas na cobra brasileira. Embora o projeto tenha recebido menção honrosa, o júri considerou que a solução adotava uma "linguagem equivocada", pois não estaria alinhada à origem de Brasília, ou seja, edifícios e blocos de concreto armado distribuídos em espaços abertos.

Em parceria com o escritório Cauduro Arquitetos Associados e com a Fupam, o Nutau vem colaborando nos estudos para implantação do Sistema de Identidade e Comunicação Visual em estações da CPTM de São Paulo

Já em Curitiba, o Nutau se uniu ao Laboratório de Arquitetura e Território Sustentáveis do Politécnico de Milão para participar do concurso promovido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). O objetivo era projetar o Novo Campus Cabral, que incluía dependências para cursos de artes, comunicação e design, entre outras instalações. Segundo os professores da FAU-USP, Bruno Padovano e Roberto Righi, a proposta foi inspirada na araucária, árvore do ecossistema da mata atlântica das regiões mais temperadas. O projeto adotou arquitetura bioclimática, com climatização natural dos edifícios e espaços coletivos, e empregou novas tecnologias voltadas à sustentabilidade, como a estrutura em aço cortén e manta impermeabilizante com células fotovoltaicas.

"A proposta combate a imitação da velha linguagem funcionalista/racionalista, gerando espaços com força plástica e espacial em conexão com as pesquisas mais avançadas e atuais", dizem os professores em texto publicado no Jornal da USP. O trabalho teve destaque na primeira fase de julgamento, mas foi eliminado na reta final. Os jurados premiaram projetos mais tradicionais, alinhados com o movimento modernista.

A expectativa dos pesquisadores é de que futuros concursos continuem motivando novas ideias dentro do Nutau, com a participação de mais professores e estudantes da universidade.

ENTREVISTA GERALDO GOMES SERRA

A origem do Nutau

Como surgiu a ideia da criação do Nutau?

Depois que participei de um evento sobre arquitetura em Mônaco, no começo da década de 90, surgiu a ideia de realizarmos um evento semelhante no Brasil, e voltei de lá com essa missão. Um ano depois, o evento acadêmico foi realizado com sucesso. Tivemos problemas para acomodar todo o público no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU ) da USP, havia profissionais de vários países da Europa e da América Latina. O evento nos impressionou. Logo em seguida comecei a trabalhar na Pró-Reitoria da USP, que estava incentivando a criação de núcleos de pesquisa, e então surgiu a ideia de fundar o Nutau.

"Criou-se uma espécie de gincana que visa não propriamente à sustentabilidade, mas ao selo, que permite dizer que o empreendimento é sustentável"

Geraldo Gomes Serra

fundador e atual coordenador de projetos do Nutau-USP

Inicialmente, a preocupação com a sustentabilidade não fazia parte dos objetivos. Quando isso mudou?

Nossa primeira preocupação foi com a questão da multimídia. Os softwares eram novidade em meados da década de 90. A questão da sustentabilidade só apareceria anos depois, também em função de um evento internacional. Em 1999, viajei à Itália para uma reunião e comecei a fazer parte de um grupo que se dedicava exatamente à sustentabilidade. A partir daquele ano, passei a me dedicar mais a essa questão e trouxe isso para o Nutau, quando ainda pouco se falava no assunto. Lembro-me que na época a ideia de sustentabilidade era tão crua que havia professores discutindo se sustentabilidade era uma teoria, uma doutrina - como de fato é - ou meramente um conceito.

Mas hoje a sustentabilidade já faz parte do planejamento da maioria das empresas.

Sim. Quando o conceito começou a se tornar popular, todo mundo passou a fazer lançamentos desse tipo. Criou-se uma espécie de gincana que visa não propriamente à sustentabilidade, mas ao selo [ou certificação], que permite dizer que o empreendimento é sustentável.

Quais outros assuntos integram a agenda do Nutau atualmente?

Hoje o Nutau também trata da questão dos resíduos sólidos, problema mais intratável das metrópoles. Fizemos uma série de pesquisas com a linha de pós-graduação que resultou na ideia de reestruturação da incineração de resíduos. Hoje as incineradoras são malvistas pelos oncologistas [pesquisas indicam que o processo faz mal à saúde], mas procuramos demonstrar que, com a reestruturação, essa pode ser uma solução. Também há cidades sem saneamento básico, e, sem isso, fica impossível falar em sustentabilidade.

Atendimento às construtoras

Outra expectativa dos pesquisadores é a de aumentar o contato com empresas privadas, como construtoras e incorporadoras. Elas podem consultar o núcleo sobre assuntos relacionados a qualquer tema estudado pelos pesquisadores. Dependendo do tema da consulta, a empresa é colocada diretamente em contato com profissionais especializados. Porém, até agora houve pouca demanda.

O fundador do Nutau e professor titular de tecnologia da FAU, Geraldo Gomes Serra, lamenta a pouca procura e recorda: "Há quatro anos, organizamos uma reunião só com entidades privadas e com os principais sindicatos para falar sobre como a iniciativa privada poderia resolver o problema da habitação social. A ideia era mostrar como as construtoras podem se mobilizar para reduzir o déficit habitacional sem esperar pelo setor público. Quem participou diz até hoje que foi uma das reuniões mais proveitosas sobre o assunto".

Visando a despertar mais interesse nos construtores, Bruno Padovano sugere a criação de "possíveis linhas de pesquisa para ajudar o setor da construção civil a aprimorar suas tecnologias construtivas para edifícios mais inovadores e sustentáveis em termos de conceituação e projeto". O núcleo pretende também ampliar os estudos sobre a verticalização dos bairros próximos às estações do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) de São Paulo, como forma de melhorar o aproveitamento da rede de transporte coletivo.

Os coordenadores do Nutau esperam que os projetos motivem o setor da construção a procurar a universidade para parcerias. "Acreditar nisso torna o nosso trabalho uma atividade gratificante, e nos faz crer que somos úteis num País com tantos problemas a serem resolvidos", afirma Padovano. "O Prêmio PINI demonstra o reconhecimento daquilo que estamos fazendo por aqui em benefício do setor da construção.