Notícia

MidiaFlex

Reedição comemora centenário de Octavio Paz

Publicado em 05 maio 2014

“No Vale do México, o homem se sente suspenso entre o céu e a terra e oscila entre poderes e forças contrários, olhos petrificados, bocas que devoram. A realidade, isto é, o mundo que nos rodeia, existe por si mesma, tem vida própria e não foi inventada, como nos Estados Unidos, pelo homem. O mexicano se sente arrancado do seio dessa realidade, ao mesmo tempo criadora e destruidora, Mãe e Túmulo. Já esqueceu o nome, a palavra que o liga a todas essas forças em que a vida se manifesta. Por isso grita ou se cala, apunhala ou reza, vai dormir por cem anos.”

Esta frase, do primeiro capítulo de O labirinto da solidão, dá bem uma ideia da dimensão desse ensaio de Octavio Paz, que muitos consideram uma das obras fundamentais do século XX.

Republicada no curso das comemorações do centenário do poeta e ensaísta mexicano, nascido em 1914, morto em 1998 e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1990, a nova edição do Labirinto acrescenta à obra original, de 1950, o longo posfácio produzido por Paz após o massacre de centenas de estudantes e civis por forças policiais e militares em 1968 (acontecimento que o levou a renunciar ao cargo de embaixador do México na Índia e encerrar sua carreira diplomática) e a entrevista por ele concedida a Claude Fell, professor emérito da Université Sorbonne Nouvelle Paris 3, na França, publicada na revista Plural em 1975.

Inquirição sobre a “identidade mexicana”, o Labirinto transcende seu objeto, para alçar-se como uma grande reflexão crítica sobre a condição humana. Não por acaso, o livro foi concebido e gestado fora do México, durante dois anos de residência de Paz nos Estados Unidos, em 1943 e 1944. E escrito finalmente em Paris, em 1950. “Lembro-me que toda vez que me debruçava sobre a vida norte-americana, desejoso de encontrar seu sentido, deparava com minha própria imagem interrogante”, escreveu o poeta.

“O Labirinto, como diz Paz, é um exercício de imaginação crítica. O que o intriga não é tanto o caráter nacional, mas o que esse caráter oculta, isto é, aquilo que está por trás da máscara”, disse Celso Lafer, presidente na FAPESP, em palestra realizada em São Paulo por ocasião do lançamento desta nova edição.

Aluno de Paz na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, quando frequentou seu curso “Teoria e Prática da Poesia, do Simbolismo aos Nossos Dias”, Lafer tornou-se também seu amigo e grande incentivador da tradução de sua obra no Brasil, aproximando o escritor mexicano do brasileiro Haroldo de Campos, que traduziu o poema Blanco, de 1967.

“Ao mesmo tempo que busca o que a máscara oculta, Paz é muito consciente de que, enquanto vivemos, não podemos escapar das máscaras nem dos nomes e pronomes: somos inseparáveis das nossas ficções – das nossas facções”, prosseguiu Lafer.

Assim, Paz é inseparável de seu ensaio. E seu texto é, ele mesmo, labiríntico, circular, avançando muito para logo retroceder sobre o caminho percorrido – não devido a uma expressão deficiente, mas pela aspiração de abarcar níveis cada vez mais profundos de realidade. Esse anseio de totalidade, irredutível ao discurso linear, explica em parte por que Paz foi tantas vezes mal compreendido, seja por seus detratores, seja por alguns daqueles que julgavam apoiá-lo.

Tradutor de Piedra de Sol, um dos poemas fundamentais de Paz, Horácio Costa, professor do Departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP), destacou, no lançamento, a concepção circular do tempo presente tanto nesse texto quanto no Labirinto.

“A abordagem de Paz – o seu método – é a do poeta”, afirmou Lafer. “Todas as suas meditações surgem daí. Como ele mesmo afirma no posfácio do Labirinto, referindo-se à nova literatura mexicana, trata-se do ‘exercício da crítica como exploração da linguagem’ e do ‘exercício da linguagem como crítica da realidade’.”

O labirinto da solidão

Autor: Octavio Paz

Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht

Editora: Cosac Naify

Preço: R$ 69,00

Páginas: 320

Mais informações: https://editora.cosacnaify.com.br/Loja/PaginaLivro/2342/O-labirinto-da-solid%C3%A3o-.aspx