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Reduzindo o fosso entre a ciência e a sociedade

Publicado em 20 outubro 2008

Por Clayton Levy

Livro recém-lançado pela Editora da Unicamp reúne 80 artigos de Marcelo Leite

Divulgar ciência nunca foi tarefa fácil. Num país que investe menos de 1% do PIB em C&T, não valoriza o ensino fundamental e tem uma história acadêmi­ca tardia, a causa parece ainda mais inglória. Nada disso, porém, intimida o jornalista e escritor Marcelo Leite, que há três décadas busca reduzir o aparente fosso entre ciência e cultura. Parte desse trabalho acaba de ser reunido pela Editora da Unicamp no livro Ciência: use com cuidado. Publicada na série de divulgação científica Meio de Cultura, dirigida pelo físico Marcelo Knobel, a obra reúne 80 textos selecionados entre os cerca de 280 publicados desde 2002 na coluna Ciência em Dia, da Folha de S.Paulo, onde Leite instalou o seu radar, depois de ter atuado como repórter especial, editor e ombudsman.

Este é o segundo título da série coordenada por Knobel. Em julho, a Editora da Unicamp já havia lançado O Sol Morto de Rir, do físico e divulgador Mexicano Sérgio de Regules. “O objetivo é fazer uma coleção abrangente de divulgação científica, onde possam ser discutidos diversos assuntos sobre a ciência, suas conseqüências e a sua importância na sociedade”, explica Knobel. A idéia, segundo ele, é trazer autores brasileiros, consagrados e jovens, além de estrangeiros, fugindo do eixo anglo-saxão. O próximo lançamento será A Extinção dos Tecnossauros, do italiano Nicola Nosengo.

José Reis, que em 1948 deu a largada para a divulgação científica no Brasil, inaugurando, na mesma Folha de S.Paulo, a coluna No Mundo da Ciência, aplaudiria de pé a iniciativa. No caso de Leite, os textos caem como uma luva. Simples, mas não superficiais, precisos sem serem cientificistas, seus artigos constituem, antes de tudo, um filtro crítico sustentado pela maturidade intelectual. Como ele mesmo esclarece, a idéia não é tornar importante o que só é interessante, mas tornar interessante o que realmente tem importância para a vida pública. Com isso, seu trabalho vai além da mera tradução científica e não se limita a uma vitrine de curiosidades acadêmicas. Na entrevista que segue, o autor faz um balanço da divulgação científica no Brasil e aponta caminhos para conectar a ciência à cultura.

Jornal da Unicamp – Certa vez, José Reis disse que a ciência é bonita, profundamente estética e que, portanto, deveríamos exibi-la à sociedade. Essa afirmação reflete o espírito da coluna Ciência em Dia, cuja essência está reunida em seu novo livro?

Marcelo Leite – Sim e não. Sim, porque é exatamente a razão apontada por José Reis que me levou ao interesse pela ciência. Sempre tive essa paixão. Consigo perceber essa beleza que ele atribui à ciência. E não, porque em minha coluna procuro ir um pouco além disso. Assim como, em minha opinião, a arte não serve apenas para o deleite do público, mas também para levá-lo a pensar, a beleza da ciência está na possibilidade de levar as pessoas a pensarem sobre o mundo e sobre a própria ciência. A escolha do nome da coluna, Ciência em Dia, partiu justamente da preocupação em manter um vínculo com a atualidade e com uma visão crítica do mundo. Ou seja: acho que devemos usar o entusiasmo provocado pelos resultados científicos para pensar criticamente sobre o mundo, tanto no sentido físico e natural quanto no sentido social, ético e político.

JU –Isso ainda não acontece de maneira satisfatória no Brasil?

Marcelo Leite – Sinto uma deficiência no jornalismo científico. Certamente não da mesma maneira como há mais vinte anos, quando comecei a fazer jornalismo científico. Naquela época ainda predominava uma vertente que fazia do jornalismo científico ou um compêndio de curiosidades ou um posto avançado do ensino de ciências. Acho que esses dois objetivos são válidos, mas também acho que é preciso ir além disso.

JU – Por que ainda há essa lacuna?

Marcelo Leite – Por várias razões. Uma delas é que nem sempre os profissionais têm a formação necessária para adotar uma postura suficientemente crítica em relação às fontes ou ao establishment da ciência. Os assuntos são complicados e os profissionais não têm o conhecimento necessário que permita ir além da mera reprodução ou tradução do que a fonte está dizendo. Mesmo assim, houve um progresso significativo na área.

JU – Levando em conta esse contexto, até que ponto o jornalismo científico praticado no Brasil tem contribuído para a consolidação de uma cultura científica?

Marcelo Leite – Tem contribuído muito, embora certamente não seja o único responsável por esse processo. Quando comecei a fazer jornalismo científico, além dos próprios pesquisadores, pouquíssimas pessoas sabiam da existência de periódicos especializados como Nature e Science. Embora ainda não possamos chamá-las de populares, hoje em dia um público bem maior já conhece essas publicações. O público também já percebe que, quando uma pesquisa ganha destaque nas publicações de prestígio internacional, trata-se de algo relevante para a sociedade como um todo. Além disso, vários temas de impacto social, como energia nuclear, transgênicos, biocombustíveis e células-tronco, foram levantados pelo jornalismo científico antes de migrarem para outras editorias. Boa parte do espaço ocupado pelas discussões sobre esses temas deve-se a uma meia dúzia de nerds que atuam no jornalismo científico e acreditam na relevância dessa atividade.

JU – O jornalismo tem conseguido abordar corretamente os temas relacionados à ciência que geram grande impacto social?

Marcelo Leite – O jornalismo tem dado sua contribuição, embora não da maneira como seria desejável. Isso varia de veículo para veículo. De maneira geral, o jornalismo científico no Brasil tem deficiências, mas não é só o científico. Caminhamos muito, oferecemos grandes contribuições, mas ao mesmo tempo também tropeçamos muito em conseqüência de fatores internos e externos ao próprio jornalismo. Do ponto de vista interno existem as dificuldades habituais, como por exemplo equipes pequenas. Isso inviabiliza a especialização, mas podemos caminhar na complementação da formação profissional por meio de cursos, congressos, simpósios, etc. Além disso, ainda há uma incompreensão por parte de algumas redações sobre a relevância do jornalismo científico. Muitos jornais ainda não têm equipes especializadas em ciência. Em minha opinião, deveriam ter, justamente pelo impacto social, político e econômico de vários temas relacionados à ciência.

JU – Esse despreparo compromete a discussão pública sobre temas relevantes?

Marcelo Leite – Temos temas de interesse público com enormes raízes no conhecimento científico. Para debatê-los democraticamente e de maneira qualificada, precisamos de um razoável grau de conhecimento científico. Daí a importância de os veículos de comunicação de massa conseguirem disseminar um pouco mais desse conhecimento e suas implicações éticas, políticas, sociais e econômicas. Veja, por exemplo, esse entusiasmo todo com o pré-sal. Virou solução para tudo, mas ignorando-se o custo do investimento, que será diretamente proporcional à complexidade tecnológica da operação. De onde vamos tirar os recursos antes de explorar o petróleo que está sob a camada de pré-sal?

JU – Na introdução de seu novo livro, você diz que ao criar a coluna Ciência em Dia, o objetivo era tornar interessante o que é importante (para a vida pública), e não tanto tornar importante (pelo destaque jornalístico) o que só é interessante. Isso significa que o jornalismo científico estaria dissociado do que realmente interessa às pessoas?

Marcelo Leite – Depende do veículo. A televisão, por exemplo, vai mais na linha do que só é interessante, embora muitos telejornais já estejam dando uma atenção maior a essas questões. Ainda assim, a não ser na forma de grandes documentários, a televisão é um meio ingrato para tratar de temas científicos. Isso porque a brevidade é inimiga da complexidade. De um modo geral, porém, houve progressos nesse sentido. Atualmente, os jornalistas que cobrem ciência são profissionais não apenas bem informados, mas também passaram a conhecer melhor questões relacionadas às políticas públicas. Isso resultou especialmente da cobertura sobre mudanças climáticas e desmatamento na Amazônia. O mesmo ocorre na área de saúde. Estamos caminhando, embora ainda falte um longo percurso a ser vencido para atingir um nível de excelência.

JU – Parece haver um certo desprezo da imprensa pela cobertura sobre políticas públicas voltadas para ciência e tecnologia. É mais uma lacuna a ser preenchida?

Marcelo Leite – A política sobre C&T não está sendo abordada adequadamente, mas tenho dúvidas se essa cobertura caberia especificamente ao jornalismo científico. Quando entrei na Folha, em 1986, era muito comum a cobertura sobre política científica. Talvez metade da nossa cobertura fosse voltada para isso. O país estava se redemocratizando, a política tinha um peso importante nas questões científicas e as reuniões da SBPC tinham uma relevância pública que acabou se perdendo ao longo do tempo. Creio até que houve exagero de nossa parte naquela época. O jornalismo científico era muito permeável aos interesses da comunidade científica, havia uma proximidade, talvez excessiva com os formuladores das políticas públicas. Era uma cobertura quase corporativista. A gente escrevia para os gestores do CNPQ, da Fapesp, da Capes e para os pesquisadores das universidades e centros de pesquisa. Acho que houve um avanço quando nos afastamos desse tipo de cobertura e nos aproximamos mais do público em geral. Falar de ciência para o público. Isso foi positivo, mas ignorar a cobertura sobre política para C&T, como acontece atualmente, também não é uma boa saída.

JU – Além do jornalismo, outras áreas têm abordado temas científicos, embora de maneira tardia. Entre as quais os documentários e os museus de ciência. Em que medida essas iniciativas têm contribuído para a consolidação de uma cultura científica?

Marcelo Leite – Contribuem muito. Pessoalmente, gostaria de ver mais documentários produzidos no Brasil. Já há alguns trabalhos produzidos na televisão, mas gostaria de ver produtoras independentes investindo nessa seara. O meu interesse por biologia e ecologia tem muito a ver com documentários que assisti na televisão durante a infância. Claro que isso ainda depende de toda uma política de audiovisual, e nesse aspecto não são apenas os temas científicos que não decolam no Brasil. Para ser sincero, no que diz respeito à cultura científica no País, acho que o buraco é mais embaixo.

JU – E quais são as raízes do problema?

Marcelo Leite – É a má qualidade do ensino de ciências nas escolas de ensino fundamental e médio. É um problema sério. Se a educação já sofre uma crise terrível como um todo, na educação científica, em particular, a situação é ainda mais grave. A questão pedagógica nesse aspecto se torna mais aguda. Todos precisam aprender a ler, escrever e fazer contas. Mas penetrar nos conceitos da ciência exige algo mais, que a formação dos professores não oferece. Quando existe, é deficiente. O déficit existe nos dois aspectos: na quantidade e na qualidade dos professores. Faltam professores de física, química, matemática e biologia. E os que estão na ativa não se sentem suficientemente motivados ou preparados. Tem muito biólogo dando aula de matemática e vice-versa.

JU – Nesse ponto, voltamos então à questão das políticas públicas.

Marcelo Leite – Sim. A questão da formação dos professores é uma questão a­guda. O país tem de encontrar meios para formar melhor estes profissionais em todas as áreas, mas em particular no ensino de ciências. É preciso pagar melhor. Na rede pública os salários são ridículos. O país vem melhorando nesse aspecto, mas o processo está muito lento. Além disso, é preciso investir na reciclagem daqueles que já estão na ativa. É possível ensinar uma pessoa a ensinar bem. Mas é preciso políticas que façam esse conhecimento chegar aos professores que estão nas escolas públicas das cidades mais afastadas. Enquanto não tivermos a massa de alunos exposta à ciência ensinada de maneira interessante, não conseguiremos avançar. A cultura científica deve começar nas salas de ensino fundamental, mesmo que seja lendo jornal em sala de aula.

JU – De que maneira as universidades podem participar desse processo?

Marcelo Leite – Isso já entrou na agenda das universidades. Recentemente o governo de São Paulo assinou o decreto que oficializa a criação do Programa de Expansão do Ensino Superior Paulista através da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). São cinco mil vagas para pedagogia, mas também 700 vagas para licenciatura em Biologia e 900 para licenciatura em Ciências. Isso mostra que as universidades paulistas estarão diretamente envolvidas no processo que tem potencial para iniciar um salto de qualidade na formação de professores.

Má ciência e mau jornalismo*

Marcelo Leite Soube por Mike Shanahan, editor do portal SciDev.Net, de um artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian que vale por um curso inteiro de jornalismo científico: “Não me emburreça” (“Don’t dumb me down”). O autor é Ben Goldacre e o texto foi publicado no espaço de sua coluna, Má Ciência.

Goldacre tem o hábito salutar de desancar jornalistas de ciência britânicos na sua coluna. É uma espécie de ombudsman autodeclarado do jornalismo científico. O normal é ele fazer picadinho das pesquisas que viram manchetes, mostrando a inconsistência ou irrelevância dos estudos.

No último dia 8, ele resolveu fazer um balanço dessa compulsão demolidora e extrair daí uma tipologia das razões que levam repórteres e editores a cometer tantas barbaridades. Queria responder à pergunta: “Por que a ciência nos meios de comunicação é com tanta freqüência sem sentido, simplista, enfadonha ou pura e simplesmente errada?”.

A resposta é audaciosa: “Minha hipótese é de que, na sua escolha das reportagens e na maneira como as cobrem, os meios de comunicação criam uma paródia da ciência para uso próprio. Aí eles atacam essa paródia como se estivessem criticando a ciência”. Há três famílias de paródias, diz Goldacre: matérias excêntricas (“wacky”), matérias de meter medo (“scare”) e matérias sobre grandes avanços (“breakthroughs”).

No primeiro tipo cabem reportagens como aquelas que apontam o componente genético da infidelidade ou “o” neurônio que reage à imagem de Angelina Jolie. No segundo, a recorrente lenda de que a vacina MMR (sarampo, caxumba e rubéola) causa autismo. No terceiro, mais sutil, entram toneladas de reportagens em que avanços apenas incrementais são apresentados como grandes saltos da ciência.

Goldacre tem muita razão. O leitor que faça um exame das reportagens de ciência que encontra pela frente, sobretudo nas revistas semanais e na TV. Segundo o colunista do Guardian, tudo decorre da incapacidade de jornalistas entenderem as minúcias – em geral estatísticas – dos artigos científicos. Cientistas sabem reconhecer quando um artigo é má ciência. Jornalistas não.

O problema é que o serviço prestado por Goldacre vem turvado por certa intolerância (uma tentação sempre presente para quem chega ao ombudsmanato). Fala com desdém dos bacharéis em humanidades e os condena em bloco como relativistas culturais, interessados somente na desconstrução da ciência como produtora de inverdades travestidas de saber objetivo.

No fundo, parece que não aceita para cientistas a mesma vigilância que exerce sobre os jornalistas, como se houvesse alguma instituição acima da crítica. Nesse caso, pode-se começar a criticá-lo questionando: Por que os periódicos científicos, cuja seleção de artigos passa pelo crivo de cientistas praticantes (“peer-review”), admitem a publicação de estudos que segundo ele são má ciência?

Pós-escrito

Cientistas naturais estão sempre prontos a criticar – infelizmente, quase sempre com razão – os jornalistas de ciência e outros analistas provenientes do campo das humanidades, mas não mostram o mesmo empenho na hora de lavar a própria roupa suja. Embora cometam muitos erros de interpretação, jornalistas não constroem sozinhos a caricatura da ciência de que se queixa – com razão, repito – Bem Goldacre. Os profissionais da imprensa contam hoje com a participação ativa dos periódicos científicos de alto impacto, como Nature, Science, PNAS, Jama, Cell e outros, todos solícitos fornecedores de press-releases (comunicados à imprensa) e acesso antecipado sob embargo a artigos selecionados de pesquisa. Como são preparados por editoras comerciais, não chega a surpreender que destaquem nos comunicados as pesquisas com óbvio apelo jornalístico – tudo que se refira a sexo, drogas e obesidade, por exemplo.

Isso não isenta jornalistas de responsabilidade por seus erros de julgamento na seleção das notícias e pelo espaço ou tom que lhes emprestarão. Alguns dos repórteres e editores envolvidos com a cobertura de ciência já estão desenvolvendo resistência a esse apelo fácil, ainda que pondo em risco a própria reputação profissional (seus superiores encarregados de selecionar temas para a primeira página de jornais diários, por exemplo, têm predileção desmesurada por aqueles três assuntos e tendem a repreender aqueles que “brigam com a notícia”, como se diz no meio). Mas uma conseqüência inescapável da reprimenda de Goldacre é reforçar a noção de que só pesquisadores (ou médicos, no seu caso) possuem conhecimento técnico suficiente para avaliar criticamente a produção de conhecimento científico. Como raramente o fazem em público, e ainda mais raramente incluem na apreciação as práticas distorcidas e distorcedoras presentes em seu próprio campo, pouco ou nada contribuem para tornar mais transparente esse setor crucial da vida moderna, a pesquisa científica.

 

*Texto publicado na Folha de S.Paulo em 18 de setembro de 2005

 

Serviço: Ciência – use com cuidado; autor:Marcelo Leite; páginas: 280; preço: R$ 46,00; Editora da Unicamp