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Redes sociais contribuem para que imigrantes brasileiros permaneçam no Japão

Publicado em 11 dezembro 2012

O que leva os imigrantes brasileiros descendentes de japoneses a optarem por viver no Japão? Com certeza não são apenas os fatores geográficos ou as raízes que os conduzem até lá. O mercado de trabalho atraente e a segurança são algumas das principais vantagens por quem fixa residência naquele país.

Até pouco tempo eles iam para lá fazer dinheiro já numa perspectiva de retornar quando juntassem um certo capital. Hoje isso não está mais ocorrendo. A volta não acontece no prazo previsto, ampliando a “estadia” de famílias num lugar tão longe do seu país de origem. Foi o que mostrou a dissertação de mestrado da socióloga Katiani Tatie Shishito, apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). O estudo abrangeu o período entre 2008 e 2010.

Por que eles viajavam com a ideia de ficar pouco tempo e ficavam em definitivo? “No início, tratava-se de um fluxo de migração marcadamente temporário que depois sofreu indefinições. Não dá para dizer com certeza que essa trajetória será permanente, mas apresenta uma característica circular muito forte”, opina a autora do estudo.

A sua hipótese era de que a convivência no Japão, através das redes sociais entre brasileiros, criava um ambiente mais familiar e, por isso, as pessoas acabavam se acostumando com a vida no Oriente, embora não de forma integrada com aquela sociedade.

As redes sociais são formadas por brasileiros, que em geral residem na região central do Japão, no Estado de Aichi, nas cidades de Hamamatsu, Toyohashi, Nagoya e Okazaki e também mais ao norte em Oizumi. Com as redes sociais, a sensação é de familiaridade com as coisas do Brasil.

Katiani concorda que o salário no Japão sempre foi um chamariz para os imigrantes mas, no período estudado, o país vivia a crise econômica mundial, em 2009, que emergiu nos Estados Unidos – um grande receptor de carros e produtos japoneses –, provocada pelo mercado imobiliário.

A queda nos salários e o desemprego fizeram com que muitos brasileiros retornassem nesse período, mas ao mesmo tempo a constituição de famílias e a diminuição dos salários tornaram inviável a volta. A crise piorou com a chegada de um tsunami na costa nordeste do Japão (um lugar de poucos brasileiros), que afetou a estrutura de mercado e a economia do Japão por inteiro.

O estudo de Katiani situou essas crises e começou com a perspectiva de instabilidade de mercado para os imigrantes, em 2010. Ela conta que o Japão agora está se recuperando, contudo já foi alvo de racionamento de água, quando a produção de energia nas usinas nucleares atingiu a produção como um todo. Também a jornada de trabalho foi reduzida até a energia se estabilizar. 

Os pontos fortes da economia no Japão hoje são as indústrias automobilística e a manufatureira (de produtos eletrônicos). Os brasileiros são absorvidos na produção de chão de fábrica. Há ainda os que têm negócio próprio, vendendo produtos brasileiros e serviços para brasileiros. É um pequeno grupo que não atua no mercado precarizado.

 Os imigrantes brasileiros ganham razoavelmente bem, comparativamente ao salário oferecido no Brasil, todavia são esses os serviços que os japoneses qualificados não desejam fazer e que ficam relegados aos imigrantes.

Precarização

Na década de 1990, houve uma reforma na lei de controle da imigração japonesa, momento em que muitos imigrantes do sudeste asiático entravam no país sem visto de residência de longo prazo ou para trabalho. Entravam como turistas e, expirando os vistos, permaneciam ali fazendo serviços não qualificados, como imigrantes indocumentados.

O país teve uma reação: como muitos deles eram considerados “indesejáveis”, pois não se enquadravam nas exigências da política migratória vigente, o governo abriu as portas para os descendentes radicados no exterior. 

Essa lei garantiu que até a terceira geração de descendentes de japoneses entrasse no Japão, além dos cônjuges e dependentes. Muitas famílias foram para lá trabalhar, suprindo a necessidade da mão de obra não qualificada.

Antagonicamente, essa lei não admitia (e não admite) mão de obra desqualificada. O que havia (e há) são várias modalidades de vistos pedindo qualificação para algum tipo de trabalho – como a diplomacia e o magistério, por exemplo.

Alguns estudos japoneses interpretam que essa lei foi uma estratégia para suprir a demanda de mão de obra não qualificada com os descendentes de japoneses que estavam no exterior.

A surpresa foi que era de se esperar menos choques culturais por se tratar de descendentes, o que manteria alguns costumes. O que não contavam é que, como eles já estavam há três gerações no Brasil, já tinham costumes brasileiros muito arraigados, um estilo de vida muito diferente do Japão. 

Metodologia

A maior dificuldade de Katiani foi entrevistar os brasileiros no Japão. Como não conseguiu fazer a pesquisa de campo presencialmente, devido ao alto custo da viagem, mesmo com sua família morando no Japão, sua estratégia foi apelar para o pai. Ele era então secretário de uma associação brasileira da Prefeitura de Okazaki, onde residia sua família. Ele treinou uma equipe para aplicar um questionário contendo 12 módulos.

O plano mostrou-se factível, graças a esse vínculo institucional, não apenas com a Prefeitura e com a associação. Foi obtida ajuda do Consulado Geral do Brasil em Nagoya, que autorizou o uso do seu logotipo institucional, dando maior credibilidade à pesquisa, da qual foram obtidas informações de 195 brasileiros em 78 domicílios.

Esse instrumento indagava sobre a expectativa inicial de permanência: se foi concretizada? Foram explorados ainda os motivos: se eles se acostumaram à vida no Japão?, se juntaram o dinheiro pretendido?, se formaram família?

A ideia também era captar informação nas redes: quem ajudou com os recursos para a viagem, com o primeiro emprego e com a primeira hospedagem? Ainda outras questões como se os filhos estudavam em escolas brasileiras ou japonesas, se os brasileiros pagavam aposentadoria no Japão ou no Brasil e se pretendiam fixar moradia lá?

A família de Katiani pensava em ficar lá dois anos. Já está há 15 anos. “Fiquei no Japão dos 13 aos 19 anos, quando retornei para fazer a graduação”, relata a mestranda.

Ela tinha receio de estudar em escola japonesa, pela falta de fluência no idioma, mas havia poucas escolas brasileiras e muito caras. Sua família (o pai é filho de japoneses) tinha sofrido um golpe de uma empreiteira e, chegando ao Japão, não tinha nada certo. “O nosso passaporte foi confiscado”, lamenta. 

A jovem começou a trabalhar informalmente aos 14 anos em uma fábrica. Era trabalho pesado de montar peças de registro de gás. No ano seguinte, o governo brasileiro criou um supletivo para brasileiros que estavam no exterior.

O projeto piloto foi no Japão, onde ela concluiu o ensino fundamental. Como incentivo, o governo concedeu um prêmio para as três melhores notas. Katiani ficou entre os distinguidos e viajou para o Brasil a fim de receber o diploma do Ministério da Educação (MEC). Isso foi em 2000.

Voltou ao Japão e lá ficou mais três anos, completando o supletivo do Ensino Médio. Em 2003, aos 19 anos, estava no Brasil. Levou dois anos para se reorganizar e se readaptar. Fez cursinho e em 2006 ingressou em Sociologia na Unicamp.

Fez o primeiro recorte do projeto dos brasileiros no Japão na iniciação científica. Ampliou o trabalho no mestrado, orientado pela professora Rosana Baeninger, dentro do projeto “Observatório das migrações em São Paulo: Fases e Faces do Fenômeno Migratório”, uma parceria entre Fapesp, CNPq e Nepo da Unicamp.

Rede

No seu estudo, as hipóteses de convivência em redes mostrou que os brasileiros que estão morando há mais tempo no Japão estão fortemente inseridos em redes de relações entre compatriotas. Embora haja também relações com japoneses, as relações entre brasileiros foram mais acentuadas. A presença de alguns elementos do Brasil contribuiu para isso, e alguns estudos do Japão e do Ministério das Relações Exteriores igualmente assinalaram a tendência de maior permanência no destino.

A dissertação também sinalizou para a possibilidade de ter contato com a comida brasileira, de ter uma TV brasileira e de estar no cotidiano com brasileiros trocando informações sobre o Brasil. Não notou-se uma imersão na vida japonesa. Até podem morar lá para sempre, porém não integrados àquela cultura.

No questionário também foram feitas perguntas abertas avaliando tal permanência. Muitos falaram sobre a segurança como um ponto favorável, isso porque as imagens e as informações veiculadas na mídia sobre o Brasil são negativas e reforçam a violência e as tragédias.

As pessoas acabam apagando da memória o cotidiano brasileiro e ficam com medo de voltar para a violência e a instabilidade econômica. E de fato, chegando aqui, voltam sem qualificação e encontram dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Muitos não se estabilizam e, como subterfúgio, retornam ao Japão.

Nesse sentido, hoje em dia alguns programas fornecem capacitação para imigrantes ao retornarem ao Brasil. O  Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), com o projeto Dekassegui Empreendedor, é um deles.

Distanciamento

No caso de crianças brasileiras que estudam em escolas japonesas ocorre outra dinâmica: elas entram no ritmo e na cultura daquele país, ganhando fluência na língua. Se os pais não conversam com elas em português, acabam falando somente o japonês.

Ocorre que alguns pais vão adultos para o Japão e não sabem falar a língua, muito porque lá existem tradutores nas fábricas e intérpretes. Com isso, não conseguem se comunicar com os próprios filhos, fato que tem fomentado discussões na área de Educação. “Há crianças com vergonha de serem brasileiras. Não querem visitar o Brasil, o que contribui para que os pais optem por morar no Japão”, diz a mestranda.
Lá, no momento, estão sendo reformuladas políticas para garantir alguns direitos inclusive no Brasil. Alguns acordos bilaterais envolvendo o MEC já buscam o reconhecimento das escolas brasileiras quando há o retorno dos imigrantes. Outros contemplam a questão previdenciária: os anos contribuídos no Japão passam a valer no Brasil. “Mostrando que os imigrantes estão ficando mais no Japão e que hoje há uma outra dinâmica migratória, é possível que muitas dessas políticas se efetivem. Agora, nem só o Brasil, nem só o Japão dão conta de tudo”, admite Katiani.