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Diário de S.Paulo

Rede vai pesquisar tuberculose

Publicado em 16 dezembro 2001

Por REGIANE MONTEIRO
Há dois anos, a equipe do farmacêutico Célio Lopes da Silva, do Departamento de Parasitologia, Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, ganhava destaque na revista Nature, uma das mais importantes publicações científicas do mundo. Na época, eles revelavam sucesso em um estudo sobre a criação da primeira vacina gênica contra a tuberculose. A INICIATIVA E INÉDITA NO MUNDO E VAI REUNIR LABORATÓRIOS ESPECIALIZADOS EM OUTROS PAÍSES Agora, a mesma equipe está encabeçando a criação de uma rede que vai envolver mais de 170 pesquisadores, distribuídos em 47 centros de pesquisa em nove estados do país. Chamada de Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose (Rede-TB), a iniciativa é inédita no mundo e vai reunir também laboratórios especializados no assunto em outros países como França, Canadá, Alemanha, Bélgica e EUA. Tanto é assim que a Organização Mundial de Saúde (OMS) também demonstrou interesse no projeto. A idéia é interligar as pesquisas tanto para o desenvolvimento de novas drogas contra a doença como também na criação de uma vacina e até no acompanhamento do tratamento dos pacientes. Isso significa, segundo Lopes, que os dados serão cruzados com mais facilidade, evitando-se os estudos isolados e podendo acelerar na descoberta de novos tratamentos. Pelo menos até agora, a Rede-TB conta com orçamento integral de R$ 5,1 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). Mas alguns laboratórios farmacêuticos já demonstraram interesse em integrar o projeto. Segundo Lúcia Helena Faccioli, responsável pelo Laboratório de Infecções e Imunologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto, a rede vai permitir aos pesquisadores descobrir também a eficácia de medicamentos associados no tratamento da tuberculose. INTEGRAÇÃO A Rede TB vai reunir três aspectos dos estudos em relação ao tratamento da tuberculose. Na pesquisa básica acontecem os testes com cobaias e as novidades em relação à vacina gênica. Outra parte do projeto será o levantamento epidemiológico, realizado no Rio de Janeiro, onde os pesquisadores vão analisar a progressão da doença e resultados do tratamento nos pacientes. Outra parte do grupo será responsável pelos testes com novas drogas no combate à doença, como antibióticos. Segundo Lúcia, união dessas três vertentes vai evitar que as pesquisas fiquem soltas na literatura médica. "Poderemos associar medicamentos e testá-los em cobaias antes de iniciar a avaliação clínica, em pacientes, por exemplo", explica a farmacêutica. Além dos testes com novos medicamentos, a Rede TB também pretende ganhar espaço na formação de profissionais capacitados para o tratamento da doença. Tanto é que a Rede TB não inclui apenas médicos como também farmacêuticos e biólogos. Por enquanto, os pesquisadores ainda não arriscam previsões sobre novos tratamentos e a criação de novas drogas. Mesmo assim, garantem que a criação da rede vai acelerar no desenvolvimento de novas drogas contra doença. AIDS AUMENTOU O NÚMERO DE CASOS - A tuberculose voltou a ser um problema importante de saúde pública também em países ricos com a chegada da Aids. - Não há como eliminar o bacilo de todos os infectados. Ele se aloja mais freqüentemente no pulmão, por tempo Indefinido, embora possa Infectar todas as partes do corpo humano, permanecendo contido pelas células de defesa do organismo. - Estima-se em mais de 50 milhões o número de brasileiros infectados. No mundo, existem quase 2 bilhões de indivíduos. - Entre os países com maior número de casos estão Índia, a China, a Indonésia, Bangladesh, a Nigéria, o Paquistão, as Filipinas, o Congo, a Rússia, o Brasil. - O contágio ocorre por via inalatória, a partir de aerossóis durante o ato da tosse, fala e espirro de pessoas eliminadoras de bacilos (bacilo de Koch). VACINA DE DNA FOI PRIMEIRO PASSO Em 15 de julho de 99, a revista Nature publicava uma matéria sobre a primeira vacina de DNA que poderia tratar e evitar a tuberculose. Os pesquisadores faziam parte do Laboratório de Vacinas Gênicas, uma divisão do Departamento de Parasitologia, Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. O desenvolvimento da vacina gênica contra a tuberculose promete ser o futuro no tratamento de uma doença que desafia médicos e cientistas há mais de 100 anos. Ao contrário das comuns, que utilizam uma forma menos ativa de vírus ou bactérias, por exemplo, a vacina desenvolvida pela USP de Ribeirão Preto usa um pedaço do DNA do bacilo Mycobacterium tuberculosis, o agente causador da tuberculose. O bacilo se esconde dentro das células humanas, provocando a doença. Com a vacina, os pesquisadores conseguiram acabar com essas células e eliminar o bacilo do organismo (veja explicação acima). Segundo os pesquisadores, evitar revacinações é uma das vantagens das vacinas gênicas. Além disso, como atua no organismo por mais tempo, essa vacina também serve como tratamento para pacientes já infectados pelo bacilo. Os testes em camundongos demonstraram que a vacina pode ser uma arma na erradicação da doença. A princípio, os testes com a vacina de DNA foram realizados em camundongos. Mas a vacina que pode debelar a tuberculose também será testada em humanos. Os grupos já estão sendo formados. A escolha dos pacientes vai acontecer de acordo com o grau de resistência aos medicamentos já disponíveis no mercado. Alguns portadores do bacilo causador da tuberculose são resistentes a todo as drogas usadas no combate à doença. IMUNIZAÇÃO PRÓXIMA Pesquisadores desenvolveram vacina contra a doença - O bacilo causador da tuberculose se conde dentro das células humanas Célula - Para combatê-lo, é necessário estimular os chamados linfócitos T CD8, que são produzidos quando estimulados por uma antígeno, da mesma forma que acontece nas infecções virais DNA - Para formar a vacina, os pesquisadores utilizaram um pedaço do ONA do bacilo, capaz de ajudar na formação do antígeno que estimularia a formação dos linfócitos Célula livre do bacilo - Essa ativação, ajudou na eliminação das células que continham o bacilo em seu interior e também a eliminá-lo do organismo - Com a vacina é formada por parte do ONA do bacilo e não pela forma atenuada, como nas vacinas comuns, acredita-se que a vacina gênica será a melhor forma de combater a tuberculose