Notícia

Jornal da Tarde

Rede é útil para manter e aprimorar o idioma

Publicado em 17 julho 2008

Por Marcus Vinícius Brasil

Poliglota

"Também vale a pena utilizar sites como complemento ao aprendizado tradicional"

Apesar de ainda estarem longe de serem usadas como substitutas ao tradicional ensino de línguas, redes sociais são poderosas ferramentas complementares. Há escolas em que os próprios professores recomendam alguns desses sites como maneira de auxiliar o aprendizado.

Marcelo Ferreira é um bom exemplo de como a internet 2.0 pode ajudar. Ele tem 20 anos e usa o SharedTalk há três, principalmente para melhorar o inglês.Ele já havia estudado em uma escola tradicional, mas garante que foi graças à internet que chegou ao nível de fluência que desejava.

“Quando conversei pela primeira vez com um americano pelo SharedTalk, ele me perguntou ‘what’s up?’ (gíria em inglês que significa algo como ‘e aí?’ ou ‘como vai?’) e eu não fazia idéia do que se tratava.Durante o tempo em que estudei da maneira tradicional, não aprendi nem a mais básica das gírias”, conta Marcelo.

O SharedTalk o ajudou também no aprendizado do francês.Após estudar por cinco meses em um instituto, ele procurou na internet por parceiros que pudessem ajudá-lo. "Depois de conversar com nativos por algum tempo, prestei um exame de classificação na Aliança Francesa e eles me avançaram três estágios. A avaliadora disse que, mesmo sem um conhecimento gramatical mais aprofundado, a minha pronúncia estava ótima.Mesmo assim não me matriculei e continuo aprendendo pela internet. Visitando as páginas de sites como Xlingo e SharedTalk, é fácil encontrar perfis recém-cadastrados vindos dos mais diversos Estados do Brasil."

Jefferson Silva mora em Santa Catarina e também é veterano. Sua lista de contatos inclui tailandeses, russos,japoneses e neozelandeses. "Eu ensino da mesma forma que gostaria de aprender. Explico quais são as palavras e expressões mais correntes no dia-a-dia e peço para a pessoa ler textos em português pelo Skype, aí posso corrigir a pronúncia.”

Thales Coutinho conheceu o iTalki através de amigos e o acessa para praticar tanto inglês, que estuda há seis anos, quanto francês. Ele vê no inter câmbio cultural o maior atrativo desse tipo de aprendizado. "Além de ter melhorado muito o nível do meu francês, conheci novas pessoas. Entrar em contato com outras culturas é um estímulo."

O economista Ricardo Nascimento é outro exemplo de uso para essas redes. Apesar de já ter familiaridade com o inglês, ele utiliza o Xlingo para "não enferrujar". "Acabei largando o curso porque fiquei desestimulado. Às vezes você cai em uma turma que não tem o perfil que você busca, então comecei a estudar por conta própria na web."

Uma das pessoas que ajudam Nascimento a fazer a manutenção do seu inglês é a nova-iorquina Emily Schrynemakers, com quem troca macetes de pronúncia em inglês por outros de português. "A principal dica é procurar por alguém que possua um perfil semelhante ao seu, compartilhe interesses culturais, goste de bandas similares, para que daí possa surgir uma conversa agradável", diz Emily.

Robert Oen, professor de 55 anos nascido no Reino Unido, foi mais fundo e criou sua própria rede social. A English Online Community (www.english-online-community.com) funciona há pouco mais de um ano e reúne cerca de 700 usuários interessados exclusivamente em aprender inglês.

Ele vive atualmente na Tailândia, e começou o projeto porque seus alunos "não tinham oportunidade de praticar regularmente o inglês", que "é quase uma segunda língua no país."

"Estamos desenvolvendo uma nova seção para ligar escolas rurais entre si através de nossa base de dados. Como Skype, agora é possível para os estudantes fazerem amigos pelo mundo todo. Mas essa seção para alunos mais jovens terá moderação, com profissionais envolvidos", conta Oen.

Para o professor, "a maioria das pessoas com conhecimentos básicos só precisa melhorar o vocabulário e acumular confiança".

Obstáculos

É quase consenso que o momento mais problemático do aprendizado em redes sociais é o pontapé inicial. A maioria dos usuários admite que, sem um conhecimento mínimo de gramática, fica muito mais difícil aprender o resto.

"Esse sistema de aprendizado é mais útil para pessoas que já têm um conhecimento intermediário ou avançado. Para o iniciante, sem bases de construção e vocabulário mais amplo, fica difícil", admite EricPang, presidente daiTalki. Mas ele garante que já trabalha por uma solução para esse dificuldade.

Segundo Eric, o iTalki deve inaugurar um novo sistema que incluirá professores no processo. "A vantagem é que os tutores serão nativos. Ter aula de japonês com um professor do Japão é certamente uma experiência mais enriquecedora."

João Telles, professor da Unesp e um dos idealizadores do projeto Teletandem Brasil vê no sistema de professores nativos mais problemas do que soluções. "As metodologias são muito diferentes entre brasileiros e japoneses. Esse choque de culturas pode ser prejudicial para quem estiver aprendendo."

Já a Livemocha encontrou outra solução para o mesmo problema. Além de oferecer uma plataforma para que pessoas possam se conhecer, a rede tem também uma série de exercícios nos idiomas mais procurados – entre eles o inglês e o alemão – voltados para uma prática mais à antiga. "Damos às pessoas não apenas ferramentas para se conectarem com nativos, mas também exercícios básicos de aprendizado."

Outra questão que levanta suspeitas no estudo de idiomas 2.0 é a ausência de uma seqüência de aprendizado, mais conhecida com o método de ensino.

Para a professora Walkyria MonteMór, do Departamento de Letras Modernas da USP, a ausência de um método rígido não é obstáculo. "Ao contrário. Já houve uma época em que foram priorizadas técnicas e procedimentos, mas essa visão está, no mínimo, sobre visão.A questão do método não é mais tão importante, já que as pessoas estão organizando seu conhecimento de forma diferente."

Segundo Walkyria, a única resistência que ela encontra a essas transformações partem de "professores que não sabem transformar suas práticas. Eles entendem que a sociedade mudou, mas, por terem recebido uma outra formação,têm dificuldade de compreender como podem mudar também."

Apesar de todas as facilidades da internet, os velhos problemas da web também estão presentes no aprendizado de idiomas. OXLingo, por exemplo, é prato cheio para usuários que espalham spam. Não é difícil também encontrar relatos de usuários falsos cobrando dinheiro pelas aulas, agressões verbais e até xenofobia.

"Eu estava no SharedTalk, em uma sala de pessoas da América Latina, quando uma menina começou a nos chamar de ‘aliens ilegais", conta Marcelo Ferreira.

Moeda desvalorizada

Outra dificuldade que o brasileiro encontra é a escassez de usuários querendo trocar seus conhecimentos pelo aprendizado do português. No Livemocha, por exemplo, uma rápida pesquisa pelas salas de alemão mostra que é muito raro encontrar algum nativo da Alemanha que queira aprender outro idioma além de inglês ou francês.

Por esse motivo, Emily é um caso raro nessas redes sociais, o que a obriga a lidar com dezenas de mensagens diárias de brasileiros. "Está ficando difícil porque tem um monte de usuários do Brasil me mandando mensagens, e eu não tenho tempo para responder a todas. Eu me sinto mal porque gostaria de ajudar todo mundo, mas chegam cerca de 50 mensagens todos os dias. Complemento: maioria utiliza redes sociais junto ao método tradicional."

"Troca difícil: poucos estrangeiros querem aprender a língua portuguesa".

 

Sites também ajudam a melhorar português

Para quem estiver aprendendo um idioma na web, as facilidades não param nas redes sociais. Há sites que oferecem ferramentas para agilizar o aprendizado de línguas, solucionar dúvidas de pronúncia e oferecer ajuda através de vídeos didáticos

Mas, além de facilitar a vida de quem estuda línguas estrangeiras, a tecnologia oferece soluções para destrinchar a boa e velha gramática portuguesa.

Um bom começo é procurar por extensões para navegadores como o Firefox ou Internet Explorer. Há inúmeras opções de add-nos, inclusive de dicionários e ferramentas de tradução. Em vez de navegar por sites ou recorrer aos livros tradicionais, esse tipo de ata lho quebra um bom galho.

O FoxLingo (do Firefox), por exemplo, oferece um pacote quem inclui tradução de páginas na web para cerca de mil idiomas e uma centena de links para sites de aprendizado de línguas.

Também há endereços na web nascidos para solucionar peque nas dúvidas de português. O Só língua Portuguesa (www.solp.com.br), por exemplo, lança luz sobre algumas das maiores fontes de erros gramaticais. Para acessar todo o conteúdo, basta preencher um cadastro gratuito.

Desde dúvidas mais básicas - como a diferença entre “mau” e “mal” - até material sobre morfologia, sintaxe e semântica estão no endereço, que reúne também jogos, provas online e exercícios resolvidos.

No Gramática On-line (www.gramaticaonline.com.br), a proposta é semelhante. O endereço possui exercícios de ortografia, fonética, dicas para uso de hífen, pronomes e verbos. Além do "grosso" gramatical, o menu inclui um guia para o estudante evitar pegadinhas idiomáticas.

Há até uma agregador de sites educacionais disponível na internet. O INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - mantém a Biblioteca Virtual de Educação (http:llbve.cibec. inep.gov. br), em que estão reunidos sites educacionais brasileiros e estrangeiros. Lá você encontra bibliografias, endereços sobre educação infantil etc.

Colaboração

Outra maneira de encontrar in formação na Internet - se você confia em wikis elaborados a partir do esforço coletivo - é o Wikcionário (www.pt.wiktionary.org).

Apesar de ser um pouco diferente dos dicionários aos quais esta mos acostumados, o interessante do site é que ele encara o português de uma maneira menos localizada, considerando expressões não apenas usadas no Brasil ou em Portugal, mas também algumas definições características de Angola, Cabo Verde e Moçambique, onde também se fala o idioma de Camões.Tu do graças ao caráter colaborativo do site. (M.V.B.)

 

Aprendizado pela web já chegou ao meio acadêmico

Seriedade

"VoIP serve para colocar em contato alunos de outros países com estudantes de Letras"

Aprender idiomas em redes sociais não é uma novidade restrita a nerds de computador.A idéia de fazer um intercâmbio entre alunos de países diferentes por meio da internet já chegou à academia, como mostra o projeto Teletandem Brasil (www.teletandembrasil.org), da Unesp de Assis e São José do Rio Preto (interior de São Paulo).

A idéia é bastante similar à de redes abertas como a XLingo ou a SharedTalk. A diferença é que na universidade o ingresso é restrito a alunos da Unesp ou de centro de línguas conveniados.

Os participantes informam seus interesses através de um cadastro e esperam por um parceiro que possua um perfil adequado em outras instituições associadas; aí é só começar a conversa.

O conceito foi adaptado do Tandem alemão, em que pessoas trocam conhecimentos das mais diversas áreas, sejam artísticos ou técnicos - vale até natação. Com um empurrão da tecnologia, a idéia foi aplicada ao aprendizado de línguas.

O projeto recebe verba da Fapesp desde 2006, e as unidades de Assis e de São José do Rio Preto contam há um ano com laboratórios dedicados exclusivamente ao Teletandem, equipados com conexão rápida, microfones e webcams.

João Telles, um dos idealizadores do projeto (leia entrevista abaixo), acredita que reconhecer as individualidades dos alunos é a principal

Característica da "escola de idiomas do século 21"

"São raras as vezes em que decidimos sobre a nossa própria educação. Esse tipo de aprendizado representa uma grande ruptura na questão da educação, principalmente pela autonomia e por questionar qual é o papel do professor."

Larissa Faria, de 19 anos, é uma das participantes do Teletandem Brasil. Ela estuda alemão e garante que as sessões com sua correspondente na Alemanha - com quem estudou por mais de um ano - a ajudou a evoluir. "Na faculdade aprendemos muita gramática, então meu foco está na conversação. A colaboração me ajuda principalmente na minha formação como professora de língua estrangeira."

(M.V.B)

 

"O professor é um mediador"

Entrevista João Telles

Idealizador do projeto Teletandem

João Telles é membro do Programa de Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e foi o principal idealizador do projeto Teletandem Brasil. Ele já tinha contato como sistema há mais de 20 anos, quando nem sabia que o que estava fazendo já era teorizado desde a década de 1980. Ele adaptou a idéia para o aprendizado de línguas e começou em 2006 o projeto Teletandem Brasil, na Unesp de Assis. 

Como começou seu envolvimento com o Tandem?

Eu já fazia Tandem desde 1986, quando tive uma experiência no Japão. Tinha parceiros com quem trocava inglês por uma hora de japonês. Em seguida, no Canadá,pratiquei um ano de francês com uma garota e depois um ano como namorado dela. Foram dois anos em que aprendi a falar francês pelo Tandem presencial.

Qual é a importância de redes sociais voltadas para o aprendizado de idiomas?

Essas redes são importantes porque reconhecem a individualidade do aluno, para que isso possa usado em prol do aprendizado. Isso é certamente o ensino de línguas estrangeiras do século 21. Não mais para passar coisas na lousa, seguir unidades rígidas.Há outros tipos de métodos não calcados no estruturalismo que também levam o aluno ao aprendizado.

Qual o papel do professor nessa nova realidade?

O professor do século 21 tem o papel de mediador do aprendizado. É formado para lidar com as novas tecnologias, conhece as técnicas e os métodos, mas também a prática. Deve ser muito mais orientado para os processos de aprendizagem, para abrir o leque de possibilidades e permitir que os alunos possam desenvolver sua autonomia.

Há correntes contra esse pensamento?

Nosso projeto é muito bem aceito. Se há, é pela ignorância.Tem gente que vem e fala que o melhor professor é aquele que se reúne face a face e que ainda dá aula frontal. O mundo está mudando, as comunicações estão causando metamorfoses e a tecnologia está provocando mudanças no currículo de língua estrangeira e de outros cursos.