Notícia

Jornal do Comércio (AM)

Rede de Pesquisas em Malária é formalizada em Manaus

Publicado em 04 novembro 2008

A criação da Rede Nacional de Pesquisas em Malária - ou Rede Malária - foi um dos principais resultados da 11ª. Reunião Nacional de Pesquisa em Malária e da 1ª Reunião Inter-Amazônica em Malária, realizadas semana passada, em Manaus

A criação da Rede Nacional de Pesquisas em Malária - ou Rede Malária - foi um dos principais resultados da 11ª. Reunião Nacional de Pesquisa em Malária e da 1ª Reunião Inter-Amazônica em Malária, realizadas semana passada, em Manaus.

A Rede Malária é uma iniciativa da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas), em parceria com as FAPs (Fundações de Amparo à Pesquisa) do Pará (Fapespa), Maranhão (Fapema), Minas Gerais (Fapemig), Mato Grosso (Fapemat), São Paulo (Fapesp) e Rio de Janeiro (Faperj), além do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e o Ministério da Saúde, por meio do Decit (Departamento de Ciência e Tecnologia).

A previsão é que o orçamento da Rede Malária possa alcançar R$ 30 milhões para investimentos nas primeiras pesquisas, a partir de convênio com o ministério.

Durante o encontro na capital amazonense, cerca de 250 estudantes, professores e pesquisadores também intensificaram o debate a respeito das pesquisas sobre a vacina contra malária e esperam, a partir de então, concretizar a troca de experiências em resultados mais promissores no futuro. Segundo pesquisadores, as vacinas que existem contra malária atualmente não são consideradas satisfatórias porque ainda não apresentam a eficácia desejada.

As possibilidades de estudos sobre os pacientes portadores de malária que não apresentam os sintomas da doença também estiveram entre os principais assuntos tratados. Na avaliação do diretor da Fiocruz Amazônia, Roberto Sena, malária é um dos principais problemas de saúde tropical no país e por isso deve ser prevenida e contar com pesquisas que avancem rumo à sua extinção.

Pesquisadores estrangeiros

Sena lembrou que os eventos também contaram com a participação de pesquisadores que vieram da Espanha, Estados Unidos e Colômbia. A região amazônica tem mesmo que se mobilizar para estudar a temática porque 99% dos casos estão aqui, apesar de a malária estar diminuindo no Amazonas, por exemplo.

“Não devemos esperar uma crise ou epidemias para investir nas pesquisas em malária. A prevenção começa muito antes”, declarou Sena. Segundo o médico Marcus Vinícius Lacerda, especialista em Doenças Infecciosas e Parasitárias da FMT-AM (Fundação de Medicina Tropical do Amazonas), existe uma sobrecarga muito grande da malária na região Norte, resultando, por exemplo, em motivos concretos para que as pessoas deixem de ir à escola ou ao trabalho.

Enfermidade pode retardar educação da juventude

Para o pesquisador, a permanência da malária numa região pode impedir o seu desenvolvimento. Crianças em atividade escolar que pegam malária várias vezes ao ano não têm condições de aprender como uma criança saudável e isso logicamente impacta no aprendizado no fim do ano. Doenças como a malária podem retardar o desenvolvimento do país, porque podem impedir que seus jovens cheguem às universidades”, explicou o especialista.

Os eventos em Manaus foram coordenados pelo Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Instituto Leônidas e Maria Deane da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), FMT-AM e Fundação de Vigilância Sanitária. Também estiveram presentes técnicos do Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana de Saúde e da Organização Mundial de Saúde.

Dados do Ministério da Saúde mostram que 99,9% dos casos de malária no Brasil são registrados nos 807 municípios da Amazônia, sendo cerca de 60 deles são responsáveis pela notificação de 80% dos casos contabilizados.

De 2006 para 2007, os casos de malária aumentaram 5,7% na Amazônia. Em 2008, no entanto, os casos na Amazônia diminuíram 34,8% nos cinco primeiros meses do ano – em comparação ao mesmo período do ano passado.

Cientistas querem pesquisar pacientes que não apresentam sintomas

Casos de pacientes com malária que não apresentam os sintomas da doença poderão virar alvo de pesquisa de cientistas brasileiros em breve.

De acordo com o médico Marcus Vinícius Lacerda, especialista em Doenças Infecciosas e Parasitárias da FMT-AM (Fundação de Medicina Tropical do Amazonas), saber quem são os pacientes assintomáticos da malária, entender o que a falta de sintomas pode representar e se vale a pena tratar essas pessoas - ou não – são grandes desafios para os pesquisadores, sobretudo na Amazônia, onde estão concentrados aproximadamente 99% dos casos registrados da doença no Brasil.

Segundo Lacerda, as possibilidades de contaminação e os números sobre os doentes de malária podem ser ainda maiores, se forem considerados os pacientes que têm a doença mas não apresentam qualquer sintoma.

“Precisamos entender o que significam essas pessoas que não têm febre nem dor de cabeça, mas têm o plasmodium [parasita causador da malária] no sangue. Se a pessoa não tem sintoma, ela não vai procurar tratamento e portanto não vai fazer o exame. Talvez seja interessante tratar essas pessoas, ainda não sabemos”, declarou Marcus Vinícius Lacerda,.

Semana passada, em Manaus, centenas de pesquisadores discutiram o assunto durante a 11ª. Reunião Nacional de Pesquisa em Malária e a 1ª Reunião Inter-Amazônica em Malária. Agora, se preparam para consolidar um documento que será fruto das discussões iniciais e se constituirá num grande projeto a ser encaminhado ao CNPq, com vistas a um possível financiamento.

O CNPq pode financiar o projeto, que deve durar alguns anos e, ao final disso, apresentar algumas respostas pretendidas, como o que os pacientes assintomáticos representam para transmissão de malária na área e se a não apresentação dos sintomas significa que esses sujeitos jamais sentirão os sintomas ou se poderão senti-los.

O pesquisador da FMT-AM disse ainda que, apesar de no Brasil os estudos sobre o assunto serem recentes, a situação já era percebida na África há vários anos.

No caso do Brasil, o pesquisador ressaltou que os estudos necessariamente devem ser feitos na região amazônica.

Um terço da população que vive na área de malária da África, por exemplo, tem o plasmodium e não sente nada.