Notícia

Jornal da Unesp

Rede consolidada

Publicado em 01 março 2017

Por Marcos Jorge

A Unesp inaugurou em janeiro mais um laboratório associado do Instituto de Pesquisa em Bioenergia (IPBEN). O prédio, localizado no Câmpus de Rio Claro, é o último dos oito laboratórios que formam a rede idealizada em 2011, encerrando uma primeira etapa cujo foco foram as obras de infraestrutura. Abre-se assim uma nova fase, em que desenvolvimento de pesquisas, fortalecimento da rede, consolidação do programa integrado de doutorado (veja box) e busca por recursos em parcerias terão prioridade.

Além do laboratório associado em Rio Claro, a rede conta com braços nas cidades de Araraquara, Assis, Botucatu, Guaratinguetá, Ilha Solteira, Jaboticabal e São José do Rio Preto. Rio Claro também é a sede do Laboratório Central do IPBEN, sob a coordenação do professor Nelson Ramos Stradiotto.

O docente do Instituto de Química de Araraquara assinala que a estrutura central foi a primeira a ser inaugurada, em dezembro de 2014. “Entre as funções do edifício central está o fomento e a coordenação da colaboração em rede, evitando, por exemplo, redundâncias nas pesquisas”, explica.

HISTÓRICO

A criação do IPBEN da Unesp está ligada a uma iniciativa do governo do Estado de São Paulo e da Fapesp de criar, em 2010, o Centro Pau lista de Pesquisa em Bioenergia como desdobramento do Programa de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), inaugurado dois anos antes pela agência de fomento paulista.

A ideia era estimular o potencial estadual nesse setor por meio de pesquisas, parcerias com o setor privado e formação de recursos humanos qualificados dentro das três universidades públicas paulistas. Dessa forma, Unesp, USP e Unicamp direcionaram seus recursos para fortalecimento de núcleos de pesquisa e laboratórios ligados à bioenergia.

Glaucia Mendes Souza, é uma das coordenadoras do programa da Fapesp. A docente do Instituto de Química da USP destaca o papel fundamental que o Brasil tem na expansão das pesquisas em bioenergia no mundo. “Vivemos agora uma retomada na importância dessa área para a comunidade científica mundial por conta da crescente preocupação com as mudanças climáticas”, aponta.

Desde seu lançamento, em 2008, o BIOEN financiou mais de 200 auxílios à pesquisa no Estado de São Paulo. Na opinião da coordenadora, para que as pesquisas avancem é necessário investir e qualificar a mão de obra que irá trabalhar nos laboratórios, empresas e indústrias. “Daí o papel importante da Unesp, especialmente por sua presença no Estado e a interação direta com o setor”, afirma Gláucia.

Durante a criação do Centro Paulista, as universidades tiveram autonomia para discutir internamente a forma como investiriam seus recursos. Tendo em vista seu caráter multicâmpus, os pesquisadores da Unesp optaram pela criação de uma rede de laboratórios.

“Acho que o ponto alto do nosso modelo em relação às outras universidades paulistas é o seu caráter integrador, em que existe uma coordenação entre os pesquisadores dos diferentes laboratórios pelo Estado”, explica Stradiotto.

O coordenador do IPBEN afirma que foram investidos quase R$ 13 milhões na construção dos oito laboratórios e do prédio central, totalizando mais de 5 km2 de infraestrutura. Terminada a fase de inaugurações, o instituto foca agora nos próximos desafios.

FUTURO

Uma das questões mais relevantes é a manutenção orçamentária da rede de laboratórios, tendo em vista as dificuldades que o país enfrenta e que afetam as universidades públicas.

“É inegável a relevância do tema, e a forma como a rede foi gerida até agora foi a melhor possível. Porém, temos que fazer uma reflexão sobre a sua sustentabilidade financeira nos anos que estão por vir”, aponta o pró-reitor de Pesquisa da Unesp, Carlos Graeff, citando a crise econômica e as demandas decorrentes das obrigações da Universidade na graduação, pós, quadros de professores e servidores, entre outros custos.

Para Stradiotto, a captação de recursos também passa pela interação entre os laboratórios do IPBEN, para elaborar projetos que sejam inscritos em grandes editais no Brasil e no exterior. “Muitas dessas chamadas exigem pesquisadores de qualidade, trabalho colaborativo e equipes multidisciplinares, exatamente o que temos no IPBEN da Unesp”, explica.

TRABALHO EM REDE

A criação da rede já fomentou algumas parcerias entre os laboratórios, como é o caso do IPBEN de Botucatu, sob coordenação dos professores Saulo Guerra e Edivaldo Velini, cuja principal área de pesquisa envolve tecnologia de produção da biomassa agrícola e florestal.

Entre as pesquisas desenvolvidas no laboratório, que além do prédio conta com uma área de campo anexa de aproximadamente 600 m2 para plantio, está a investigação de aspectos como propriedades físicas e poder energético de sobras não aproveitadas de eucalipto. “Não era comum ouvir falar de eucalipto para produ- ção de energia, mas hoje as empresas de papel e celulose já realizam cogeração de energia com as suas sobras”, explica o docente de Botucatu, destacando que pesquisas como essa colaboram para o melhoramento logístico e da produtividade na geração dessa energia.

A rede de laboratórios aproximou a equipe do professor Guerra do laboratório do IPBEN de Guaratinguetá, que trabalha a gaseificação (transformação de biomassa sólida ou líquida em gás) para geração de energia que pode ser usada pela pró- pria usina ou disponibilizado na rede elétrica.

“Com o surgimento do IPBEN eu comecei a interagir com pesquisadores de outras unidades que eu ainda não conhecia, e eles também notaram a importância da pesquisa com biomassa”, destaca o docente, que também chama a atenção para a mudança de foco de seu grupo. “Antes da inauguração do IPBEN, 30% das pesquisas eram com biomassa e outros 70% com ensaio de máquinas agrícolas, outro foco de nossas atividades. Hoje é o inverso”.

PUBLICAÇÕES E PATENTES

Coordenado pelo professor José Luz Silveira, o grupo do IPBEN de Guaratinguetá desenvolve pesquisas de impacto em áreas como produção de biocombustíveis, utilização de biocombustível em motores e biorrefinaria. O laboratório está ligado ao Grupo de Otimização de Sistemas Energéticos da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá (FEG), e recentemente publicou pela editora Springer um livro que aborda a produção sustentável de hidrogênio: Sustainable hydrogen production processes, outra área de pesquisa do grupo.

Além da parceria com Botucatu, o IPBEN de Guará trabalha com o laboratório associado de Assis, sob a coordenação de Pedro de Oliva Neto, no uso de resíduos da indústria de alimentos para geração de biocombustíveis por meio da gaseificação ou da biodigestão (produção de gás combustível ou adubos a partir de compostos orgânicos).

Um dos pontos fortes do grupo de Assis é o uso de tecnologia microbiana para viabilizar a produção de um etanol de segunda geração (produzido a partir de resíduos) mais econômico. Oliva Neto argumenta que o custo e a complexidade do etanol de segunda geração dificultam a sua produção em grande escala. “Aqui em Assis nós estamos apostando em fontes de resíduos que possam reduzir este custo, por exemplo, o lixo doméstico, e resíduos mais baratos que a cana”, aponta.

Uma das formas de baratear esse etanol é desenvolvendo enzimas de baixo custo. Recentemente, o grupo registrou a patente de uma enzima amilase produzida a partir de resíduos extremamente baratos, como a massa de mandioca. Segundo o pesquisador, esse processo pode abrir caminho para a produção de açúcares, etanol ou biodiesel a partir do lixo orgânico. “Hoje é possí- vel importar essas enzimas, mas o fato de você conseguir produzi-las localmente e com baixo custo barateia o processo”, destaca.

Algumas pesquisas inovadoras já estão sendo conduzidas em laboratórios do IPBEN, como ocorre com a equipe do professor Ricardo Ramos, de Ilha Solteira. Ali está sendo estudada a produção de biocombustíveis a partir de microalgas, das quais é possível extrair lipídios para a produção de biodiesel.

“A pesquisa com microalgas só foi possível depois que viemos para o espaço do laboratório do IPBEN”, celebra Ramos, que já tem três alunos de pós-graduação estudando o tema. “Conseguimos colocar fotobiorreatores dentro do laboratório, com iluminação e temperatura controlável. Mais para a frente, ainda temos a possibilidade de construir tanques externos para produção em larga escala”.

PROGRAMA INTEGRADO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOENERGIA USP – UNICAMP – UNESP

Outra iniciativa desenvolvida no âmbito do Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia foi a criação do Programa Integrado de Pós-Graduação em Bioenergia, iniciado em 2014. Oferecido em nível de doutorado, ele reúne professores de USP, Unesp e Unicamp e foi pensado para atender também ao público internacional, com todas as disciplinas ministradas em inglês. Por agregar docentes das três universidades públicas paulistas, boa parte das aulas é dada por videoconferência.

A Unesp tem 15 docentes ligados ao programa, entre eles Pedro de Oliva Neto, do Câmpus de Assis, que ao lado da professora Eleni Gomes, de São José do Rio Preto, leciona uma disciplina que aborda a fisiologia dos fungos numa abordagem tecnológica.

“Esse programa permite que o aluno enxergue a produção desse agronegócio como um todo e na profundidade científica de um doutorado. Acredito que o programa criado pelas três universidades públicas paulistas conversa com doutorados em Bioenergia de qualquer lugar do mundo”, afirma Oliva Neto.

Para a coordenadora do BIOEN, Gláucia Mendes Souza, o doutorado visa também aumentar o número de pesquisadores trabalhando no setor.

“Um levantamento feito recentemente entre as empresas de biotecnologia apontou que os pesquisadores em bioenergia representam apenas 5% dessa área nas empresas”, argumenta.