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Recursos naturais para entender a civilização

Publicado em 26 dezembro 2006

Por Thiago Romero, Agência FAPESP

Livro Carajás - Geologia e ocupação humana, lançado pelo Museu Goeldi, mostra detalhes sobre as primeiras civilizações da Amazônia a partir de dados históricos sobre a mineração na Serra de Carajás, no Pará

Compreender as primeiras civilizações da Amazônia a partir de dados históricos sobre os recursos naturais da jazida de minério de ferro da Serra de Carajás, no Estado do Pará. Esse é o objetivo do livro Carajás — Geologia e ocupação humana, que acaba de ser lançado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (Mpeg).
Organizada pelo professor do Instituto de Geologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) João Batista Teixeira, a publicação é dividida em quatro partes. A primeira reúne informações sobre a geologia da Serra de Carajás, com detalhes técnicos sobre a formação das rochas e minérios da região.
"Carajás é formada exclusivamente por rochas pré-cambrianas onde, há mais de 2,6 bilhões de anos, se formou uma bacia sedimentar de minério de ferro", disse Teixeira à Agência Fapesp.
Segundo ele, há cerca de 1,8 bilhão de anos, a região sofreu intensa granitização, a transformação de rochas antigas em granitos, fazendo com que o minério disponível passasse por um processo de enriquecimento de ferro.
"Uma couraça laterítica se formou em cima de toda a serra há 70 milhões de anos, no período Cretáceo. Essa couraça protege o minério até os dias de hoje", explica Teixeira, destacando que essas transformações naturais são responsáveis pela formação de um dos maiores depósitos de ferro de alto teor do mundo.
"São mais de 18 bilhões de toneladas de minério que hoje são exploradas pela Companhia Vale do Rio Doce", afirma.
Em seguida, a publicação mostra a história dos homens pré-históricos que ocuparam a região.
"Os primeiros registros escritos com carvão de fogueira no interior de cavernas, com base no método de datação conhecido como carbono-14, são de 9 mil anos atrás", calcula Teixeira. "Esses homens eram caçadores nômades que percorriam Carajás e dormiam em cavernas. Eles não têm relação alguma com os índios modernos", explica.
A terceira parte da obra relata a história recente da mineração na região. "Essa é a parte principal do livro, pois aborda a ocupação da Amazônia pela Vale do Rio Doce e o advento da mineração comercial em Carajás", conta.
A descoberta da Serra de Carajás por um grupo de empresários americanos da United States Steel Corporation, liderado pelo geólogo brasileiro Breno Augusto dos Santos, em 1967, até a instalação da empresa mineira Vale do Rio Doce, em 1970, são descritas na obra.
"Inicialmente os americanos vieram em busca de manganês, mas por decisão da matriz da empresa em Saint Petersburg, na Pensilvânia, e forçados pelo governo brasileiro que não permitia que uma companhia estrangeira explorasse a região sozinha, eles saíram de Carajás para a Vale do Rio Doce ter exclusividade na exploração. Mas antes disso as duas empresas trabalharam juntas por cinco anos", lembra Teixeira.
Por fim, o livro descreve os impactos ambientais da estrada de ferro do projeto de mineração no sudeste paraense. Nessa parte, fotos e ilustrações mostram o desmatamento que a região sofreu para a construção da estrada, que liga Carajás até o Maranhão, além de descrever o início da chegada dos madeireiros.
"A idéia nessa parte é mostrar os prejuízos ambientais causados pelas pastagens e pela derrubada de árvores para produção de carvão e comercialização ilegal de madeira", explica.
A organização do livro contou com a participação de Vanderlei de Rui Beisiegel, geólogo aposentado da Companhia Vale do Rio Doce que, em 1970, chefiava a equipe da empresa na época da sua instalação na Serra de Carajás.
Mais informações: mgdoc@museu-goeldi.br.
(Agência Fapesp, 26/12)