Notícia

Gazeta Mercantil

Recursos estaduais para o projeto de motor hipersônico

Publicado em 02 junho 2005

Por Virgínia Silveira, de São José dos Campos (SP)

Fapesp destina R$ 2,5 milhões para pesquisa que já obteve R$ 2,3 milhões da Aeronáutica

A tecnologia de motores supersônicos, uma das áreas de pesquisa eleitas pelo Ministério da Defesa como prioritárias e estratégicas para o País, conta agora com um novo incentivo. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) decidiu apoiar o projeto com a destinação de uma verba de R$ 2,5 milhões, no período de quatro anos.
"A aprovação do projeto pela Fapesp complementa os esforços em andamento no Centro Técnico Aeroespacial (CTA) para demonstrar a viabilidade da construção de veículos capazes de voar até seis vezes a velocidade do som", comenta Paulo Gilberto de Paula Toro, um dos coordenadores da pesquisa do motor "Scramjet" (Supersonic Combustion Ramjet) brasileiro.
Com duração prevista de quatro anos, o projeto também prevê a construção de um terceiro túnel de vento hipersônico pulsado (com tempo de teste curto) no CTA, que será o maior da América Latina. O novo túnel aumentará o tempo de testes de 1,5 milésimo de segundo para 3 a 10 milésimos de segundo. Sua seção de testes poderá abrigar modelos maiores porque terá o dobro do tamanho atual. Hoje, o túnel hipersônico do CTA, instalado no Instituto de Estudos Avançados (IEAv), tem uma seção de testes de 300 milímetros de diâmetro.
A visualização de fenômenos ficará mais clara, pois teremos novas possibilidades para capturar todos os fenômenos resultantes da combustão. O processo de combustão, segundo Toro, acontece num período de apenas três milésimos de segundo, desde o início da interação do ar com o modelo ou veículo estudado até a combustão propriamente dita, incluindo a mistura do hidrogênio com o ar.
As pesquisas sobre a tecnologia dos motores do tipo Scranjet, também conhecidos como motores de propulsão aspirada, são lideradas hoje pelos Estados Unidos. O que se almeja para o futuro é a construção de um avião capaz de dar a volta ao planeta em poucas horas sem precisar queimar combustível fóssil. O veículo utilizaria o próprio ar atmosférico como oxidante.
No final de 2004 a Nasa (Agência Espacial Americana) fez o segundo teste em vôo do X-43A ou Hyperx, primeiro motor hipersônico do mundo. O vôo experimental durou apenas dez segundos, tempo em que o veículo atingiu 11 mil quilômetros por hora, mais de dez vezes a velocidade do som.
Antes de ser testado em vôo, o modelo experimental do CTA passará por uma bateria de ensaios em túnel de vento hipersônico e na bancada de ensaio de câmaras de combustão supersônica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em Cachoeira Paulista.
A Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) também avalia uma participação nesse desenvolvimento, segundo o coordenador do projeto do motor hipersônico na Aeronáutica, Marco Antônio Sala Minuci. "A parte da Finep, avaliada em R$ 3 milhões, envolve a construção da infra-estrutura necessária para o vôo do motor em uma câmara blindada".
A Aeronáutica, principal incentivador das pesquisas em hipervelocidade no Brasil, investiu cerca de R$ 2,3 milhões no projeto do motor Scramjet, conduzido pelos pesquisadores do IEAv. O valor inclui toda a parte de instrumentação dos laboratórios, ensaios no túnel de vento hipersônico existente, construção de modelos experimentais e de câmaras de alta velocidade.
O Brasil, segundo Sala, está tendo a oportunidade inédita de participar de uma linha de pesquisa avançada num momento estratégico, pois nenhum país no mundo domina a tecnologia dos motores hipersônicos. "À medida que formos aprimorando os nossos conhecimentos na área estaremos em condições de acompanhar de perto as conquistas tecnológicas em hipervelocidade e, quem sabe, futuramente desenvolver um projeto importante para o Brasil".
Além da aplicação em aviões, os motores hipersônicos também poderiam ser utilizados nas futuras gerações de foguetes brasileiros. O primeiro protótipo do Scramjet brasileiro está pronto, mas os pesquisadores ainda trabalham no desenvolvimento do sistema de injeção de hidrogênio gasoso no motor, o mesmo utilizado pelo veículo da Nasa. A previsão é de que o primeiro teste do motor em túnel hipersônico seja realizado em setembro.