Notícia

Jornal da USP

Reconstruindo Cajueiro Seco

Publicado em 06 junho 2011

Por CLAUDIA COSTA

O arquiteto e mestre pela USP Diego Beja Inglez de Souza realiza pesquisa sobre conjuntos habitacionais e utopias modernas no Brasil e na França, em cotutela entre a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e a Sorbone, a partir do lançamento do livro Reconstruindo Cajueiro Seco -Arquitetura, Política Social e Cultura Popular em Pernambuco, 1960-64 (Annablume/Fapesp, 418 págs., R$ 45,00). O livro retrata a experiência habitacional de Cajueiro Seco, realizada em Pernambuco durante o curto governo de Miguel Arraes, entre 1963 e 1964. Considerado um paradigma nacional de participação popular e aproximação entre o moderno e o vernacular na arquitetura, o projeto é analisado como parte da história social, política e cultural do período - no tempo de Arraes e também de João Goulart e das Reformas de Base, dos conflitos no campo, do Seminário de Habitação e Reforma Urbana. Ao mapear os diversos atores envolvidos na formulação, concretização e interrupção da experiência, a obra ultrapassa as referências autorais das taipas pré-fabricadas, repensando o lugar dos processos coletivos na historiografia da arquitetara.

Alguns autores entendem o Cajueiro Seco como um desdobramento e resposta característicos do momento de crise do movimento moderno em direção a um novo paradigma, que inclui os valores, formas e saberes locais. Outros veem Cajueiro Seco num momento de virada tanto das políticas autoritárias de enfrentamento da questão habitacional quanto das soluções elitistas ou eruditas da arquitetura moderna. Recentemente, a experiência tem sido considerada como uma das remotas origens das atuais experiências e políticas de construção por mutirões. Há ainda quem olhe para o Cajueiro Seco a partir do prisma específico da história da arquitetura e se esforce para situá-lo na discussão acerca da linha pernambucana de arquitetura e dentro da ampla trajetória profissional do arquiteto Acácio Gil Borsoi, autor do projeto de pré-fabricação da taipa.

Múltiplas vozes - A entrada de múltiplas vozes, atores e narradores, protagonistas ou figurantes, de Miguel Arraes e Francisco Julião a Celso Furtado e Paulo Freire, de Dom Hélder Câmara e Francisca Veras a Pelópidas Silveira e Ayrton Carvalho, de Germano Coelho e Naíde Teodósio a Abelardo da Hora e Eduardo Coutinho, revela um novo enquadramento do papel social do arquiteto. É nesse cenário que emerge a figura historicamente anônima, mas decisiva do arquiteto Gildo Guerra. Formado no Recife em 1954, militante socialista desde estudante, foi durante sua gestão como presidente do Serviço Social contra o Mocambo e sob sua liderança, exercida diretamente junto às populações implicadas, que a experiência do Cajueiro Seco ganhou forma, viabilidade e dimensão pública.

Ao seu lado, o colega de turma Artur Lima Cavalcanti, vice-prefeito de Arraes pela frente do Recife, responsável pela indicação de Guerra a diretor de Obras Públicas do município: como deputado federal por Pernambuco, foi figura importante na redação das conclusões finais do Seminário de Habitação e Reforma Urbana, patrocinado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em 1963, base do projeto de lei que apresentaria à Câmara para a criação da Superintendência de Política Urbana do governo federal, que tinha justamente no Cajueiro Seco um de seus marcos inspiradores.

"Múltiplos são os achados... alguns particularmente proveitosos do ponto de vista historiográfico. O paralelo com outras experiências piloto como a do*plano habitacional para o Alto do Jordão, no Recife, ainda durante o governo Cid Sampaio, ou com a Cooperativa Tiriri, intermédia da pela Sudene, repropõe o ideário participativo não apenas como permanência de tradições autóctones, mas como dispositivo de planejamento e desenvolvimento, em sintonia inclusive com a geopolítica para a região", diz José Tavares Correia de Lira, professor da FAU/USP no prefácio. A relação que o autor sugere entre a proposta de racionalização do processo produtivo da casa de taipa e a circulação local de experimentos, modelos e componentes de pré-fabricação permite repensar tanto a recorrente referência de origem como o caráter isolado de sua releitura moderna por parte do arquiteto Acácio Gil Borsoi.

"Cajueiro Seco é um dos episódios mais emblemáticos da história urbana brasileira do século 20, reverenciado como exemplo paradigmático de interação entre projeto político, movimentos sociais e arquitetara",diz o professor Luiz Amorim na orelha do livro. Segundo o autor, "mais do que uma experiência projetual ou de mutirão habitacional, surgia como experimento de reforma urbana".