Notícia

Scientific American Brasil

Reconhecimento do Mérito

Publicado em 01 fevereiro 2010

A necessidade de alimentação nasce tão logo se chega ao mundo. E, no decorrer da vida, surgem outros requisitos para mantê-la. Vem então a prevenção de doenças. Estão aí dois setores em que o Brasil é referência: produção de alimentos e de vacinas. A primeira tem muito da contribuição de instituições como o Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, o Instituto Biológico e outras unidades da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo. Já os cuidados com a saúde passam por institutos paulistas como Butantan e Adolfo Lutz. Desde o combate à febre amarela, bubônica, tifóide, até chegar ao da gripe A H1N1, tem-se a atuação desses órgãos. Apesar da pouca memória histórica, o país é, sim, bem-sucedido em ciência com tecnologias agrícolas, vacinas, energia, aeronáutica e outras.

Com pouco mais de 500 anos, o Brasil tem instituições seculares - o IAC, de 1887, o Instituto Florestal, fundado um ano antes, e vários dos 17 institutos paulistas de pesquisa beiram os 100 anos de existência. Eles não pararam no tempo, graças ao espírito inovador de homens e mulheres de atitude transformadora que, ao criarem novas equipes, ao transmitirem seu conhecimento a novas gerações e lhes permitirem novas descobertas, ampliam a magnitude da ciência tendo o tempo como aliado. E uma maioridade científica com o vigor juvenil.

Seus resultados favorecem a humanidade. O fazer científico requer, além do trabalho incessante, continuado, de cientistas e suas equipes nos experimentos, da visão de futuro da ciência e dos benefícios à sociedade, também o reconhecimento dos escalões de decisão ao progresso que trazem às diferentes populações. É primordial que governos privilegiem ciência, tecnologia e inovação como instrumentos de superação de problemas econômicos e sociais.

Em todas as esferas, as respostas hoje disponíveis foram iniciadas há décadas. Quando o cidadão tem acesso a produto ou serviço que lhe facilita o dia a dia é porque lá atrás profissionais arregaçaram jalecos para experimentar, observar, comprovar. Pessoas que não protelaram a pesquisa sob alegação de falta de tradição científica nacional. A essas pessoas, a nação deve não apenas um melhor modo de vida. O débito envolve também a elevação da autoestima nacional, a passar por empregos dependentes de C&T e o posicionamento no cenário mundial.

E curioso notar que, apesar de todos os avanços, faz pouco tempo que a carreira de pesquisador científico foi reconhecida no estado de São Paulo. A Lei Complementar 125, de 18 de novembro de 1975, organizou a carreira, distinguindo-a das demais existentes no serviço público paulista. A lei alterou o status de atuantes em pesquisas, que antes eram reconhecidos apenas em sua área de graduação, e definiu a progressão na carreira com caráter meritocrático, definindo seis níveis de pesquisador e expondo-o à crescente exigência de capacitação científico-tecnológica.

Esse reconhecimento, além de determinar a continuidade das pesquisas, está relacionado à melhora da qualidade de vida. Nos anos 30, pesquisa do IAC com algodão foi decisiva para a economia paulista não estagnar diante da crise de 1929. No fim da década de 40, descoberta feita pelo Instituto Biológico, em estudos com veneno da jararaca, levou a desdobramentos que resultaram no desenvolvimento de medicamento para hipertensão arterial usado no mundo todo.

A preservação da memória e do espírito inovador traz o embasamento para programações científicas capazes de responder às demandas atuais. Exemplos não faltam. Encontre os projetos de pesquisa em desenvolvimento no IAC, há vários de grande repercussão, como a coordenação de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Citros, financiado pelo CNPq, e três projetos no Programa Fapesp de Pesquisa em Bionergia (Bioen).

Há muitos outros de intenso reflexo nos setores produtivos desenvolvidos nos institutos da secretarias de Agricultura, Meio Ambiente, Saúde e Economia e Planejamento. No centenário Instituto Butantan, descoberta recente sobre vacina de coqueluche deve ampliar a produção, reduzir custos e colocar o Brasil entre os grandes produtores mundiais do insumo. São inúmeras as contribuições do grupo paulista para o país, e não é possível relatá-las aqui. Fica a chamada para conhecê-las mais de perto, ainda que virtualmente.

A rede de ciência que coloca o Brasil entre as principais nações do mundo envolve gente que toca laboratórios e campos, que investe na parafernália científica e que depende das soluções para ter sua vida melhor. Pessoas que acreditam na prosperidade científica. E é por elas e por todos nós que a ciência há que seguir fascinando na compreensão da realidade e na sustentação da humanidade. Fincada em raízes profundas e reais, ciência e cientistas seguem a missão de melhorar a vida do homem. Todo dia, um passo adiante. ¦

Marco António Teixeira Zullo, pesquisador científico, é diretor-geral do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e presidente do Fórum de Diretores das 17 instituições de pesquisa paulista