Notícia

Fornecedores Hospitalares

Receita para uma gestão de sucesso

Publicado em 01 fevereiro 2005

Ganhador do prêmio Top Hospitalar como Administrador Hospitalar do Ano, o presidente do Hospital do Câncer A. C. Camargo, de São Paulo, Ricardo Renzo Brentani assumiu a presidência da Fundação Antonio Prudente, em 1990 e é dono de um currículo invejáveis. Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP da qual é catedrático da cadeira de Oncologia desde 1981, é doutor em bioquímica pela USP e autor de mais de 130 publicações em revistas internacionais. Além de dirigir do Hospital do Câncer A. C. Camargo e o Instituto Ludwig, coordena o Centro Antonio Prudente para Pesquisas e Tratamento do Câncer. Foi nomeado recentemente diretor do Conselho Técnico (CTA) da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). À frente da instituição filantrópica Hospital do Câncer, o Dr. Brentani aponta uma das suas principais preocupações, desde sua posse; uma gestão eficiente para garantir a auto-sustentabilidade do Hospital. O executivo conversou com a diretora de redação da revista Fornecedores Hospitalares, Ana Luiza Mahlmeister sobre as principais conquistas da instituição de saúde e as perspectivas para este ano.

Fornecedores Hospitalares - Como foi o início da sua carreira na área de medicina e pesquisa?
Ricardo Brentani - Sempre quis ser médico. Quando entrei na faculdade de medicina, não existiam muitas atividades para os calouros, então fui estagiar em um laboratório de pesquisa e achei fantástico. Quando fiz o internato no último ano da faculdade, fazendo rodízios por todos os departamento me dei conta que preferia continuar na pesquisa e não queria continuar praticando medicina. Estava fascinado pela pesquisa e não achava a medicina tão divertida quanto essa área. Não fiz residência e fui trabalhar no departamento de bioquímica com o professor Isaías Rao, que hoje dirige a Fundação Butantan e foi quem fez uma verdadeira revolução nessa área. Nesse ponto, fiz e realizei tudo que sonhei.

FH - Como se deu a vinda para o Hospital do Câncer?
Brentani - Em 1983 eu já era professor titular na medicina da USP e o Instituto Ludwig de pesquisa sobre o câncer decidiu ampliar sua atuação no Brasil. Ele fez uma parceria com o Hospital do Câncer e me contratou como diretor. Vim para o Hospital do Câncer para criar o Ludwig, em 1983. Em 1990, o Dr. José Emílio de Moraes Filho, que era o presidente do hospital me convidou para sucedê-lo na direção. Passei então a dirigir as duas instituições.

FH - Como foi possível ampliar a parceria com os convênios?
Brentani - A direção do hospital é um desafio muito grande porque, como um hospital filantrópico, tem que atender um volume grande de pacientes provindos do SUS, 60% segundo a lei. Para conseguir fechar as contas é necessário contar com uma clientela privada e convênios. Vale tudo: auto-gestão, seguradoras e convênios comerciais. Até eu assumir a presidência do hospital, a participação dos convênios era apenas simbólica. Mas tivemos que ir atrás dessa clientela. E os convênios foram atraídos para o hospital porque usamos como grife, ou cartão de visitas, o fato de sermos, além de um hospital, uma instituição de ensino e pesquisa também.

FH - Como a pesquisa é incentivada no hospital?
Brentani - Aproveitei a parceria com o Ludwig para fazer pesquisa de ponta e, por ser titular da cadeira de Oncologia na medicina da USP, para incentivar os médicos do hospital a buscarem uma titulação acadêmica e a fazerem pós-graduação. Com isso, em 1996, tínhamos massa crítica suficiente para que pleiteássemos com sucesso o credenciamento da nossa pós-graduação em oncologia, a primeira desvinculada de qualquer universidade. Em 2000 nosso curso foi um dos quatro do País a receber nota 6, e nenhum tirou 7. No ano passado fomos um dos dois cursos a alcançar a nota máxima 7. A pós graduação, liderada pelo hospital, tem como corpo docente os colegas do hospital e cientistas do Ludwig.

FH - Como conciliar a atividade de pesquisa com a prática clínica?
Brentani - Ao longo desses anos, com esse viés acadêmico, o corpo clínico do hospital se notabilizou por sua atividade científica. A mídia tem sido bastante generosa com os resultados dos avanços científicos do hospital. Ou seja, a estratégia comercial foi bem sucedida. Somos reconhecidos hoje como um instituto de ensino e pesquisa. E deve ser uma boa grife, porque a concorrência começou a criar institutos de ensino e pesquisa também. Em 1998 o hospital foi reconhecido como um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) pela Fapesp. Além do significado prático de incentivo a nossa pesquisa, essa outorga tem um valor simbólico muito grande. É o reconhecimento do hospital, por um órgão que financia a pesquisa, como uma instituição de pesquisa que a concorrência não tem. Nossa pós-graduação, além de ser reconhecida pelo MEC, é também uma das duas melhores do País.

FH - Como o senhor define uma gestão eficiente no hospital?
Brentani - Para equilibrar as contas, é necessário uma gestão eficiente. Ao longo dos anos, procuramos dotar o hospital com uma gestão de custo e receita. Eu atribuo a isso a escolha dos leitores da revista FH para prêmio TOP Hospitalar. Para mim, gestão eficiente é comprar só o que se precisa, pelo melhor preço que pode. Tem que ter certeza que só usa o que precisa e que fatura tudo que se faz.

FH - Como controlar essas variáveis?
Brentani - Temos que ter uma informática eficiente. Investimos continuamente nessa área para ter esse resultado. Ainda falta muita coisa. O hospital ainda não tem prontuário eletrônico, mas vai ter. Não temos data definida, nem prazos, mas acho que já progredimos bastante. Vamos chegar lá.

FH - Como equilibrar as contas com a taxa de repasse do SUS tão defasada?
Brentani - No ano passado atendemos 67% de clientes SUS, que é deficitário. Então, as outras receitas são importantes exatamente por isso, para equilibrar essa área. O hospital atende também convênios e particulares, recebe doações e tem receita de ensino e pesquisa.

FH - Como o senhor vê o setor de saúde em 2005?
Brentani - Do ponto de vista da macro-economia, acho que o setor privado de saúde parou de encolher porque a empregabilidade aumentou, assim como o número de empregos com registro em carteira. O que pode ocorrer é uma concentração maior, imagino que deve haver fusões no setor, a exemplo da Interclínicas que foi adquirida por outra empresa, sem que seus usuários ficassem sem atendimento. O setor privado deve manter-se como está. Também acho que, de alguma maneira, o SUS vai ter que melhorar esta tabela. Então, quanto a receita, acho que a situação vai melhorar. Acho, por outro lado, que o hospital vai continuar crescendo. Hoje, apesar de estarmos em janeiro, a ocupação do hospital está boa. Mesmo que o mercado privado de saúde não expanda, significa que estamos aumentando nosso market share e que há um reconhecimento da nossa qualidade e competência.

FH - E as tendências na área de pesquisa?
Brentani - Acho que a pesquisa que temos feito está cada vez mais focada nos resultados clínicos. Estamos buscando melhorar a rotina de atendimento dos pacientes. Conseguimos progressos enormes, vide nossa recente inserção no projeto genoma do câncer, há mais ou menos três anos. Agora temos condições de usar ferramentas moleculares para definir melhor os diagnósticos, prognósticos e respostas ao tratamento. Acho que 2005 será um ano que iremos publicar vários artigos mostrando como fazer essas coisas, então estou muito animado. Alguém brincou, no dia da cerimônia do TOP HOSPITALAR, que infelizmente não pude ir, dizendo que, para eu ter sido escolhido era sinal de que estamos pagando em dia. Esse é um ponto da questão. Assim como falo da confiança que o hospital tem da sociedade e clientes, também é importante que tenha dos seus fornecedores e parceiros. Eu brinquei sobre o pagamento em dia porque isso sempre foi uma preocupação enorme. Faço absoluta questão de pagar meus compromissos em dia. Acho que esse reconhecimento nós também temos. Essa confiança se traduz de muitas formas. Não acho que seja uma boa gestão dar calote nos fornecedores.

FH - O que o senhor vê como conquistas importantes de 2004?
Brentani - Uma outra coisa que está acontecendo e é um subproduto do reconhecimento da gestão é que o hospital transformou-se no que chamamos de beta site, isto é, você passa a ser usado por fornecedores para o desenvolvimento de novos produtos. Isso está acontecendo em diversas áreas do hospital como reconhecimento da nossa qualidade e isso é muito bom, devendo ser ampliado neste ano. Na área de radioterapia, por exemplo, fizemos investimentos grandes em uma nova aparelharem da Varian que é um grande fornecedor de equipamento radioterápico. Temos o compromisso com eles de oferecer cursos de treinamento para profissionais de toda a América Latina. Em contrapartida, nós compramos equipamentos com descontos significativos e em condições excepcionais de financiamento. No que concerne à imagem, temos uma relação especial com a Kodak. Tenho certeza que nesse ano isso só irá aumentar.

FH - O que o senhor espera de 2005?
Brentani - Esperamos continuar crescendo neste ano. No ano passado atendemos em torno de 300 mil pessoas e em 2005 isso deve aumentar um pouco. Está ficando cada vez mais difícil de crescer porque estamos em um espaço finito. Continuamos a receber doações e recentemente recebemos um aparelho de radiologia invasiva da Philips de um doador anônimo.