Notícia

FAPESP Na Mídia

RECEITA: ILUSÃO

Publicado em 01 setembro 1998

Por ANA MARIA FIORI
Tratamentos contra o câncer apresentados como miraculosos e drogas não aprovadas pelas autoridades iludem pessoas desesperadas. A divulgação apressada de terapias ainda não comprovadas ou mesmo ineficazes no tratamento de câncer constitui um sério problema tanto no Brasil quanto em países do Primeiro Mundo. Recentemente, enquanto na Itália um médico era desmascarado pela ineficiência de uma combinação de hormônios e vitaminas que lhe rendeu fama e fortuna, no Brasil um padre recomendava em programa de televisão inusitada mistura de vegetal com mel e bebida alcoólica para a cura da doença. O livro no qual ele explica o suposto tratamento consta da lista dos mais vendidos na cidade de São Paulo. Esses são apenas dois exemplos de situações rotineiras que, muitas vezes, levam pacientes com câncer a abandonar métodos já comprovados em troca de soluções miraculosas. O biologista molecular Andrew J. G. Simpson, da filial, em São Paulo, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, instituição internacional com sede na Suíça, dá algumas orientações gerais para que esses pacientes não sejam explorados, no seu desespero, e se protejam das falsas promessas de cura. "Em primeiro lugar, procure o melhor médico possível, que normalmente está associado a algum centro especializado em câncer. Em segundo lugar, acredite em tudo o que ele fala, porque esse médico se mantém atualizado quanto a tratamentos comprovados", diz Simpson. Para o biologista, uma boa forma de avaliar a confiabilidade de um hospital é verificar se ele atende a pacientes de planos de saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS), já que tanto os planos de saúde, bastante pragmáticos, quanto o SUS, que utiliza dinheiro público, só pagam procedimentos reconhecidos. Simpson comenta que, embora essa atitude nem sempre garanta a solução do problema, evita a exploração do desespero e vulnerabilidade do paciente por criminosos que oferecem a cura do câncer mas não têm como provar que seus métodos funcionam. O cientista insiste na importância da prevenção e do diagnóstico precoce para o sucesso na luta contra o grupo de 200 diferentes doenças que são denominadas, de maneira genérica, como câncer. "E necessário vencer o medo que temos da morte", diz Simpson. "Precisamos enfrentar o receio do diagnóstico de câncer e procurar um médico com todas as nossas queixas. Detectada no início, às vezes a doença requer apenas uma pequena cirurgia". De acordo com o médico Ricardo Renzo Brentani, presidente da Fundação Antônio Prudente-que dirige o Hospital do Câncer, onde funciona o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer -, 75% dos tumores humanos têm causa já conhecida e, por isso, a saúde pública leve enfatizar a prevenção da doença. A pesquisa, por sua vez, deve ser direcionada para melhorar a prevenção e a qualidade do diagnóstico precoce, além de investigar o que provoca o aparecimento dos 25% de tumores de causa ainda desconhecida. NOVAS ESPERANÇAS Quanto ao tratamento, Brentani confirma a avaliação já bastante difundida de que houve avanços significativos nas últimas décadas. Como exemplo de que a doença não é mais o terrível fantasma de outrora, ele cita números do próprio Hospital do Câncer, onde a margem de cura é, segundo ele, de 60%. "Só não é maior porque recebemos uma fração significativa de pacientes que nos procuram tarde, quando a doença já progrediu muito", diz Brentani. Como o arsenal terapêutico existente hoje é bastante poderoso, torna-se muito importante saber quais são as perspectivas da pessoa que tem determinado tipo de tumor. "Quanto mais cedo for feita essa avaliação, mais cedo poderá ser iniciado o tratamento correto, com a obtenção de melhores resultados", diz Brentani. Para definir com maior precisão os prognósticos de evolução do câncer de mama, o médico coordena a pesquisa Biomarcadores em Carcinoma de Mama Humano, projeto que envolve seis cientistas e é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Outra esperança de tratamento mais eficiente no futuro para os pacientes com câncer vem de uma partícula artificial desenvolvida pelo médico endocrinologista Raul Maranhão, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo. A partícula, batizada de LDE, já com patente americana, é um veículo capaz de transportar drogas quimioterápicas para dentro das células cancerosas numa concentração sensivelmente maior do que aquela que atinge as células sadias. Maranhão faz questão de salientar que a LDE não é um remédio, mas um veículo com poder de concentrar a droga no local de interesse, o que reduz consideravelmente o grau de toxicidade. "É uma maneira mais segura de administrar os medicamentos", diz. O pesquisador esclarece que a LDE ainda não pode ser usada no tratamento de pacientes com câncer porque muitos estudos devem ser realizados, para respondera esta pergunta: para determinado tipo de câncer, qual é a melhor droga ou combinação de drogas que, incluída na partícula, em tal dose, administrada em tal intervalo, vai conseguir algo realmente superior ao que se tem atualmente? A pesquisa conta com o auxílio da Fapesp, e os estudos clínicos têm a colaboração de especialistas na área de oncologia da cidade de São Paulo. Maranhão ressalta que uma grande dificuldade para realizar esse trabalho é o fato de o Brasil ter indústria de equipamentos de laboratório e indústria química muito reduzidas, o que obriga os pesquisadores a importar a maior parte do material utilizado. MEDIDA POLÊMICA Esses e outros problemas que atrapalham o dia-a-dia dos cientistas brasileiros deveriam ser resolvidos, mas não podem justificar o abandono de procedimentos de segurança até a aprovação de um novo medicamento. Há casos em que o uso de uma droga ainda não aprovada pelo Ministério da Saúde é autorizado pelo Poder Judiciário. Não faltam médicos que se opõem a esse tipo de decisão. Na opinião de Elisado Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo e ex-secretário nacional de Vigilância Sanitária, embora perfeitamente legais, atos como esses talvez não sejam legítimos do ponto de vista da saúde da população. Por sua vez, o médico Adauto Castelo Filho, professor da Universidade Federal de São Paulo e consultor do programa de Aids do Ministério da Saúde, se diz "perplexo" com o fato de a liberação de um medicamento ser decidida por um juiz, "que desconhece - por não ser do seu oficio - as etapas envolvidas na aprovação de um fármaco" (ver box à página anterior). Para Castelo Filho, esse poder "é abusivo e tem um potencial enorme de dano à sociedade". Vê-se, então, que o problema do câncer no Brasil vai além da ocorrência da doença e do charlatanismo. Aqui, tudo indica que um doente com câncer pode se expor a riscos até mesmo quando procura um medicamento liberado judicialmente. O melhor a fazer é consultar médicos associados a centros especializados na doença e hospitais confiáveis, como recomendado pelo biologista molecular Simpson. Ele é hoje responsável pela elaboração de um projeto de colaboração entre diversos laboratórios do estado de São Paulo, chamado A São Paulo Câncer Genome Anatomy Project, a ser financiado pela Fapesp. Esse projeto se inclui no programa internacional Genoma Humano, que está identificando e mapeando todos os genes humanos. Simpson diz que temos em nosso corpo cerca de 70 mil genes, mas eles não são expressos todos ao mesmo tempo. Assim, é provável que alguns desses genes só se manifestem quando a pessoa já sofre de câncer. Por essa razão, o projeto irá mapear todos os genes expressos em tumores com alta incidência no Brasil, visando, além da colaboração com o Projeto Genoma Humano, possibilitar os avanços tecnológicos necessários para a implantação de políticas de saúde pública cada vez mais eficientes na prevenção e diagnóstico precoce dos tipos de câncer que mais afetam o país. EXIGÊNCIAS DA LEI Para comercializar legalmente um remédio no Brasil, deve existir um laboratório autorizado a fabricar a droga, que tem de estar previamente registrada no Ministério da Saúde. Quando o princípio ativo do medicamento ainda não está aprovado no país, é necessário remeter toda a documentação sobre a fase pré-clínica e a fase clínica de testes para a apreciação do ministério. Na fase pré-clínica, a droga é administrada a animais de laboratório, para verificar sua ação sobre a doença que se quer combater e os possíveis efeitos colaterais. Se tudo correr bem, é dada a permissão legal para começar a parte clínica. A fase clínica é dividida em três etapas. Na primeira, as experiências são feitas com seres humanos sadios. Caso o produto seja pouco tóxico, passa-se à segunda etapa. Ela é realizada em um centro médico credenciado pelo Ministério da Saúde, com um número reduzido de doentes. Dando bons resultados, começa a fase 3, com a distribuição do protocolo de pesquisa para vários centros médicos, que vão executar o mesmo trabalho. Só depois o laboratório vai solicitar o registro do produto, cuja indicação de uso tem de ser comprovada pelos trabalhos científicos. Contra-indicações e advertências não podem ser omitidas, e a empresa tem de apresentar um relatório explicando as condições em que o medicamento foi fabricado e qual é a sua durabilidade.