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Inntercidadania

Receita de preservação

Publicado em 03 agosto 2010

Há quase duas décadas, foi lançado, no Rio de Janeiro, um desafio a representantes de 175 países. Eles teriam de se comprometer a preservar as espécies animais e vegetais, além de recuperar os ecossistemas degradados. Na época, a ecologia virou febre, com debates acalorados e manifestações engajadas de artistas, como o cantor britânico Sting. Era o ano da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como Eco-92. Entre outros atos, foi assinada, na ocasião, a Convenção sobre Diversidade Biológica.

Se nem todos fizeram sua parte, o Brasil, que sediou o evento, agora mostra ao mundo o resultado do casamento entre pesquisa científica e desenvolvimento de políticas públicas. Pouco tempo depois da Eco-92, um grupo de pesquisadores do estado de São Paulo se articulou para produzir dados que pudessem nortear as ações de preservação e recuperação das áreas agredidas. Recentemente, foi publicado na revista especializada internacional Science um artigo que descrevecomo o Programa de Pesquisas em Conservação Sustentável da Biodiversidade (Programa Biota/Fapesp) foi essencial para a conservação de um estado que, entre outras riquezas naturais, abriga a Serra do Mar.

Oficialmente, o Programa Biota nasceu em 1999, coordenado pelo professor do Departamento de Botânica da Universidade de Campinas Carlos Alfredo Joly, principal autor do artigo publicado na Science. Em 10 anos de atividades, o grupo, que envolve mais de 1,2 mil profissionais, sendo 80 colaboradores do exterior, coleciona dados impressionantes. Até agora, foram 94 projetos de pesquisa, que descreveram mais de 1,8 mil novas espécies de plantas e animais, catalogaram outras 12 mil e criaram um banco de dados com o conteúdo de 35 coleções biológicas brasileiras, tudo disponível online (www.biota.org.br). Já foram publicados mais de 700 artigos em periódicos especializados, 20 livros e dois atlas.

Exemplo

"O objetivo do artigo não foi descrever o que o projeto fez, mas tentar mostrar como a produção dos dados conseguiu aperfeiçoar as políticas públicas de conservação, levando um retorno à sociedade em geral", explica o professor Carlos Alfredo Joly. Ele conta que o trabalho dos pesquisadores resultou, por exemplo, em quatro decretos estaduais para a criação de áreas de preservação ambiental, além de 11 resoluções da Secretaria de Meio Ambiente. Uma das mais importantes envolveu também a Secretaria de Agricultura e proibiu a expansão do plantio de cana-de-açúcar, matéria-prima do etanol, em áreas consideradas prioritárias na conservação da biodiversidade.

Segundo Joly, o Programa Biota virou uma referência não só de projeto científico, mas de interação da pesquisa com o Estado. "Nem sempre o procedimento científico de alta qualidade consegue se traduzir na prática", lembra.