Notícia

Jornal de Brasília

Recantos guarda tesouros naturais

Publicado em 14 janeiro 2009

Há seis mil anos, no final da última era glacial, a linha da costa se estabilizou na posição atual. Animais que ficaram isolados nas ilhas começaram a se diferenciar de seus familiares no continente. Algumas populações ficaram tão diferentes que viraram novas espécies. Algumas delas, chamadas endêmicas, são conhecidas dos cientistas, como as famosas jararaca-ilhôa e jararaca-de-alcatrazes, mas muitas ainda devem estar escondidas.

Os próprios cientistas reconhecem que seu conhecimento sobre a biodiversidade das ilhas paulistas é muito limitado. “Comparando ao que sabemos sobre a biodiversidade do continente, é praticamente nada”, diz o ecólogo Marcio Martins, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

Por causa dessa falta de conhecimento, os ecossistemas marinhos – praias, manguezais, ilhas e o próprio mar – foram mantidos fora dos mapas de áreas prioritárias para conservação do Programa Biota, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Pesquisadores de várias instituições, porém, estão empenhados em reverter esse cenário.

“Tivemos dificuldade com a parte marinha e estamos incentivando grupos a preencher essa lacuna agora”, diz o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, coordenador do Biota e pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). O esforço é em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado. “Em cinco anos queremos chegar ao nível de conhecimento que temos do continente”, diz Martins.

Laboratórios

O litoral paulista tem cerca de 150 ilhas, ilhotas e lajes. Esses ecossitemas insulares são laboratórios perfeitos para o estudo de processos evolutivos. Por estarem isoladas em populações menores e geograficamente restristas, as espécies insulares tendem a mudar (evoluir) com maior rapidez.

No caso da Ilha de Queimada Grande, o isolamento foi suficiente para transformar radicalmente os hábitos e a aparência da jararaca do continente (Bothrops jararaca). As cobras da ilha ficaram menores, mais delgadas e amareladas. Também foram obrigadas a adotar novos hábitos alimentares. Sem pequenos mamíferos para comer, aprenderam a subir em árvores e se alimentar apenas de passarinhos, e virou Bothrops insularis, a jararaca-ilhôa. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção, como outras cobras e anfíbios das ilhas paulistas.

Já as jararacas que ficaram isoladas na Ilha de Alcatrazes (Bothrops alcatraz), estecamente ainda são iguais às jararacas do continente, mas ficaram anãs e passaram a se alimentar de centopéias e pequenos lagartos. Uma jararaca adulta tem cerca de 1,5 metro. A de Queimada Grande chega a um metro de e a de Alcatrazes dificilmente passa dos 50 centímetros.

Várias espécies endêmicas de anfíbio também já foram identificadas, e os cientistas estão certos de que há muitas outras por aí.