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Raupp vai estimular o desenvolvimento regional e a inovação tecnológica nas empresas

Publicado em 03 agosto 2007

O presidente da SBPC se propõe a vencer as assimetrias do Sistema Nacional de C&T e priorizar a Amazônia e o Semi-Árido

Marco Antonio Raupp defende ainda que a produção do conhecimento científico e a inovação tecnológica passem também a ser desenvolvidas dentro das empresas. Para isso, ele destaca a importância das parcerias com instituições como a Abipiti, Anpei e Anprotec.

Leia entrevista concedida ao "Gestão C&T":


- Nos últimos quatro anos em que a SBPC foi presidida por Ennio Candotti, houve um interesse maior da instituição por questões como a consolidação dos sistemas estaduais e municipais de C&T e as políticas de desenvolvimento regional. O senhor acredita que esse será um interesse permanente da instituição na sua gestão? Qual tem sido a reação dos membros da SBPC a esses temas? Como a instituição pode contribuir nessas questões?

- As instâncias da SBPC apóiam essa política de estímulo ao desenvolvimento regional. Isso porque elas têm uma visão desse problema. O esforço da comunidade científica e das organizações científicas durante os últimos 50 anos, eu diria, foi no sentido de estabelecer um sistema de ciência e tecnologia no país, que tem sucesso num lado e também tem assimetrias no outro, o que está se tentando corrigir. O sistema é produtivo, produz muita ciência. O Brasil está classificado em 15º lugar na produção mundial, mas tem assimetrias. Uma delas é essa questão regional, o desenvolvimento desigual das regiões. Então, trazer ciência para cá [Amazônia] é um negócio que todo mundo apóia. Esse é um exemplo do desenvolvimento regional que nós estávamos pensando. Isso tem o apoio de todos da SBPC, de todas as instâncias do Conselho [da SBPC], além do apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e de todas as sociedades científicas específicas. A SBPC representa 75 sociedades. Então, há um apoio amplo para esse tipo de enfoque na condução da luta política pela expansão com qualidade da ciência e tecnologia no país.


- O senhor poderia destacar algumas das diretrizes e ações que nortearão a sua gestão na SBPC?

- A questão do desenvolvimento regional. Em especial, a Amazônia e o Semi-Árido, que são importantes. Vamos batalhar por isso, vencer essas assimetrias que ficaram no nosso sistema. Outra [diretriz] é a questão da inovação tecnológica nas empresas. Você sabe que, por uma razão histórica, a geração do conhecimento ficou restrita às nossas universidades e institutos de pesquisa, quase todos eles governamentais. Pouco desenvolvimento e inovação, pouco uso do conhecimento científico foi feito dentro das empresas. Isso gera também uma assimetria. Se você olhar os indicadores da área científica e tecnológica você verá que estamos muito bem na parte de trabalhos científicos. A produção científica desse sistema é boa, já a produção tecnológica não é. Eu interpreto que esse quadro, seja exatamente devido à separação que existe entre as empresas, que são os agentes do setor produtivo e os agentes geradores de conhecimento, que estão nas universidades e nos institutos. Essa é uma outra assimetria do nosso sistema. E nós temos que lutar para superá-la. É outro exemplo do que temos que resolver e, para isso, fazer parcerias com organizações como a Anprotec, Anpei e ABIPTI. Precisamos promover a articulação com essas instituições mais do lado empresarial, do lado das que defendem a inovação. É sempre um esforço coletivo, juntar todas as representações da sociedade civil para chegarmos a patamares mais justos e adequados para fortalecer o desenvolvimento sustentável do país.


- Na sua avaliação, a SBPC ganhou novos propósitos e dimensões nos tempos atuais. Quais eram os desafios na época da criação da instituição e o que mudou de lá para cá?

- Na época da criação da instituição, há 59 anos, a grande questão era criar condições para que a pesquisa científica surgisse e se desenvolvesse no país, não por iniciativa de um indivíduo ou outro, mas sim de uma forma institucionalizada, fazendo com que as universidades não fossem somente instituições voltadas para o ensino profissional, mas voltadas para o desenvolvimento do conhecimento. A criação de ambientes adequados à pesquisa científica e à educação superior dentro das condições em que ela deve se desenvolver, ou seja, associadas com a geração de conhecimento, com a pesquisa, foi uma luta inicial. A SBPC participou ativamente na criação e no desenvolvimento desse sistemas de produção de conhecimento. É claro que as iniciativas são dos governos. Foi estabelecido um sistema em São Paulo - o sistema Fapesp. Foi estabelecido um sistema do governo federal, no Rio de Janeiro, enfim, nos principais Estados. Hoje, as fundações de amparo à pesquisa se expandiram por todas as unidades da Federação. Isso vem de longe, de 60 anos atrás. E a SBPC começou por aí. Precisamos, agora, completar os tais gaps e assimetrias que foram citadas.


- Em recente entrevista ao Gestão C&T online, o senhor destacou a importância de enfrentar os desafios de desenvolvimento das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O senhor poderia citar algumas medidas que podem ser desenvolvidas com o fim de diminuir as assimetrias entre essas regiões e o Sul-Sudeste?

- O desequilíbrio regional é agravado,pois áreas como a Amazônia, que são essenciais para o desenvolvimento do país, viveram o dilema: intervenção destrutiva x santuário preservado. Isso não nos leva a nada. A ciência, o conhecimento organizado, incluindo aí o tradicional, é a chave para a preservação e a intervenção inteligente que servem aos interesses dos povos e da nação. Entre as medidas que poderiam ser tomadas de imediato para a região amazônica, a partir de decisão política efetiva constam: o aumento qualitativo e quantitativo do contingente de cientistas atuando nas ICTs [instituições científicas e tecnológicas] e universidades da região, tanto em nível federal quanto estadual e privado; e o financiamento de projetos integrados multiinstitucionais sobre questões como os impactos social, ambiental, na biodiversidade, na saúde dos povos, no clima global etc., relacionadas à ocupação do território. Vi em Belém que já temos este tipo de iniciativa nos governos do Amazonas e do Pará. Por que não uma intensificação das ações federais por meio de instituições lá localizadas e incorporação de instituições de caráter nacional como Embrapa, Inpe, Fiocruz e outras? Precisamos é de decisões políticas e da capacitação dos agentes que já existem.


- A SBPC é tem ótimo trânsito nas instâncias governamentais e participa de um número significativo de comitês e comissões relacionadas à área de C&T. O senhor poderia citar algumas ações ou reflexões de destaque que a instituição conseguiu provocar por meio dessa participação?

- A SBPC participa até do maior conselho [do setor], o Conselho Nacional de C&T (CCT). E tem atuado permanentemente no mais alto nível, na obtenção de condições e novos direcionamentos para a política científica do país. A SBPC indica representantes em várias instâncias como, por exemplo, os comitês gestores dos fundos setoriais, onde defendemos a destinação de recursos para projetos qualificados. E, como os recursos dos fundos setoriais não são utilizados plenamente devido a questões de política econômica, a SBPC tem procurado sempre ter um questionamento em relação a isso. Nesses comitês gestores, onde temos representação, temos lutado para que esses recursos sejam plenamente utilizados. Em nível estadual também temos atuação em muitas comissões. Por exemplo, eu pertenço ao conselho da Faperj. Lá luto, sempre de uma forma positiva e afirmativa, no sentido de criar condições de apoio científico aos projetos que têm qualidade, objetivos e qualificação para serem aprovados.


- Existe uma discussão muito presente no meio ou nos meios científicos e tecnológico, sobre a interação entre a ciência e a tecnologia e sobre a necessidade de maior desenvolvimento e investimento nessa última. Sempre se destaca a relevância da produção científica nacional e se questiona o porquê do baixo número de patentes depositadas pelos pesquisadores e empresas brasileiras. Como o senhor vê essa questão e quais caminhos o senhor acredita serem viáveis para uma relação mais equilibrada entre esses dois componentes necessários ao desenvolvimento do país?

- Essa assimetria, já abordamos é uma das principais existentes e nós devemos dedicar mais atenção para superá-la. Evidentemente, temos que buscar mecanismos. Não adianta só olharmos para outro país e dizer: lá nos EUA, na Europa, as empresas fazem pesquisa, têm grandes centros de P&D dentro delas, elas contratam cientistas. Tudo bem, aqui não é assim. A tradição não é essa. As empresas pouco fizeram, no passado, em matéria de desenvolver a sua própria P&D. Mas a pesquisa se desenvolveu muito no sistema universitário. Então, hoje, até para não começar a construir castelos de areia, nós temos que construir mecanismos que tenham base na realidade. Qual é a realidade? O conhecimento está sendo gerado aqui e ele precisa ser utilizado nas empresas. Muito tem sido feito em relação a isso. Um exemplo é o trabalho da Anprotec, que tem atuado com incubadoras de empresas e parques tecnológicos. Isso estimula organizar essas estruturas, para servirem como mecanismos no desenvolvimento de novas políticas públicas. São vários os mecanismos que temos e, hoje em dia, estamos vivendo uma situação em que você vê que há evolução, estão sendo criados parques tecnológicos em vários pontos do país, incubadoras adequadas às regiões. Outras organizações como a Embrapa, Petrobras, também têm incubadoras associadas. Veja que não é uma coisa fora do nosso alcance. Nós temos exemplos de sucesso nesse processo. Exemplos clássicos. O Brasil hoje é um grande produtor de grãos em várias culturas. Você acha que isso teria acontecido sem a Embrapa? Ela, com base num sistema universitário, com fundações tradicionais e com escolas tradicionais na área de agricultura. Eu cito duas: a Universidade Federal de Viçosa e a Universidade Luis de Queiroz. A Embrapa desenvolve um trabalho de levar tecnologia às empresas, voltadas ao interesse do setor produtivo. Isso é um exemplo de sucesso. Pagou o esforço, o investimento. Não estamos numa bela posição em matéria de produção agropecuária? Um outro exemplo é a indústria aeronáutica. A Embraer, grande exportadora, tem dificuldade até de entregar em tempo as encomendas que ela recebe. E está crescendo cada vez mais, absorve 150 engenheiros por ano. É uma empresa em franca expansão. Tudo isso nasceu dentro de um centro como o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), de São José dos Campos. É outro exemplo de sucesso. Um terceiro exemplo é o caso do motor a álcool, surgiu também no CTA. É uma tecnologia que é disseminada em tudo quanto é empresa do mundo, não só aqui. Temos talvez o erro de não ter patenteado esse motor a álcool e cobrar royalties sobre tudo. O CTA deve se lamentar muito hoje em dia. Devemos também ter cuidado nessa questão de direitos de propriedades. Mais um exemplo é o petróleo. Nós conseguimos superar aquele déficit que tinhamos na balança de produção e importação de petróleo. Hoje, somos auto-suficientes. A participação da UFRJ, Coppe, desde o início desse esforço foi importantíssima. Estimulou a Petrobras, inclusive, a investir em inovação, em P&D. Hoje, a Petrobrás tem um papel importantíssimo, ela tem uma rede cooperativa para apoiar a P&D nas várias universidades do país. São bons exemplos, que devem ser massificados.

Não podemos ficar como fornecedores de matéria prima ou commodities para o mundo. Temos que vender, participado mercado global, com produtos que nos dêem competitividade, produtos que tenham valor agregado. Só assim vamos produzir riquezas com benefício efetivo para o país, benefícios crescentes e não decrescentes, como a venda de produtos primários ou commodities.


- O senhor já foi diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC). Na sua avaliação, essa experiência em um instituto de P&D terá impacto na condução da sua gestão à frente da SBPC?

- Acho que sim, do ponto de vista de procurar mais foco em nossas bandeiras e posicionamentos, após, evidentemente, uma hierarquização promovida junto às sociedades científicas associadas e ao conselho da SBPC.


- O senhor pretende buscar uma aproximação com as entidades representativas do setor tecnológico, a exemplo da Abipti? Como o senhor avalia a importância desse tipo de possível parceria, tendo em vista que a SBPC reúne pesquisadores de diversas Universidades e a Abipti os principais institutos de pesquisa do país?

- Sim, com Abipti, Anprotec, Anpei e outras. Precisamos incrementar ações conjuntas, tendo em vista que a superação do fosso mundo acadêmico—mundo empresarial é absoluta e impreterivelmente necessária para o desenvolvimento econômico e social sustentado do país. A economia do conhecimento é o novo paradigma para a competitividade no mercado global, portanto requisito para os países que queiram ser protagonistas e não somente espectadores. O desafio, vis-à-vis a nossa tradição e a história da formação da competência científica no país, é defendermos a implementação de mecanismos legais e institucionais eficazes para a massificação desta cooperação ICTs — empresas, bem como estimularmos a incorporação de cientistas nas empresas, para chegarmos a estruturas de permanente integração.


- O governo federal anunciou recentemente que apresentará, em breve, alterações na Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce). Há alguma correção de rumo dessa política que o senhor julga necessária? Qual a sua avaliação das ações da Pitce iniciadas ou implantadas até o momento?

- Acho, de um modo geral, que a Pitce está apontando objetivos. Precisamos agora, para sua efetiva e plena implementação, explicitar os seus agentes, a coordenação entre estes agentes e alocar os recursos de toda ordem necessários. (Márcia Araújo e Bianca Torreão)

(Gestão C&T, 3/8 — edição impressa)