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Blog do Agenor Bevilacqua Sobrinho

Rasga Coração: é melhor ler o livro. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Publicado em 17 dezembro 2018

Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Assistimos ao filme Rasga Coração (2018), de Jorge Furtado, roteirizado por este, Ana Luiza Azevedo e Vicente Moreno.

Os eixos temporal e espacial são deslocados de 1900-1970, na peça, para 1970-2015, aproximadamente, no filme.

Em repetidas entrevistas a rádios, blogs, sites etc., o diretor do filme insiste em afirmar a “fidelidade ao texto da peça” (escrita entre 1972 e 1974) homônima de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha (1936-1974).

Entretanto, acreditamos que a fidelidade, apresentada no plano retórico nas entrevistas, não está figurada concretamente no filme. E isso não se deve apenas à “atualização” pretendida na obra cinematográfica até muito próximo de nossos dias.

Há vários pontos de dissonância, mas abordaremos quatro deles, a saber:

1. Na peça, Luca (Luís Carlos), o filho de Custódio Manhaes Jr. (na juventude, Manguari Pistolão), protesta, durante a vigência da ditadura civil-militar de 1964, na porta do colégio, no processo inicial de ocupação da escola, e toma um soco do segurança, sendo abatido e sangrando bastante devido ao corte produzido pela agressão. Paralelamente, no passado, nos damos conta da tortura a que são submetidos Manguari, Camargo Velho e Lorde Bundinha (Luís Campofiorito), na tentativa brutal dos agentes repressivos recolherem informações de nomes de adeptos/partidários do movimento que se opunha à ditadura do Estado Novo.

No filme, o sangramento copioso de Lucas (Chay Suede) é mostrado como mais grave, comparativamente aos três no passado, cujos tímidos gemidos e dificuldades para andar parecem ser de menor dimensão do que a gravidade “visual” da profusão de sangue em Luca dá a entender.

Aqui, há um menoscabo crítico sobre a prática da tortura, ao negligenciar as sequelas imediatas e tardias dos espancamentos a que prisioneiros políticos eram submetidos.

2. Na peça, a ocupação da escola tem caráter político. Ao subtrair as provas do colégio, os estudantes ativistas se insurgiam contra um instrumento pedagógico que fora convertido em pretexto para punir Luca, cujo cabelos compridos desrespeitavam as regras repressivas do estabelecimento de ensino de propriedade de Castro Cott, arquiconservador e adepto do integralismo em sua mocidade. Ao proibir o acesso ao colégio de rapazes portadores de cabelos longos e, consequentemente, a realização de exames por parte dos “indesejáveis”, frustra-se a conclusão do curso de ensino médio que habilitaria esses candidatos para os vestibulares. Assim, Cott expressa, de forma ostensiva, a censura e perseguição ideológicas levada a efeito seletivamente pelos “cidadãos de bem”.

No filme, a repressão é determinada pelo uso de saia e esmalte de Luca (campo das identidades de gêneros), como álibi para o impedimento das provas. Entretanto, de forma despolitizada e ecoando narrativa conservadora a respeito da natureza da iniciativa do movimento estudantil, ocorre a depredação de porta de vidro de área administrativa do colégio, perdendo-se por completo o objetivo político residente no texto da peça. Em outras palavras, a ação política é esterilizada ao ser rebaixada no estreito compartimento da visão de classe média sobre o que seriam manifestações (atos irresponsáveis e sem discernimento).

3. Na peça, temos Camargo Moço — sobrinho de Camargo Velho (antigo militante disciplinado do PCB e camarada de Manguari, na juventude) — encontrando-se e participando com Luca no movimento que protesta contra a exclusão deste e de outros da escola pela mentalidade repressiva da época. Milena, a namorada de Luca, defende a ação direta, a luta armada contra a ditadura (1970).

No filme, Camargo Moço é substituído por Talita (Cinândrea Guterrez), uma jovem negra (identitarismo, ausente na peça) e filha de Camargo Velho. Milena (Luísa Arraes), que no filme se veste com roupas masculinas (questão de gênero, ausente na peça), advoga a ação direta, mas na película esta é depreciada, estereotipada e inconsequente, resumindo-se à depredação na escola. Sem amparo no texto de Vianinha, Jorge Furtado, adicionalmente, dá um viés preconceituoso a Milena, ao fazê-la, em uma assembleia estudantil, atropelar e desvalorizar a fala de Talita. Esta transmite a Luca a admiração, que aprendera de Camargo Velho, pela história de militância do pai de Luca.

4. Na peça, o cabelo comprido está ligado à rebeldia do movimento hippie, ao passo que, no filme, a saia e o esmalte de Luca remetem, como apontamos, a pautas identitárias, inserindo a leitura da peça em paradigmas e prismas claramente distintos de Vianinha. Hoje, os defensores expoentes destas pautas (gênero e outras) demandam paridade de importância ou até mesmo prevalência em relação às reivindicações político-econômicas.

Todavia, na peça o período de três gerações (reduzido a duas no filme, por razões de extensão da obra fílmica e de custos, segundo o diretor) produz um painel épico que recobre um período de aproximadamente 70 anos — com as diversas iniciativas das classes trabalhadoras no processo de luta de classes — sob a perspectiva popular.

No filme, o épico é substituído pelo drama intersubjetivo, no qual é dado relevo aos conflitos familiares, que acabam por eclipsar as determinações econômicas que presidem a sociedade. Não por acaso, a Globo é produtora do filme, e a estética de suas novelas é inserida e imediatamente reconhecível na obra de Furtado.

Por exemplo, no filme temos a naturalização das manifestações de 2013, sob o filtro da TV, durante brevíssimos segundos (essa falta de profundidade para abordar também é sintomática). Sabemos que as mídias corporativas, e as Organizações Globo, em particular, impuseram uma narrativa sobre o desenrolar dos acontecimentos, convocando as “famílias” para participarem dos protestos e incitando, com suas câmeras, black-blocs e outros supostos “revolucionários” (cujos agrupamentos estavam coalhados de X-9 e assemelhados) a depredarem e exercerem a destruição de lojas e estabelecimentos comerciais (supostamente em “atitude antissistema”) sob a complacência da polícia, que esporadicamente agia para camuflar a deliberada produção do caos como um dos episódios do golpe de Estado que se consumou em uma de suas etapas (a parlamentar) em 2016.

Luca, na peça, raciocina com descortino sobre os malefícios da alimentação industrializada e repleta de conservantes químicos e agrotóxicos, mas não consegue estabelecer a ligação entre a cadeia dessa indústria e o sistema econômico que o sustenta. Com seu voluntarismo, propõe que a solução seriam os operários e trabalhadores abandonarem seus postos de trabalho e deixarem de se comprometer com os males de um negócio altamente tóxico. Ademais, com o agravante de suas próprias contradições de viver como adolescente desvinculado da produção usufruindo de recursos patrocinados pelo pai, que também precisa lidar com diversas incoerências, mas se mantém fiel a suas crenças da importância de exercer a militância política em contato direto com a base de trabalhadores de diversas categorias profissionais.

Portanto, a análise capenga de Luca o impede de reconhecer os liames estruturais da injustiça em diversos quadrantes.

No filme, a menção “neutra” a 2013, deixa sem questionamento os promotores e reais beneficiários do golpe de Estado (que já se engendrara há anos), cuja doce ilusão do “não é por R$ 0,20” demonstrou-se literalmente: afinal, são trilhões de dólares representados no saque colonial das imensas reservas do Pré-sal, da Eletrobras, da Amazônia, do Aquífero Guarani, dos bancos públicos, das privatizações selvagens, da impiedosa revogação de direitos trabalhistas, sociais, previdenciários etc.

Sabemos que a Rede Globo tolera atitudes comportamentais desviantes dos padrões médios em suas novelas, mas não suporta minimamente que sejam arranhadas as estruturas que perpetuam as desigualdades no Brasil. Mesmo as iniciativas tímidas no sentido de amenizar a escandalosa concentração de renda reinante no país são tipificadas como obras de “esquerdistas”, “bolivarianos” conspurcadores “da moral e dos bons costumes”.

Com a destruição reiterada do sistema político — orquestrada pela mídia hegemônica, o aparato repressivo do Estado e o capital nacional, associados subalternamente aos interesses forâneos dos grandes e reais favorecidos —, desembocamos no fascismo bolsonariano, cujo berço foi embalado e acalentado pelos delírios antipetistas (de todos os matizes).

Nosso breve texto é uma iniciativa (esperemos que acompanhada de outras) no sentido de questionar as possíveis sedimentações interpretativas ao abonar “novas leituras” por aqueles que sequer tiveram contato com o texto original de Vianinha, especialmente o público mais jovem.

Assim, convidamos a todxs para a leitura de Rasga Coração, edição competentemente organizada pela professora Maria Sílvia Betti (FFLCH-USP), autora de Oduvaldo Vianna Filho (Edusp/Fapesp, 1977) e Dramaturgia Comparada Estados Unidos/Brasil. Três estudos (Cia. Fagulha, 2017, https://www.ciafagulha.com.br/ ).

Serviço:

Rasga Coração , de Oduvaldo Vianna Filho

(Organização: Maria Sílvia Betti)

Editora Temporal, 2018

R$ 65,00 (dois volumes: peça e dossiê de pesquisa)

https://www.temporaleditora.com.br/

[1] Agenor Bevilacqua Sobrinho é doutor em Artes Cênicas pelo CAC/ECA-USP e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-UNESP). É pesquisador do Grupo de Pesquisa “Estudos histórico-críticos e dialéticos de teatro estadunidense e brasileiro” (CNPq). Editor, dramaturgo e escritor, é autor de Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht. Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininas, A Lente, A Guerra de Yuan, O Rato Pensador (todos pela Editora Cia. Fagulha: www.ciafagulha.com.br ) e de vários artigos publicados em revistas especializadas.

E-mail: editora@ciafagulha.com.br