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Planeta Universitário

Rãs passaram a se reproduzir fora d’água para diminuir a competição sexual

Publicado em 15 setembro 2016

Entre os vertebrados terrestres, as rãs exibem a maior diversidade de estratégias reprodutivas em terra. Até recentemente, a principal hipótese levantada pelos biólogos para explicar o que levou esses animais a darem esse passo evolutivo e passarem a se reproduzir de forma tão variada em terra seria a fuga de peixes e outros predadores aquáticos, que se alimentam de seus ovos e girinos.

Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Jaboticabal e de Rio Claro, em colaboração com colegas da Cornell University e da University of California em Berkeley, nos Estados Unidos, apontou que, além da seleção natural, a seleção sexual – por meio da qual algumas espécies de animais desenvolveram características morfológicas e comportamentais que conferiram a elas mais vantagens reprodutivas do que de sobrevivência – também contribuiu para as rãs passarem a se reproduzir em terra.

As descobertas da pesquisa, realizada no âmbito de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, foram publicadas na revista The American Naturalist.

“Identificamos que machos de algumas espécies de rãs constroem tocas na terra e atraem as fêmeas para pôr seus ovos e serem fecundados por eles nesses locais mais reservados”, disse Cynthia Peralta de Almeida Prado, professora da Unesp de Jaboticabal e uma das autoras do estudo, à Agência FAPESP.

“Isso diminui a concorrência com outros machos oportunistas que tentam fertilizar os ovócitos da fêmea, o que ocorre mais frequentemente em ambientes aquáticos”, avaliou.

A pesquisadora e colaboradores já tinham observado em um estudo anterior que os testículos dos machos de espécies de perereca pertencentes à família Hylidae – que abrange 952 espécies distribuídas por diversas regiões do mundo e que se reproduzem em terra – são menores e menos variáveis em termos de tamanho, quando comparados aos dos que se reproduzem na água.

Isso resultaria da menor produção de esperma entre os machos que se reproduzem em terra, um ambiente menos competitivo do ponto de vista da fecundação dos ovos das fêmeas.

“Essa constatação levantou a hipótese de que, além da seleção natural – que os levou a fugir de predadores –, a seleção sexual, por meio da competição entre os machos, poderia ter induzido a evolução de reprodução terrestre nessas espécies, que passaram a depositar seus ovos em locais escondidos e protegidos de machos oportunistas”, disse Prado.

Já durante um projeto que realizou recentemente, também com apoio da FAPESP, na modalidade Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, a pesquisadora reuniu dados sobre comportamento e tamanho de testículos de machos de várias espécies de rãs que se reproduzem na água e em terra.

Durante esse estudo, Prado observou que machos de algumas espécies de reprodução aquática enfrentavam maior competição entre si para fecundar os ovos das fêmeas do que aqueles que se reproduzem em terra.

Isso porque a concentração de machos à procura de fêmeas em lagos e lagoas, por exemplo, é maior do que em terra e as desovas das fêmeas nos ambientes aquáticos ficam mais expostas aos machos oportunistas.

Por isso, os machos em ambientes aquáticos costumam, por exemplo, “cercar” as fêmeas que acabaram de pôr seus ovos em um lago, competindo pela fecundação.

“Esse comportamento, que chamamos de poliandria [acasalamento de uma fêmea com vários machos durante um mesmo episódio reprodutivo], já tinha sido observado em outros grupos de animais”, afirmou.

Variações morfológicas

A fim de avaliar se a concorrência pela fecundação dos ovos das fêmeas poderia influenciar características morfológicas dos machos, a pesquisadora, em colaboração com colegas da Unesp e das universidades de Cornell e Berkeley, estudou os modos reprodutivos e variação no tamanho dos testículos de outras espécies de pererecas da família Hylidae.

Os pesquisadores constataram que o tamanho dos testículos dos machos das espécies de pererecas que se reproduzem na água também eram maiores em comparação aos dos que se acasalam em terra.

Uma das hipóteses para explicar essa variação morfológica é que, na água, eles precisam competir muito mais uns com os outros para fertilizar os ovos das fêmeas, produzindo mais esperma para ampliar o sucesso reprodutivo.

Os pesquisadores observaram ainda que algumas espécies de rãs acasalam na água acumulada no interior de bromélias, por exemplo. E outras espécies constroem ninhos de barro, na forma de vulcões, para se acasalarem.

“As rãs apresentam uma das maiores variedades de estratégias reprodutivas, muitas delas ainda não descobertas. Além disso, o Brasil possui a maior diversidade de sapos, rãs e pererecas do mundo, e o estudo da biologia dessas espécies, algumas já ameaçadas, é extremamente importante para avançarmos no conhecimento da evolução dos comportamentos”, afirmou.

O artigo “Polyandry, predation, and the evolution of frog reproductive modes” (doi: 10.5061/dryad.v67g3), de Zamudio, Prado e outros, pode ser lido por assinantes da revista The American Naturalist, em www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/687547

Agência FAPESP