Notícia

Gazeta Mercantil

Ranking da pesquisa industrial

Publicado em 24 novembro 2006

Por Carlos Henrique de Brito Cruz

Faltam instrumentos adequados para levantar o que nos seria mais útil em P&D. Pesquisa científica e tecnológica é um dos motores do desenvolvimento econômico. Nos países que se desenvolveram, usando conhecimento como o principal e inesgotável insumo de suas economias, há mais atividade de pesquisa em empresas do que em universidades e em institutos de pesquisa.
O ministério da Indústria e Comércio da Grã-Bretanha (DTI) acompanha de forma meticulosa o estado da pesquisa industrial no mundo e acaba de publicar a versão 2006 do DTI R&D Scoreboard. São dois volumes, num total de quase 300 páginas, com os dados sobre as 1.250 empresas que mais investem em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) no mundo, ao lado das 800 principais do Reino Unido.
Das 1.250 empresas que mais investem em P&D, 82% estão baseadas nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Reino Unido. O crescimento das atividades de pesquisa é bem claro: as 1.250 empresas somadas investiram, em 2005, 472 bilhões de dólares em P&D, apresentando um crescimento de 7% sobre o ano anterior. Os setores mais representados são equipamentos, farmacêuticos, automotivo, eletrônica e software. A empresa que mais investiu em P&D no período foi a Ford Motor Company, com US$ 9 bilhões.
Há três empresas brasileiras mencionadas no Scoreboard: a Petrobras, com US$ 439 milhões; Companhia Vale do Rio Doce, com 305 milhões; e a Embraer, com US$ 102 milhões. A Braskem quase entrou no ranking, mas ainda ficou abaixo do limite de US$ 36 milhões requerido para ser uma das 1.250 maiores em pesquisa. Há três indianas, cinco chinesas, oito espanholas, 17 coreanas e 44 de Taiwan.
O setor de atuação da empresa afeta a necessidade e o custo das atividades de P&D. Por exemplo, no setor farmacêutico o investimento médio em P&D é de 15% do faturamento, enquanto no setor automotivo ou aeroespacial e defesa fica entre 4 e 5% do faturamento. Em seus setores a posição das brasileiras é relevante: a Vale é a primeira do setor mineração, enquanto a Petrobras é a quinta maior investidora em P&D no setor de óleo e gás, e a Embraer é a 19ª do setor aeroespacial e defesa. A inclusão de defesa neste último setor tende a deprimir indevidamente a posição da Embraer, pois favorece as empresas situadas em países que têm grandes orçamentos para defesa nacional, o que não é o caso do Brasil. Ao lado do ranking mundial, o DTI levanta também as 800 principais empresas em P&D do Reino Unido.
Esta informação é importante, tanto para que as empresas façam seus exercícios de comparação e benchmarking, como também para o planejamento econômico do país.
Todos sabem que uma das primeiras providências para se melhorar um indicador é medi-lo corretamente e com precisão. Pois bem, experimentemos então perguntar: quais são as 100 empresas no Brasil que têm as mais intensas atividades de P&D? Pouca gente no Brasil saberá responder.
Intensificar a atividade de Pesquisa e Desenvolvimento em empresas é um dois principais desafios para a competitividade brasileira. Desde 1999 o País vem criando importantes iniciativas nesta área: Fundos Setoriais, Lei da Inovação, Lei do Bem, Subvenção Econômica, programas do BNDES e outros instrumentos importantes. Atualmente o país dispõe de um conjunto de instrumentos governamentais que tratam de incentivos fiscais, subvenção e estímulo à interação universidade-empresa que são comparáveis aos melhores existentes no mundo.
Falta-nos estabelecer agora instrumentos adequados para a medição, a análise e o acompanhamento dos resultados. O ranking do DTI inglês pode ser um dos exemplos que deveríamos analisar, não para ser copiado, mas para aprendermos como fazer o levantamento que seja mais útil aos propósitos da política para pesquisa e desenvolvimento industrial no Brasil.

Carlos Henrique de Brito Cruz - Diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); ex-reitor da Unicamp.