Notícia

Clínica Veterinária

Raiva sob vigilância

Publicado em 01 julho 2008

Por Thiago Romero

Agência FAPESP – Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) desenvolveram uma metodologia inédita que, ao estimar as populações de cães e gatos de um município, pode ser aplicada de forma sistemática no planejamento e na avaliação de campanhas de vacinação contra a raiva animal.

O desenvolvimento do método, que permite a identificação de áreas de cobertura vacinal crítica, partiu de estimativas feitas na capital paulista: sete habitantes por cão e 46 habitantes por gato. A validação do método teve como base informações da campanha de vacinação contra a raiva de 2002, fornecidas pelo Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

Com base nesses dados, coletados com o auxílio de sistemas de informação geográfica, o método permite fazer estimativas de densidade animal e do número de postos de vacinação móveis necessários para se atingir uma cobertura vacinal de 70% em cada região. Dados de literatura sugerem que uma cobertura nessa proporção previne cerca de 96% das epidemias rábicas nas grandes cidades.

"Os sistemas de informação geográfica integram softwares que podem ser baixados gratuitamente pela internet, permitindo a associação de dados cartográficos – como ruas, setores censitários e distritos administrativos – com dados não geográficos, como tamanho da população animal e número de postos de vacinação", disse Marcos Amaku, coordenador do trabalho e professor do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da FMVZ, à Agência FAPESP.

Segundo ele, os municípios interessados na aplicação do método podem utilizar bases de dados censitárias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "Qualquer município que tiver a base de dados do IBGE pode fazer estimativas da população animal utilizando os programas de informações geográficas e a razão de habitantes por animal que pode ser estimada pelos centros de controle de zoonose de cada cidade", explicou.

Em São Paulo, os setores censitários foram agrupados de forma a compor os 96 distritos administrativos e as 31 subprefeituras da capital. Os pesquisadores estimaram a existência de 1,49 milhão de cães e 226,9 mil gatos domiciliados na cidade, totalizando uma população de cerca de 1,7 milhão de animais. As estimativas do estudo não incluíram a população de cães de rua, cuja cobertura vacinal é mais baixa.

Segundo os pesquisadores, que elaboraram uma série de mapas de densidade animal para organizar a distribuição espacial dos postos de vacinação na capital, 1.729 é o número total de postos necessários no município para atingir a cobertura vacinal de 70%.

"Além de evitar as epidemias de raiva e evitar a formação de filas nos postos, com essa distribuição é possível deslocar a quantidade exata de recursos financeiros e humanos em cada posto de vacinação", disse Amaku.

A raiva é uma zoonose causada por um vírus do gênero Lyssavirus que ataca o sistema nervoso de todos os mamíferos, principalmente bovinos, eqüinos, suínos, cães, gatos e morcegos. Uma vez iniciada a sintomatologia não há tratamento efetivo conhecido, o que faz com que, na zona urbana, a prevenção da raiva canina e felina por meio de campanhas de vacinação seja o instrumento mais eficiente para o controle da raiva humana.

Serviço de qualidade

O Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo considera que, para não haver comprometimento da qualidade do serviço prestado, cada posto deve atender no máximo 700 animais por dia. Em 2002, cerca de 25% dos postos da capital paulista vacinaram um número superior a mil animais. "Esse grande número de animais em um único posto compromete a qualidade do serviço prestado e dá margem a problemas como brigas entre animais", conta Amaku.

Dados de literatura estimam uma soroprevalência para raiva de 16,5% para os cães de rua da cidade de São Paulo. "Isso significa que apenas 16,5% dos cães de rua da capital paulista, cujo tamanho da população é ainda desconhecida, estariam protegidos contra a doença", apontou.

"Essa baixa soroprevalência, associada à possibilidade de reintrodução do vírus rábico por outras espécies animais, é um fator que deve motivar um planejamento estratégico de vacinação e a manutenção de um sistema eficaz de vigilância epidemiológica nos municípios brasileiros", disse Amaku.

O projeto de pesquisa que originou o método teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa e foi desenvolvido em parceria com pesquisadores do Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo. Um artigo com a descrição da metodologia foi aceito e será publicado na Revista de Saúde Pública, editada pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

Um software de sistemas de informações geográficas que pode ser usado para a aplicação do método, segundo Amaku, é o TerraView, disponibilizado gratuitamente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e cujo lançamento da versão 3.0 Plus foi noticiado pela Agência FAPESP

Mais informações sobre o método: amaku@vps.fmvz.usp.br