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Raio e trovões e as mudanças climáticas

Publicado em 16 fevereiro 2010

Em dez anos, o Brasil recebeu cerca de 57 milhões de raios e 1.321 pessoas morreram por causa de fenômeno. Os números, reunidos pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), colocam o país no topo da lista mundial de incidência de descargas atmosféricas e indicam que o fenômeno tem aumentado.

O maior número de raios pode ter a ver com alterações no clima do planeta. Pesquisadores estimam que cada grau a mais registrado na temperatura global pode ocasionar um aumento de 10% a 20% na incidência de raios.

Fazer um amplo estudo sobre os fatores que podem afetar a ocorrência de raios no país é a proposta do projeto Impacto das mudanças climáticas sobre a incidência de descargas atmosféricas no Brasil, apoiado pela Fapesp. Iniciado em dezembro e com previsão para durar até o fim de 2013, a pesquisa é liderada por Osmar Pinto Júnior, coordenador do Elat.

Segundo o pesquisador, a motivação do trabalho surgiu em 2007, após uma conferência do Painel Interngovernamental de Mudanças Climáticas da ONU.

"No encontro, foi levantada a hipótese de que os raios aumentariam o efeito estufa ao provocar mais incêndios em florestas, que liberariam mais dióxido de carbono, alimentando um ciclo contínuo", disse o pesquisador.

O que incomodou o Elat foi não haver evidências conclusivas para confirmar ou derrubar a hipótese, nem dados sobre a relação entre mudanças climáticas e o aumento no número de raios.

Três fontes Para investigar a questão, o projeto usará três fontes principais de dados: a Rede Integrada Nacional de Detecção de Descargas Atmosféricas (Rindat), informações de satélite e registros do número de dias de tempestade. Segundo o pesquisador, os três sistemas têm vantagens e desvantagens.

A Rindat tem informações precisas, mas a rede mudou ao longo do tempo, e há dados de tipos diferentes a analisar. O sistema tem apenas dez anos, e só cobre parte do país.

Do espaço serão coletados dados pelo satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM), que apresenta cobertura nacional e informações uniformes ao longo do tempo. Mas o TRMM também tem um acervo de apenas dez anos de coleta, o que é pouco para fazer associações históricas.

Outro porém do satélite é sua órbita. Por circundar todo o planeta, o TRMM não monitora o Brasil o tempo todo, o que provoca lacunas de informação quando o equipamento está sobre outras áreas do mundo.

A terceira fonte de dados, os registros de dias de tempestade, oferece as mais antigas informações sobre incidências de raios no Brasil. Os primeiros registros datam de 1780, no Rio.

"Apesar da longa cobertura, os registros não são constantes e apresentam lacunas ao long de dois séculos. Alguns trabalhos de monitoramento foram abandonados após alguns anos, porque não se imaginava que o clima mudaria", explica Pinto Júnior.

Para analisar essa montanha de informações, o Inpe dispõe de parcerias com quatro instituições dos Estados Unidos: a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e a Universidade do Arizona.

Oceanos Uma relação já traçada pelo Elat é o da temperatura dos oceanos na incidência de raios. O grupo de pesquisa levantou que os anos em que ocorreram mais mortes por raios, 2001 e 2008, coincidiram com o fenômeno do resfriamento das águas do Pacífico, conhecido como La Niña.

"Sabemos que quando ocorre a La Niña aumenta a incidência de raios no Norte e Nordeste. Nos períodos de El Niño (aquecimento do Pacífico), as descargas aumentam no Sul. No Sudeste e Centro-oeste os efeitos são mais imprevisíveis", diz Pinto Júnior.

O projeto também quer analisar um considerável fator de influência no clima: o sol. Em ciclos de cerca de 11 anos aumentam as manchas na superfície solar e com elas o fluxo de radiação lançado pelo astro. Na Terra, isso é sentido por meio de alterações das partículas da atmosfera.

Fábio Reynol, da Agência Fapesp