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Diário da Manhã (GO)

Rainha do cinema marginal

Publicado em 30 setembro 2019

Por Marcus Vinicius Beck

Helena Ignez será homenageada na 19ª edição do Festival Goiânia Mostra Curtas, que começa no próximo dia 8 e vai até o dia 13

Dê play no youtube e assista o longa-metragem “Copacabana Mon Amour”, de 1970. Se você for cinéfilo, ficará boquiaberto com a atuação da atriz baiana Helena Ignez, 80, que interpreta a personagem Sonia Silk. Icônico filme dirigido por Rogério Sganzerla (1946-2004) e um clássico do Cinema Marginal, o longa é um verdadeiro patrimônio do audiovisual brasileiro e foi censurado pela Ditadura Militar (1964-1985).

Claro que um filme com trilha sonora do cantor Gilberto Gil não seria bem aceito pelos militares, mas o ponto nevrálgico na decisão em vetar o longa de Sganzerla é outro. Sonia Silk, personagem de eternizada por Ignez, dizia que tinha horror a pobre. Óbvio que tratava-se de uma sátira aos homens fardados que ocupavam o Palácio do Planalto: “Tenho nojo de pobre, nojo de pobre. Minha família é muito rica”, diz Silk.

Essa personagem fez tanta história no cinema brasileiro que não tem como deixar de lembrar dela. Sua mesquinharia era uma metáfora que representava as elites brasileiras em plenos anos de chumbo da ditadura. O Ato Institucional Número 5, o AI-5, fora sancionado dois anos antes do lançamento do longa, em 13 de dezembro de 1968, e a partir dali o regime começou a endurecer sua perseguição contra opositores.

Agora, mais de 40 anos depois de despontar no meio do cinema como uma das musas da contracultura e do Cinema Marginal, a atriz Helena Ignez será homenageada na terça-feira (8), às 20h, na abertura da 19º edição do festival Goiânia Mostra Curtas. Na sequência, haverá a exibição do documentário “O Pátio”, de Glauber Rocha. Lançado em 1959, o filme foi influenciado pelo concretismo e, nas palavras do próprio Glauber, é uma obra “experimental”. Ignez atua no filme.

Com roteiro e direção assinado por Sinai Sganzerla, o curta “Extratos” – que tem duração de sete minutos – conta com imagens entre o período de 1970 a 1972 nas cidades de Rio de Janeiro, Salvador, Londres, Londres, Marrakech, Rabat e a região do deserto do Saara. Os registros foram feitos por Helena Ignez e Rogério Sganzerla quando ambos tiveram no exílio, no auge dos anos de chumbo da ditadura militar.

Para finalizar a noite, vai ser projetado o experimental “Ossos”, dirigido por Helena em 2014 e inspirado na Classe Morta, de Tadeusz Kantor. Último trabalho de Ignez como realizadora, o curta é um happening cinematográfico em que desnudar-se é um caminho à liberdade e uma necessária afirmação de alegria. É inspirado em “A Classe Morta”, do pintor polonês Tadeusz Kantor, e tem 19 minutos de duração.

No dia seguinte, às 17h, na Vila Cultural Cora Coralina, terá lançamento do livro “Helena Ignez, actrice expérimentale”, de Pedro Guimarães Maciel (Unicamp) e Sandro de Oliveira. Editado pela Universidade de Strasbourg, na França, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a obra mostra a trajetória e Ignez e como ela se tornou referência no cinema brasileiro, nos anos 1970.

Homenageada

O reconhecimento a Helena Ignez esbarra em duas datas pra lá de importantes na trajetória da atriz: a comemoração de seus 80 anos de vida e os 60 anos de sua estreia nas telonas. Por isso, a escolha de homenageá-la na Curta Mostra Especial – O Amor e Suas Formas, que acontece nos dias 12 e 13 de outubro. No evento, serão reunidos filmes que retratam várias perspectivas e nuances da produção audiovisual do País.

Segundo a diretora-geral do Goiânia Mostra Curtas, Maria Abdalla, Ignez é uma personalidade feminina com história ímpar no cinema brasileiro. “Ao longo dos anos de trabalho mostrou impressionante interpretação como atriz. Já atrás das lentes da câmera, se reinventou como uma cineasta nata”, afirma Abdalla, diretora-geral da 19ª

Para termos uma ideia, Helena Ignez assina filmes que vão desde “Canção de Baal”, de 2007, até “A Moça do Calendário”, lançado em 2017. Seu último longa-metragem é o documentário “Fakir”. Com mais 40 filmes contabilizados como atriz e diretora, Ignez já foi homenageada na Ásia e na Europa.

Em plena atividade após mais décadas de carreira, Ignez atuou no longa-metragem “Tragam-me a Cabeça de Carmen Miranda”, filme dirigido por Felipe Bragança e Catarina Wallenstein. O filme foi exibido no Festival de Cinema de Tiradentes, em janeiro deste ano, e gerou debate acalorado entre o público, os críticos e os realizadores. Diário da Manhã acompanhou a sessão.

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