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Msia Informa

Radar além do horizonte, uma façanha tecnológica nacional

Publicado em 27 julho 2018

O Brasil juntou-se a um seleto clube de apenas meia dúzia de países que detinham a sofisticada tecnologia dos radares além do horizonte (OTH, na sigla em inglês).

Desenvolvido pela empresa Iacit Soluções Tecnológicas, de São José dos Campos (SP), o equipamento já está operacional na costa do Rio Grande do Sul e a empresa pretende negociá-lo com a Marinha do Brasil (MB).

O desenvolvimento do OTH teve início em 2011, com recursos do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e tem um índice de nacionalização superior a 80%.

Os radares OTH têm grande vantagem sobre os aparelhos convencionais, nos quais as ondas eletromagnéticas viajam em linha reta e, por conseguinte, têm um alcance máximo da ordem de 70 km para a detecção de embarcações. Nos OTH, o sinal viaja junto à superfície do oceano, atraído pela salinidade marinha, e o alcance pode superar as 200 milhas náuticas (370 km) da Zona Econômica Exclusiva sob jurisdição do Brasil. O equipamento da Iacit pode monitorar uma extensão de 144 mil quilômetros quadrados e 14 deles poderiam monitorar todo o litoral brasileiro.

O radar pode acompanhar o tráfego de navios de todos os tipos, sendo ideal para a detecção de embarcações não cooperativas, que não transmitem o sinal AIS (Automatic Identification System), que permite a sua identificação.

“Poucas nações do mundo, possivelmente, Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido, Austrália e Canadá, têm o know-how para projetar e construir esses radares”, afirma o engenheiro eletrônico Gustavo de Castro Hissi, diretor de Projetos da Iacit (Pesquisa FAPESP, julho 2018).

“O OTH é uma contribuição direta para o ambicioso projeto de vigilância marítima da Marinha, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul [SisGAAz]. Com quatro equipamentos dá para monitorar as jazidas de óleo e gás das bacias de Campos e Santos, nos litorais fluminense e paulista”, diz o almirante Paulo José Rodrigues de Carvalho, ex-chefe de Estado-Maior do Comando de Operações Navais da MB.

O aparelho encontra-se em testes no farol do Albardão, área da Marinha situada a cerca de 100 km da fronteira com o Uruguai (foto abaixo – Iacit).

O próximo desafio da empresa é nacionalizar o processador de sinal, um componente vital do radar e o único ainda importado. Sua função é transformar o eco refletido pelas embarcações e captado pelas 23 antenas de recepção do OTH em um mapa de detecções, mostrando a localização de cada uma delas. O subsistema de processamento instalado no radar em operação foi fornecido pela empresa israelense Elta, com a qual a Iacit tem um acordo de cooperação tecnológica.

“Assim como o rastreador, projetar e construir o sistema de processamento de sinais não é trivial. Já concluímos o algoritmo do processador, que se mostrou funcional em testes laboratoriais, e agora precisamos avançar nas etapas de engenharia de sistemas, que incluem a integração do algoritmo com hardwares, testes internos e de qualificação e ensaios em campo”, afirma Hissi.

A estimativa é de que o novo processador fique pronto em 18 meses.

A nacionalização do subsistema de processamento de sinais está sendo feita com recursos próprios, mas a Iacit busca apoio de linhas de financiamento para acelerar a produção seriada. Segundo o presidente da empresa, Luiz Carlos Teixeira, a decisão de utilizar o processador israelense no primeiro radar foi tomada para que o radar pudesse ser finalizado mais rapidamente. “Com isso, houve um ganho significativo de tempo para o radar ficar pronto”, diz ele, ressaltando que o apoio logístico da MB, com a cessão da área do farol do Albardão, também foi fundamental para a realização do projeto.

Apesar da cooperação da MB ao projeto, ainda não há uma decisão sobre a aquisição do equipamento, cujo preço não é divulgado pela Iacit. Apesar das enormes vantagens da tecnologia, os duros cortes orçamentários determinados pelo governo federal, nos últimos anos, deixaram a Marinha (e as Forças Armadas, em geral) à míngua e com sérias restrições para a aquisição de equipamentos novos.

De qualquer maneira, o domínio da tecnologia OTH é mais uma demonstração da capacidade brasileira em áreas de ponta do conhecimento e dos bons resultados que se podem obter com políticas públicas de fomento bem orientadas – e não tolhidas pela miopia fazendária dos sacerdotes da “austeridade” financeira.