Notícia

Gazeta Mercantil

Raças de cavalo e boi ameaçadas de extinção

Publicado em 02 fevereiro 1996

Por Geoff Tansey - Financial Times
Cerca de um terço das raças de animais domésticos - aves e mamíferos - está em risco de extinção, adverte a Organização de Alimentação e Agricultura da ONU, a FAO. "Das 4 mil a 5 mil raças existentes de animais domésticos, cerca de 1,2 mil d 1,5 mil corre, hoje, risco de desaparecer", segundo a Lista de Observação para a Diversidade de Animais Domésticos, divulgada no mês passado em Roma. A criação moderna, altamente especializada, apresenta a maior ameaça à diversidade de animais domésticos, afirma a FAO, com a projetada média de três raças perdidas a cada duas semanas. A acelerada propagação de raças modernas de animais, nos países em desenvolvimento, oferece riscos à maioria das linhagens locais. Contudo, em 80% da área rural do mundo, os animais adaptados regionalmente são superiores às raças modernas, segundo Keith Hammond, o perito da FAO em reprodução de animais e recursos genéticos. Diversidade comprometida "Durante todo este século fizemos tudo errado", afirma Hammond, referindo-se à reprodução de animais. A concentração no desenvolvimento de apenas algumas raças de cada espécie - além do uso de inseminação artificial que resulta em um único macho procriando dezenas de milhares de filhotes - pode ter ajudado a aumentar a produtividade, mas reduziu imensamente a diversidade genética, que é necessária para a reprodução de animais com características diferentes, capazes de se desenvolver em lugares diferentes. Desde os anos 20, sabe-se que as características com mais dificuldade de mudar são as relacionadas com a adaptação ao meio ambiente. "Precisamos parar com a deterioração e dar uma reviravolta na reprodução nas próximas duas a três décadas", afirma Hammond, um australiano que fundou e dirigiu o Instituto de Reprodução e Genética Animais da Universidade da Nova Inglaterra, antes de se transferir para a FAO. É necessário, diz ele, ajustar a biologia ao meio ambiente e ao sistema de produção específicos, em vez de produzir animais relativamente uniformes, muito exigentes em matéria de consumo de ração como, também, de cuidados administrativos. A diversidade biológica encontrada nos genes de raças diferentes será um recurso essencial para enfrentar as flutuações mais acentuadas das condições ambientais, previstas para o futuro. Um grupo de criadores, já enfrentando uma diminuição da rentabilidade na produção intensiva de suínos, visitou a China para examinar o porco Taihu, que tem uma ninhada média de dezesseis leitões, em comparação com apenas dez das raças ocidentais. Na Inglaterra, com a mudança da criação intensiva de porcos para a criação ao ar livre, os pecuaristas retornaram às raças anteriores para desenvolver suínos capazes de se desenvolver alimentando-se de grama. No Brasil, o cavalo pantaneiro possui resistência admirável à anemia eqüina infecciosa, doença que limita o uso de cavalos em muitos países onde os animais ainda são importantes para tração e transporte. Apesar de as 638 raças que correm mais riscos estarem localizadas na Europa, onde 43% de todas as raças de animais domésticos estão ameaçados, e somente 27 das 396 na África, segundo o relatório da FAO, os dados para países em desenvolvimento estão longe de completos, sendo provavelmente que a lista subestimou, seriamente, o número de raças em risco de extinção naqueles países. Classificam-se como "ameaçadas" as raças de animais com menos de mil fêmeas procriadoras, ou menos de vinte machos, enquanto as que têm menos de cem fêmeas reprodutoras, ou menos de cinco machos, são consideradas "em situação crítica ", conforme os critérios da FAO. A necessidade urgente é administrar as atuais raças de animais e incentivar os pecuaristas a desenvolvê-las e a usá-las, diz Hammond. Esse esforço deve envolver criadores, governos, o setor privado e as organizações não-governamentais, diz ele. Precisa implantar-se, também, uma reserva de sêmens e embriões congelados, à semelhança dos bancos de sementes de espécies vegetais. O lançamento dó relatório da FAO é uma contribuição para a criação de um Programa Mundial de Administração de Recursos Genéticos de Animais Domésticos, integrada à implementação da Convenção sobre Diversidade Biológica. O programa inclui um mecanismo intergovernamental para desenvolver políticas, e coordenar ações, ajuda técnica, grupos especializados e um mecanismo de doações para financiar os trabalhos.