Notícia

Gazeta Mercantil

R$ 8 milhões num túnel de vento

Publicado em 10 outubro 2005

Por Virgínia Silveira, de São José dos Campos

O Centro Técnico Aeroespacial (CTA) está finalizando o projeto de modernização do seu túnel de vento, utilizado principalmente pela Embraer, na simulação dos efeitos do ar sobre a aeronave quando ela está em movimento. A empresa, em conjunto com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), investirá cerca de R$ 8 milhões na modernização do túnel do CTA, denominado TA-2.
Considerada estratégica para o desenvolvimento confiável e sigiloso de projetos de aeronaves, a tecnologia envolvida na operação do túnel de vento é uma das principais ferramentas usadas pela Embraer para reduzir o tempo de desenvolvimento dos seus jatos. Algumas limitações existentes no túnel do CTA, porém, têm levado a empresa a recorrer aos serviços de ensaios oferecidos por túneis estrangeiros.
Historicamente, a Embraer absorve cerca de 85% do tempo de utilização do túnel do CTA, segundo o chefe da Divisão de Sistemas Aeronáuticos e coordenador do projeto do Túnel de Vento, major Olympio Achilles de Faria Mello. O projeto do jato regional ERJ-145, de 50 passageiros, por exemplo, realizou cerca de quatro mil horas de ensaios no túnel do Centro de Tecnologia.
CTA moderniza unidades de testes
A Embraer absorve cerca de 85% do tempo de utilização do túnel de vento
O Brasil aumentou a sua capacidade de pesquisa e ensaios de aeronaves em túnel de vento. O Centro Técnico Aeroespacial (CTA) está finalizando o projeto de modernização do seu túnel de vento, tecnologia considerada indispensável ao desenvolvimento confiável e sigiloso de projetos de aeronaves. A Embraer financiou metade do investimento de R$ 8 milhões que será aplicado no projeto.
O restante dos recursos virá da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), no âmbito do Programa de Inovação em Ciência e Tecnologia Aeroespacial (PICTA). Além da modernização do túnel de vento principal do CTA, a Embraer também participou da construção de um túnel de vento de menor porte no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), inaugurado em 2003 e de ajustes no túnel da USP de São Carlos. Historicamente a Embraer, segundo o chefe da Divisão de Sistemas Aeronáuticos e coordenador do projeto do Túnel de Vento, major Olympio Achilles de Faria Mello, absorve cerca de 85% do tempo de utilização do túnel do CTA. O projeto do jato regional ERJ-145, de 50 passageiros, por exemplo, realizou cerca de quatro mil horas de ensaios no túnel do CTA.
A nova família de jatos regionais da empresa, 170/190, realizou grande parte dos ensaios em túneis transônicos (que operam em limites próximos a velocidade do som) estrangeiros, de países como a Rússia, Holanda, França e EUA. O Brasil, segundo Melo, não possui um túnel transônico para operar em escala industrial. "O CTA desenvolveu um protótipo de túnel transônico voltado para atividades de pesquisa, mas já temos um projeto pronto de um túnel de grande porte nessa categoria", explica.
O projeto, segundo o pesquisador, já existe há quase 10 anos e não foi levado adiante por falta de recursos. A tecnologia de túnel transônico está disponível hoje apenas em seis países (China, EUA, França, Alemanha, Rússia e Holanda). Cingapura também possui um túnel de vento, mas que foi comprado da Boeing há alguns anos.
Orçado em US$ 80 milhões, o projeto do túnel transônico do CTA, segundo o pesquisador, reduziria a dependência externa do Brasil para a realização de ensaios de projetos estratégicos como os da Embraer e os riscos de espionagem. O túnel brasileiro, desenvolvido com o suporte técnico da empresa americana Sverdrup, foi projetado para operar também no regime subsônico pressurizado e supersônico. Construído na déca-da de 50, o túnel subsônico do CTA, denominado TA-2 opera em baixas velocidades, na faixa de 500 quilômetros por hora, mas é considerado a maior instalação do gênero na América Latina. A indústria aeronáutica utiliza esse tipo de ferramenta para simular os efeitos do ar sobre a aeronave quando ela está em movimento. Desta forma, pode otimizar o projeto da aeronave e minimizar situações de risco como a perda de uma superfície de sustentação, abertura do reverso na decolagem ou falha de motor.
Com a modernização do TA-2, a Embraer espera aumentar a confiabilidade dos ensaios realizados em túnel e diminuir em 30% o tempo dos testes. "O tempo médio gasto nos ensaios feitos no antigo túnel era de 1000 horas. O novo túnel permitirá que esse trabalho seja feito, em alguns casos, na metade do tempo". Na próxima semana a Embraer começa uma bateria de ensaios no TA-2 do seu novo jato executivo, chamado por enquanto de VLJ.
A utilização de tecnologias como o túnel de vento permitiram à Embraer reduzir o tempo de desenvolvimento dos seus aviões. Em 1996 a empresa levava até 14 meses para fazer montagem completa do jato ERJ-145, com uma produtividade por empregado de US$ 40 mil. Em 2004 o ciclo de produção do jato foi de 3,1 meses e a receita por empregado atingiu US$243 mil. O 170 tem um ciclo de 4,3 meses. Em 2002 era de oito meses.
O novo túnel do CTA, segundo Melo, está equipado com dois sistemas de medidas a laser, que permitem medir e visualizar a velocidade do escoamento de partículas em determinada parte do avião. "Com isso é possível controlar melhor o escoamento em torno de alguma parte do avião que está produzindo mais arrasto". O pesquisador explica que um aumento de 1% na relação sustentação dividida pelo arrasto de decolagem pode resultar em um acréscimo de 2.300 libras na carga paga ou em torno de 10 passageiros.
Além de novos equipamentos de medidas e instrumentação, o túnel de vento do CTA acaba de instalar nova hélice de fibra de vidro, com 8,4 metros de diâmetro, responsável pela produção do vento no túnel. A hélice foi desenvolvida pelo CTA em parceria com a empresa Tecsis, de Sorocaba, que faz pás para geradores eólicos. A indústria aeronáutica não é a única usuária do túnel de vento do CTA. Empresas como a Avibrás e outras dos setores de construção civil, eletroeletrônico, automobilístico, naval e plataforma de perfuração de petróleo também se valeram do túnel do CTA para qualificarem seus projetos de acordo com padrões internacionais de qualidade.