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Fundep - Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa

R$ 100 milhões em dez anos para o clima

Publicado em 29 agosto 2008

A FAPESP lançou na manhã de ontem (28/08) o maior e mais articulado esforço multidisciplinar já feito no Brasil para ampliar o conhecimento a respeito das mudanças climáticas globais. Cientistas do Estado de São Paulo de múltiplas áreas – das ciências físicas e naturais às humanidades - estão sendo convocados a participar do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais. Serão investidos R$ 100 milhões nos próximos dez anos – ou cerca de R$ 10 milhões anuais – na articulação de estudos básicos e aplicados sobre as causas do aquecimento global e de seus impactos sobre a vida das pessoas. “Queremos intensificar em quantidade e qualidade a contribuição dos pesquisadores de São Paulo no avanço do conhecimento sobre as mudanças climáticas e temos expectativa de que o programa propicie a produção de mais estudos em temas nos quais o Brasil tenha interesse específico”, disse o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz.

Foram lançadas duas chamadas de propostas, no valor total de R$ 16 milhões, divididos em partes iguais entre a FAPESP e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Uma das chamadas, com um montante de R$ 13,4 milhões, abrange projetos em seis temas distintos: o funcionamento de ecossistemas, com ênfase na biodiversidade e nos ciclos de carbono e de nitrogênio; o balanço da radiação atmosférica, em especial estudos sobre os aerossóis, os chamados gases-traço (monóxido de carbono, ozônio, óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis, entre outros) e a mudança no uso da terra; os efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura e a pecuária; energia e do ciclo de gases de efeito estufa; os impactos na saúde; e as dimensões humanas da mudança ambiental global. Como o objetivo do programa em sua fase inicial é formar e articular redes de pesquisadores, a FAPESP optou por oferecer recursos para projetos temáticos, mas futuras chamadas de propostas poderão dispor de outras modalidades de financiamento, como auxílios a pesquisa e Apoio ao Jovem Pesquisador. Convênios com fundações de amparo à pesquisa de três Estados, Amazonas, Rio de Janeiro e Pará, devem ser contemplados em editais futuros.

Uma segunda chamada de propostas, com R$ 2,6 milhões, tem o propósito específico de envolver grupos de pesquisadores na missão de criar o primeiro modelo climático brasileiro, um software capaz de fazer simulações. A necessidade de desenvolver competência nacional nesse campo se explica: hoje, para projetar os efeitos das mudanças climáticas, utilizam-se ferramentas computacionais inespecíficas que são, na verdade, recortes da previsão para o mundo inteiro. “Conquistar essa autonomia é estratégico para o país”, diz Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos coordenadores do programa da FAPESP. “O Brasil é grande, diverso e dispõe de uma grande variedade de climas em seu território. A exploração econômica muito ligada a recursos naturais, dependee em grande parte do clima. A capacidade de fazer simulações de maior interesse para Brasil e América do Sul nos dará garantias de que as projeções serão de boa qualidade”, disse Nobre. A criação do modelo climático brasileiro será possível graças a um investimento no valor de R$ 48 milhões, anunciado há cerca de dois meses. O Inpe vai abrigar um dos mais poderosos supercomputadores do mundo, com capacidade de processamento de 15 trilhões de operações matemáticas por segundo, para pesquisa de mudanças climáticas. Do total de R$ 48 milhões, R$ 35 milhões vêm do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e R$ 13 milhões da FAPESP.

Uso racional da energia - A cerimônia de lançamento teve início com uma exposição do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que falou sobre o papel do país no panorama das mudanças climáticas globais. “Temos uma indústria mais moderna que a de outros países, que se estabeleceu num momento em que já havia recursos tecnológicos para poluir menos. Nossos grandes problemas concentram-se em transporte e em geração de energia”, disse Fernando Henrique, que enfatizou a necessidade de usar a energia de forma mais racional. Ele advertiu que o debate científico acerca das mudanças climáticas dificilmente se traduzirá em ações concretas se não se formar na sociedade uma consciência mais ampla sobre o problema. “Mesmo nos Estados Unidos, que têm uma postura reacionária, estados, municípios e empresas tomaram decisões para controlar as emissões de gases estufa na contramão de Washington porque a base da sociedade participa do processo de compreensão dos efeitos do aquecimento global”, afirmou o ex-presidente. Fernando Henrique entregou uma cópia do programa da FAPESP ao ex-presidente chileno Ricardo Lagos, que atualmente é representante da Organização das Nações Unidas (ONU) na questão de mudanças climáticas. “Que os pesquisadores se lancem agora com afinco a seus estudos para que no futuro esses infelizes a quem cabe tomar decisões espinhosas – felizmente não sou mais um deles – possam decidir com base em dados mais confiáveis”, brincou.

Seguiram-se apresentações de idealizadores do programa. Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da FAPESP, explorou o esforço acumulado por gerações de pesquisadores na compreensão dos mecanismos do aquecimento global. Carlos Nobre, do Inpe, abordou as evidências científicas obtidas nos últimos anos sobre as mudanças climáticas. Carlos Alfredo Joly, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tratou do impacto nos ecossistemas, enquanto Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), discorreu sobre o papel dos aerossóis nos fenômenos climáticos. Por fim, Eduardo Delgado Assad, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), explorou os impactos das mudanças climáticas na agricultura e Daniel Joseph Hogan, do Núcleo de Estudos de População e de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp, falou da ambição de integrar pesquisadores das ciências humanas ao programa.

As chamadas de propostas estão disponíveis no endereço www.fapesp.br/mcg. Os interessados têm até o dia 1º de novembro para enviar projetos.

Fonte: Pesquisa FAPESP