Notícia

Planeta Sustentável

Química pode amenizar efeitos das mudanças climáticas

Publicado em 07 abril 2011

Por Marina Franco

"O sistema terrestre encontra-se em um estado sem análogos, um grande experimento geofísico sem precedentes. Acho que, nos próximos dez anos, haverá um consenso de que o Antropoceno acabou e estamos em uma nova era, inclusive geológica. Mas acredito que ainda é tempo de diminuir os riscos futuros. E isso tem a ver com a química". Essa ideia permeou a apresentação de Carlos Nobre, climatologista e secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento, do MCT - Ministério de Ciência e Tecnologia, durante a conferência Fontes Alternativas de Energia e Mudanças Climáticas*, realizada pela Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo*, esta semana.

Nobre, que também é conselheiro do Planeta Sustentável, afirmou que o ponto mais preocupante em relação à mitigação das mudanças climáticas é a dificuldade que se tem em remover os gases do efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono, da atmosfera. "Esses gases têm uma vida muito longa. Pelo menos 15% do carbono lançado hoje estará na atmosfera daqui a 1500 anos. É a questão química da longevidade das mudanças do clima. Ao mesmo tempo, o oceano levará mais de três mil anos para se equilibrar com as mudanças que estamos gerando. Ele leva tanto tempo para aquecer que, se parássemos de emitir agora, ele ainda aumentaria de 20 a 30 centímetros nos próximos mil anos", alertou o especialista.

Para se ter uma ideia do desequilíbrio pelo qual a nossa espécie passa, Nobre citou o exemplo de que a população mundial cresceu, nos últimos 90 anos, em um ritmo 3,4 vezes mais acelerado do que no século anterior, enquanto o uso de energia per capita cresceu 26 vezes mais rápido. "Este é um dos desequilíbrios da nossa população que causa as mudanças climáticas", afirmou. "A melhor explicação para o aumento da temperatura, do nível do mar e da diminuição da neve é o aumento da concentração de gases por influência humana", defendeu. Para Carlos Nobre, a tecnologia e a química podem ajudar a amenizar os efeitos dessas mudanças globais, mas é necessário haver uma mudança na política pública global. "A tecnologia anda mais rápido do que a nossa vontade global de mudanças. É preciso que os padrões de consumo e produção mudem profundamente".

Nas questões energéticas, Nobre sugere que o Brasil invista na produção eólica e solar. "Temos o segundo maior potencial do mundo para energia eólica, no entanto não aproveitamos esse potencial. Já lideramos muitas discussões internacionais sobre o meio ambiente e acredito que, se o Brasil fizer um esforço científico - e a Química tem muito a contribuir -, tecnológico e de inovação, em 2050 podemos nos tornar um dos países mais ricos do mundo", concluiu.

Mas, afinal, como a Química pode nos ajudar no combate às transformações do clima? O Professor Arnaldo Alves Cardoso, na Unesp - Universidade Estadual Paulista, lembrou como a química está envolvida nas questões de mudança climática e energia. "Há cem anos, a grande discussão era a busca de um método para se obter nitrogênio do ambiente para a produção de fertilizantes e aumento da produção de alimentos. O processo descoberto pelo químico Fritz Harber revolucionou o mundo, porque transformou o gás em um componente assimilável pelas plantas", explicou. Mas no mesmo passo em que acelerou a produção de alimentos, o método de Harber lançou um desafio para a química, pois a combustão do gás gera óxido de nitrogênio, que chega à atmosfera e forma ozônio. "Com isso, temos a formação de chuvas ácidas", explicou.

Se por um lado a química tem alguns problemas a resolver, também pode ser a chave para algumas soluções. Ela tem papel fundamental para:

- produção de vegetais, geneticamente modificados, que usam menos terra, água e fertilizantes;

- desenvolvimento ou adaptação de algas que consumam Nitrogênio;

- melhoria da eficiência de catalisadores do automóveis;

- desenvolvimento de processos limpos de produção de biocombustíveis;

- busca por alternativas para os combustíveis, como pilhas e fotogeradores de energia, entre outros.

"O melhor combustível para o ambiente é aquele que não é gasto. Precisamos consumir cada vez menos porque a Química não consegue solucionar todos os problemas do mundo", ponderou Cardoso. Para o professor Jailson de Andrade, do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia, são três os maiores desafios que a Química enfrenta atualmente: energia, alimentos e água. "São esses desafios que afetam a sustentabilidade e o bem-estar da população. E o sucesso em um deles significa necessidade de sucesso nos outros", afirmou.

Ele defende que o país expanda a eficiência de seu domínio sobre a energia solar, cuide dos rios e oceanos e planeje, de forma sustentável, a produção de alimentos de acordo com o crescimento expressivo da população. "Em 2050 teremos de 8 a 10 bilhões de pessoas no mundo. Hoje, 4 bilhões vivem em cidades e não produzem, só consomem os alimentos. Não será tarefa fácil para a agricultura", disse. Para Andrade, a agenda de sustentabilidade do século XXI precisa fazer correções em educação, ciência, tecnologia e inovação.

Também participaram da conferência Gláucia Mendes Souza, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, e Luiz Ramos, da Universidade Federal do Paraná. Eles apresentaram as pesquisas que desenvolvem nas áreas de bioenergia, principalmente com estudos sobre a cana-de-açúcar, e de biocombustíveis, respectivamente.

*Fontes Alternativas de energia e Mudanças Climáticas foi a primeira de um ciclo de dez conferências, que serão realizadas até o final do ano em homenagem ao Ano Internacional da Química.

 *FAPESP

"O sistema terrestre encontra-se em um estado sem análogos, um grande experimento geofísico sem precedentes. Acho que, nos próximos dez anos, haverá um consenso de que o Antropoceno acabou e estamos em uma nova era, inclusive geológica. Mas acredito que ainda é tempo de diminuir os riscos futuros. E isso tem a ver com a química". Essa ideia permeou a apresentação de Carlos Nobre, climatologista e secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento, do MCT - Ministério de Ciência e Tecnologia, durante a conferência Fontes Alternativas de Energia e Mudanças Climáticas*, realizada pela Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo*, esta semana.

Nobre, que também é conselheiro do Planeta Sustentável, afirmou que o ponto mais preocupante em relação à mitigação das mudanças climáticas é a dificuldade que se tem em remover os gases do efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono, da atmosfera. "Esses gases têm uma vida muito longa. Pelo menos 15% do carbono lançado hoje estará na atmosfera daqui a 1500 anos. É a questão química da longevidade das mudanças do clima. Ao mesmo tempo, o oceano levará mais de três mil anos para se equilibrar com as mudanças que estamos gerando. Ele leva tanto tempo para aquecer que, se parássemos de emitir agora, ele ainda aumentaria de 20 a 30 centímetros nos próximos mil anos", alertou o especialista.

Para se ter uma ideia do desequilíbrio pelo qual a nossa espécie passa, Nobre citou o exemplo de que a população mundial cresceu, nos últimos 90 anos, em um ritmo 3,4 vezes mais acelerado do que no século anterior, enquanto o uso de energia per capita cresceu 26 vezes mais rápido. "Este é um dos desequilíbrios da nossa população que causa as mudanças climáticas", afirmou. "A melhor explicação para o aumento da temperatura, do nível do mar e da diminuição da neve é o aumento da concentração de gases por influência humana", defendeu. Para Carlos Nobre, a tecnologia e a química podem ajudar a amenizar os efeitos dessas mudanças globais, mas é necessário haver uma mudança na política pública global. "A tecnologia anda mais rápido do que a nossa vontade global de mudanças. É preciso que os padrões de consumo e produção mudem profundamente".

Nas questões energéticas, Nobre sugere que o Brasil invista na produção eólica e solar. "Temos o segundo maior potencial do mundo para energia eólica, no entanto não aproveitamos esse potencial. Já lideramos muitas discussões internacionais sobre o meio ambiente e acredito que, se o Brasil fizer um esforço científico - e a Química tem muito a contribuir -, tecnológico e de inovação, em 2050 podemos nos tornar um dos países mais ricos do mundo", concluiu.

Mas, afinal, como a Química pode nos ajudar no combate às transformações do clima? O Professor Arnaldo Alves Cardoso, na Unesp - Universidade Estadual Paulista, lembrou como a química está envolvida nas questões de mudança climática e energia. "Há cem anos, a grande discussão era a busca de um método para se obter nitrogênio do ambiente para a produção de fertilizantes e aumento da produção de alimentos. O processo descoberto pelo químico Fritz Harber revolucionou o mundo, porque transformou o gás em um componente assimilável pelas plantas", explicou. Mas no mesmo passo em que acelerou a produção de alimentos, o método de Harber lançou um desafio para a química, pois a combustão do gás gera óxido de nitrogênio, que chega à atmosfera e forma ozônio. "Com isso, temos a formação de chuvas ácidas", explicou.

Se por um lado a química tem alguns problemas a resolver, também pode ser a chave para algumas soluções. Ela tem papel fundamental para:

- produção de vegetais, geneticamente modificados, que usam menos terra, água e fertilizantes;

- desenvolvimento ou adaptação de algas que consumam Nitrogênio;

- melhoria da eficiência de catalisadores do automóveis;

- desenvolvimento de processos limpos de produção de biocombustíveis;

- busca por alternativas para os combustíveis, como pilhas e fotogeradores de energia, entre outros.

"O melhor combustível para o ambiente é aquele que não é gasto. Precisamos consumir cada vez menos porque a Química não consegue solucionar todos os problemas do mundo", ponderou Cardoso. Para o professor Jailson de Andrade, do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia, são três os maiores desafios que a Química enfrenta atualmente: energia, alimentos e água. "São esses desafios que afetam a sustentabilidade e o bem-estar da população. E o sucesso em um deles significa necessidade de sucesso nos outros", afirmou.

Ele defende que o país expanda a eficiência de seu domínio sobre a energia solar, cuide dos rios e oceanos e planeje, de forma sustentável, a produção de alimentos de acordo com o crescimento expressivo da população. "Em 2050 teremos de 8 a 10 bilhões de pessoas no mundo. Hoje, 4 bilhões vivem em cidades e não produzem, só consomem os alimentos. Não será tarefa fácil para a agricultura", disse. Para Andrade, a agenda de sustentabilidade do século XXI precisa fazer correções em educação, ciência, tecnologia e inovação.

Também participaram da conferência Gláucia Mendes Souza, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, e Luiz Ramos, da Universidade Federal do Paraná. Eles apresentaram as pesquisas que desenvolvem nas áreas de bioenergia, principalmente com estudos sobre a cana-de-açúcar, e de biocombustíveis, respectivamente.

*Fontes Alternativas de energia e Mudanças Climáticas foi a primeira de um ciclo de dez conferências, que serão realizadas até o final do ano em homenagem ao Ano Internacional da Química.

*FAPESP