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Jundiaí Agora

Quimera é ficção científica?

Publicado em 13 novembro 2017

Quimera é uma criatura da mitologia grega representada por uma cabeça de leão, corpo de cabra e rabo de serpente (há algumas variações dessa combinação de animais). Eis o fato concreto: quimera é uma combinação de dois ou mais conjuntos de DNA em indivíduos diferentes. Então:

É possível “criar” em laboratório uma quimera? Existem quimeras naturais? As quimeras ocorrem nos seres humanos, plantas e animais? As respostas são: sim, sim e sim. Portanto, não é ficção científica.

A ficção reside no fato destes seres se traduzirem por figuras aterrorizantes, semelhantes aos seus pares humanos, animais ou plantas, mas, com aparências grosseiras, como se fossem aberrações da natureza.

Ledo engano. Pessoas quiméricas podem passar a vida inteira sem saber que o são. Sim, eles são tão normais em aparência e comportamento quanto qualquer outro ser, não classificado como quimera.

Existem pesquisadores que realizam experiências em laboratórios misturando DNA de exemplares de plantas, o exemplo do mais famoso deles, um pesquisador russo, pomólogo e geneticista, Ivan Michurin, que se dedicou à criação de quimeras vegetais.

Um exemplo brasileiro, é o veterinário Marcelo F. Gouveia Nogueira, coordenador do Laboratório de Micromanipulação Embrionária (LaMEm), da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP – Assis – SP. Ele conduz experimentos com o objetivo de produzir quimeras embrionárias de camundongos, em um projeto de pesquisa no qual a Fapesp já investiu, só nos últimos, cerca de R$ 250 mil.

O termo, em biologia, passou a designar um ser vivo criado em laboratório que deve sua existência não a uma só fecundação, mas, a duas ou mais. É diferente do animal híbrido (como a mula) porque cada célula mantém sua identidade original, cada uma segue o script genético herdado pela união de um óvulo e um espermatozoide. É isso o que as torna interessantes para a ciência.

“A quimera é uma ferramenta biotecnológica”, explica Nogueira. Camundongos quiméricos são usados, por exemplo, para fazer o diagnóstico da pluripotência de células-tronco embrionárias, ou seja, a capacidade das células primordiais se transformarem em qualquer tecido biológico, para formar um órgão ou até um animal inteiro. A pluripotência é um aspecto chave para a pesquisa de terapias com células-tronco e para a obtenção de animais geneticamente modificados, extremamente úteis no estudo de doenças humanas de origem genética.

A produção de quimeras é para poucos. Para manipular os embriões de camundongos não bastam equipamentos sofisticados. É preciso olhos muito bem treinados, mãos firmes e paciência oriental. Os embriologistas capazes de dar conta do recado são disputados quase como se fossem craques do futebol americano (que na maioria das vezes são recrutados nas universidades americanas).

Todo esse trabalho na UNESP de Assis é para alçar voos mais ousados. Desde 2012, um estudo com embriões bovinos foi iniciado pela aluna de doutorado Isabele Picada Emanuelli. O objetivo é conseguir combinar a informação genética de diferentes raças de gado para produzir indivíduos com as melhores características de cada uma delas.

Em síntese, isso permitiria criar, por exemplo, um concepto (feto mais placenta) quimérico com a capacidade leiteira do gado holandês (o feto em si) e a resistência ao calor do gado zebu (a placenta), explica Nogueira. Segundo ele, o quimerismo seria uma alternativa nas tentativas para melhorar a clonagem. “A taxa de viabilidade dos fetos clonados é menor, em grande parte, devido a problemas de interação entre as células do útero e da placenta.”

O quimerismo em seres humanos é uma condição rara quando natural e, absolutamente regulamentada quando experimental. Embora a comunidade científica observe com bons olhos, especialmente, quando as técnicas de manipulação gênica recaem sobre terapia gênica e cura de doenças, essa área ainda carece de estudos para ser aplicada, embora a terapia gênica somática (aquela que afeta apenas o indivíduo em questão e não a sua prole), hoje, seja comparada a transplante de órgãos.

O medo da terapia gênica geminal (aquela que altera o código genético das células reprodutoras) é que ela pode ser abusiva, contrapondo os objetivos terapêuticos quando, ao invés de servir como objetivo contra uma doença, ela possa ser usada para produzir quimeras com características humanas consideradas ótimas por determinado grupo. Uma história que pode repetir a eugenia, ou seja, a busca por uma raça perfeita, tal como Hitler propôs em um passado longínquo.

Dessa forma, visando proteger a identidade genética humana, alguns órgãos internacionais e alguns países, manifestaram sua posição contrária a abusos de estudos em engenharia genética humana, como é o caso da Alemanha, que criou o EschG, que regulamenta e pune casos de criação de quimeras humanas, bem como o Conselho Europeu que também proíbe tal processo. A Associação Internacional de Direito Penal condena essa prática e exige tipificação penal nesses casos.

No Brasil, a Lei de Biossegurança 11.105/2005 proíbe com responsabilidade penal a engenharia genética geminal praticada em células humanas, zigoto ou embrião humano, com pena de 1 a 4 anos de reclusão e multa.

Atualmente tem-se conhecimento de apenas 40 casos NO MUNDO de quimeras naturais. Apesar de rara, põe à prova um exame de alta confiabilidade, o teste de DNA, pois, se o indivíduo possui mais de um código genético, possibilita oportunidade para resultados aberrantes, como uma mãe que acaba de ter um filho, não ser considerada mãe biológica daquela criança. Parece impossível? Já aconteceu, como veremos mais adiante nos exemplos colhidos na literatura.

Essa exceção genética, o quimerismo, pode ocorrer de algumas formas e ser permanente ou temporária.

Quando ocorre naturalmente é por que a fusão de células de indivíduos diferentes se deu antes do nascimento, podendo o grau de variação do DNA diferir de quimera para quimera. As quimeras naturais podem ocorrer de três maneiras: microquimerismo (ou micro quimerismo fetomaternal), quimerismo partenogenético e quimerismo tetragamético. Há, ainda, quimerismos não embrionários (tecnicamente são casos de microquimerismos), ocasionados por doação de órgãos ou transfusões sanguíneas. Vamos aprender sobre cada um deles.

O microquimerismo fetomaternal (FMC) é o tipo mais comum de quimerismo humano e significa que há pequena concentração de células derivadas de outro indivíduo, fato comum em uma gestação normal, onde há um tráfego bidirecional entre mãe e feto, com as células do feto passando pela circulação materna, rotineiramente. Células fetais são, normalmente, encontradas no sangue periférico materno no primeiro trimestre da gravidez, sendo detectadas a partir de cinco semanas de gestação, por isso, hoje é possível fazer exame de sangue para saber o sexo do bebe nos primeiros meses de gestação.

Essa troca se torna mais intensa ao longo da gravidez e mais evidente às vésperas do parto, podendo se alojar em qualquer parte do organismo (sangue ou outro tecido) inclusive, alguns estudos mostraram a presença dessas células durante toda a vida de mulheres (uma delas tinha 94 anos e ainda possuía tais células).

Dessa forma, nós mulheres e mães, podemos nos considerar quimeras humanas, já que, potencialmente, isso pode ocorrer em qualquer gestação.

O quimerismo partenogenético é constituído quando um ovo que não sofreu meiose é fertilizado por dois espermatozoides. Nesse caso, os dois espermatozoides fornecem o dobro da dosagem do material genético do pai, que emparelha com o dobro do material genético da mãe, resultando em uma quimera. É um tipo raríssimo de quimerismo, tendo sido registrado apenas uma vez, de acordo com as minhas pesquisas, por Lisa Strain e colegas da Universidade de Edimburgo (Escócia, Reino Unido) e divulgado pelo cientista M. Azim Surani em comentário gravado na revista “Nature Genetics”, no ano de 1995.

E quando dois ovos são fecundados por dois espermatozoides, resultando em dois embriões distintos que se fundem para formar uma única pessoa, denominamos quimerismote tragamético. Seria o caso de uma gravidez que originalmente resultaria em gêmeos. Os tecidos das quimeras tetragaméticas são compostos por células do embrião original e do outro embrião, que foi absorvido pelo primeiro.

Além dos casos de quimerismos embrionários apresentados, existem outros tipos de quimerismos não embrionários. Estudos publicados por revistas especializadas apontam que há possibilidade de surgimento de microquimerismo após a realização de transfusões sanguíneas ou doação de órgãos.

Um estudo publicado em 1999 por Benini e colaboradores (na Revista Brasileira de Alergia e Imunopatologia), revelou queno universo de 75 pacientes, após transplante renal e transfusão sanguínea, foi constatada a presença de microquimerismo em seis pessoas (16,2%) após os protocolos de transfusões de sangue e em quatro pessoas (10,5%) após o transplante renal, sendo que, em alguns desses casos, verificou-se a permanência dessas células por até 400 dias nos indivíduos receptores.

Concentremo-nos em dois casos verídicos, conhecidos, com quimeras humanas (que tiveram implicações jurídicas), para verificar as situações difíceis pelo qual passaram Karen Keegan e LydiaFairchild (extraídos da Rev. Bioética y Derecho, no.38 Barcelona, 2016. http://dx.doi.org/10.1344/rbd2016.38.17048).

Em 1998, na cidade de Boston, capital do estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, o caso de Karen Keegan se tornou um mistério. Keegan sofria de insuficiência renal e precisava de um transplante de rins. Para tanto, realizou-se um teste de compatibilidade com seus três filhos, a fim de se verificar se um deles poderia ser seu doador. O resultado foi negativo e, entretanto, para surpresa de todos, constatou-se também que dois dos três filhos não eram filhos biológicos de Keegan.

Os exames foram repetidos e os resultados continuavam demonstrando que Keegan não era a mãe de seus filhos. Um dos irmãos da mulher se disponibilizou a realizar alguns exames para comprovar o parentesco, o que, de fato, ficou evidenciado. Portanto, os médicos passaram a analisar outras amostras genéticas de Keegan, a fim de se verificar o motivo dessa discrepância nos exames e de se comprovar que a mulher era a mãe biológica de seus filhos.

Essas novas análises constataram que Keegan tinha dois perfis de DNA distintos dentro de seu próprio corpo, ou seja, a mulher era uma quimera humana. Como justificativa, os médicos indicaram que a hipótese mais plausível é que Keegan se fundiu com outro embrião, (quimerismo tetragamético).

O caso de Lydia Fairchild ocorreu em 2003 no Estado de Washington, nos Estados Unidos. Fairchild já era mãe de dois filhos e, quando estava grávida do terceiro, solicitou um auxílio governamental junto à autoridade do local. Para que essa solicitação fosse avaliada, era necessário que ela enviasse amostras de DNA que confirmassem a paternidade de seu parceiro e a sua maternidade com relação aos filhos da relação anterior.

Ela enviou as amostras que, analisadas, acusaram resposta surpreendente: o resultado dos testes demonstrou que, embora o companheiro de Fairchild fosse, de fato, o pai das crianças, ela não era a mãe biológica de nenhuma delas. Tal resultado além de impedir o recebimento do auxílio, trouxe, a reboque, graves consequências para a mulher que passou a ser investigada e processada judicialmente, pois, foi acusada de tentativa de fraude, o que também levou os promotores a solicitar que as crianças fossem levadas para um abrigo.

Fairchild teve que se defender. Reuniu todas as certidões de nascimento de seus filhos e procurou, inclusive, o médico que realizou os partos para atestar que eles de fato aconteceram, o que não foi suficiente para comprovar sua maternidade. Tanto a investigação quanto o processo seguiram com seus trâmites normais e, nesse período, a mulher deu a luz ao seu terceiro filho. Pasmem!Em breve tempo os resultados foram divulgados revelando que a mulher também não era a mãe do nascituro.

É ou não é um caso aberrante?

Diante dessa situação, seu advogado teve conhecimento do calvário vivido por Karen Keegan, o que fez com que ele estudasse a hipótese de sua cliente ser uma quimera humana, reformulando, radicalmente, a sua defesa.

De outra banda, cristalino que um exame antes incontestável (exame de DNA) passa a ser apreciado sob ótica mais apurada, pois, apesar de apresentar alta margem de segurança, é suscetível de erros comuns, a saber: troca de amostras no laboratório; decomposição do material coletado; contaminação, bem como, nos casos de quimeras, deve ser refeito com amostras de outros tecidos do indivíduo e, se possível, de sua família também.

Indivíduos quiméricos podem ser colocados em situações incomuns, mesmo após a realização de exame de DNA, como por exemplo:

– impedir o reconhecimento do direito dos filhos em ter um pai, pois, precisamos destacar que é comum que pais neguem a paternidade de suas crianças, ocorrência facilitadana hipótese desse sujeito ser uma quimera humana.

– além de excluir ou confirmar a paternidade e/ou maternidade com uma precisão absoluta de 99,9999%, as sequências genéticas também tem a função de identificar pessoas a partir de alguns traços indicadores, fato de grande relevância para a identificação de criminosose suas responsabilizações. O inverso também é verdadeiro, é possível condenar alguém injustamente ou outra pessoa em seu lugar, bem como, inocentar um culpado quando se trata de indivíduos quiméricos.

Essa realidade de exames de DNA ainda não é rotina no Brasil, particularmente, quando se trata de crimes, mas, é ponto pacífico em outros países e a tendência é que seja incluído como forma de identificação para pessoas, plantas e animais. O fato é que tendo conhecimento dessas circunstâncias genéticas, o profissional deva se precaver com exames mais amplos a fim de não excluir quem deveria estar incluso e, vice versa, porque ninguém é infalível, nem mesmo o tão propalado teste de DNA.

ELAINE FRANCESCONI

Bacharel em Zootecnia (UNESP Botucatu). Licenciatura em Biologia (Claretiano Campinas). Mestrado (USP Piracicaba) e doutorado (UNICAMP Campinas) em Fisiologia Humana. Professora Universitária e escritora