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Jornal da Unicamp online

Questões de gênero

Publicado em 06 agosto 2012

Por Luiz Sugimoto

Uma enquete sobre o uso do bigode, dirigida ao público feminino e publicada no Correio da Manhã em fevereiro de 1907, chamou a atenção da historiadora Lerice de Castro Garzoni ainda quando desenvolvia sua pesquisa de mestrado. Sua dissertação tratou de casos de mulheres que eram reincidentemente presas e processadas por vadiagem no Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX. “Trabalhava com a documentação da polícia e minha leitura da imprensa era pontual, ia aos jornais apenas quando um caso de maior repercussão me interessava. A enquete me fez pensar que poderia observar muito mais sobre as mulheres da época se trabalhasse com os jornais de forma extensiva”, recorda a pesquisadora.

Fruto de profunda garimpagem nas edições do mesmo diário carioca, desde sua fundação em 1901 até meados da década de 1910, Lerice Garzoni defendeu no início de junho a tese de doutorado “Arena de combate: gênero e direitos na imprensa diária (Rio de Janeiro, início do século XX)”, orientada pela  professora Maria Clementina Pereira Cunha, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Para isso, contou com bolsas da Fapesp e da Capes (bolsa sanduíche) e o apoio de professores do Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult), tendo feito quase toda a pesquisa no Arquivo Edgar Leuenroth (AEL). “Investiguei como aquela matéria de jornal estava inserida em um debate maior e como ela dialogava com os textos ao redor.”

Lerice afirma que o Correio da Manhã, assim como outros grandes diários, estava se estruturando como empresa no início do século passado, vindo daí o interesse em disputar o público feminino com as revistas que tratavam de moda, beleza e outras amenidades. A enquete perguntando se as leitoras aprovavam ou não o bigode nos homens gerou 106 cartas, todas publicadas com destaque nas edições dominicais. “Uma questão aparentemente boba, frívola, acabou levando a outras mais sérias, como por exemplo, a respeito de higiene, problema então preocupante na capital do país; ou de identidade nacional, visto que a cara raspada seria um hábito copiado dos ingleses.”

O assunto ficou mais interessante quando a historiadora descobriu que a mesma enquete ocupou página inteira da Femina, requintada revista francesa dirigida à elite, quase um mês antes. O Correio fez simplesmente a transposição e tradução da página, talvez esperando popularizar o debate em um diário. “Na França, o debate era outro: certas categorias, como de mordomos, mensageiros e padeiros, estavam sendo impedidas de usar bigode, numa forma de distinção social. Trabalhadores entraram em greve e um deputado chegou a apresentar projeto de lei assegurando o bigode como um direito inalienável do homem – por trás da enquete havia a defesa da igualdade.”

A partir dos episódios selecionados no jornal, Lerice Garzoni procurou analisar como homens e mulheres mobilizaram os conceitos de feminino e masculino no início da República. “A discussão sobre direitos era pungente naquele contexto histórico: qual seria o limite da intervenção do Estado na vida das pessoas, como as leis republicanas estavam organizando as relações sociais e de trabalho no pós-abolição, como eram apropriadas as representações femininas neste debate. E o Correio da Manhã, que foi lançado como ‘um jornal de opinião’, para provar sua imparcialidade, reservou a seção de honra (espaço nobre em todos os diários) para colaboradores bastante distintos: republicanos, monarquistas, juristas, professores, artistas, mulheres.”


No primeiro capítulo da tese, a autora trata da desavença entre o dono do Correio da Manhã, Edmundo Bittencourt, um republicano, e o colaborador monarquista Carlos de Laet. De uma discordância no campo das ideias, ainda respeitando o princípio inicial do jornal de imparcialidade, os atritos passaram para o campo das ofensas pessoais. “Dois aspectos da vida de Laet vieram à tona. Primeiramente, o fato de ser professor primário, o que foi usado para questionar não apenas a sua masculinidade, como a sua inteligência.”

Lerice esclarece que, em 1897, baixou-se uma lei municipal impedindo o ingresso de homens na Escola Normal do Rio de Janeiro. A justificativa era de que as mulheres eram mais capacitadas para o magistério, concebido como extensão da maternidade. “Mas, acompanhando esta feminização, vinha uma desvalorização da profissão, que exigiria menos esforço intelectual. Como antes o magistério era exercido por homens, um debate sobre direitos entrou de forma tangencial: de quais seriam as profissões masculinas e femininas.”

A vida íntima de Carlos de Laet também foi explorada, com a denúncia de que frequentava casas de prostituição e abusava das criadas domésticas e de meninos da redação. “No começo da República, existe uma forte discussão em torno da família como base da nação. Atingido em sua honra sexual, Laet ficou caracterizado como um ser amoral e, logo, sem legitimidade para expor suas ideias em público. Esta desavença não estava pautada em cima de direitos masculinos e femininos, mas vinha permeada por tais representações.”

A historiadora segue pela década de 1910, explorando como noções de honra e de nação foram mobilizadas por leitores, jornalistas e colaboradores para criar no jornal um espaço onde fossem atendidas demandas específicas. “Jornalistas se apresentam como protetores de ‘órfãs exploradas por patrões’ e algumas mulheres, como Elisa Scheid e Leolinda Daltro, saem em defesa dos índios, caracterizando-os como sujeitos incapazes de reivindicar seus direitos.”

Defendendo o divórcio na ‘arena de combate’


Presente no título da tese, a expressão “arena de combate” foi cunhada pela escritora Emília Moncorvo Bandeira de Melo, como metáfora para a imprensa. “Diante de críticas de um leitor ao seu trabalho, ela respondeu que estava numa arena de combate, com todas as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que expõem publicamente as suas ideias, mas também por estar só como mulher”, conta a pesquisadora.

Em 1907, sob o pseudônimo de Carmem Dolores, a escritora usou a seção de honra do Correio da Manhã para defender a total dissolução do casamento pelo divórcio, repercutindo uma polêmica tese apresentada pelo advogado Marcílio Teixeira de Lacerda no Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro. Lerice lembra que constituída a República, o governo provisório baixou um decreto separando Estado e Igreja – e consequentemente casamento civil e religioso. “Ocorre que o casamento civil continuou orientado pelo princípio da indissolubilidade, que é um princípio religioso. A lei utilizava o termo divórcio, mas significando a separação de corpos e de bens, sem abrir a possibilidade de as pessoas se casarem novamente.”

A polêmica em torno do divórcio em 1907 serviu de mote para o jornal promover nova enquete dirigida ao público feminino. “Era colocada a discussão sobre o significado do casamento: se seria um contrato, como de trabalho e outros estabelecidos na esfera pública, e, portanto, podendo ser dissolvido; ou se seria um vínculo especial, envolvendo honra sexual e outros aspectos dizendo respeito à esfera privada e, portanto, não orientado pela premissa dos contratos.”

A partir disso, conforme Lerice Garzoni, as leitoras discutiriam outras questões, como a ideologia do “homem provedor” e noções sobre o trabalho feminino. “Algumas mulheres, ironicamente, responderam que gostariam de ocupar cargos públicos. O que é interessante, pois em 1910 haveria a disputa pela presidência entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa, a primeira com dois candidatos. Grupos de mulheres se organizaram de um lado e de outro, participando indiretamente do pleito.”

No intuito de romper com a ideia de que houve uma conquista progressiva de direitos pelas mulheres, a historiadora incluiu na tese a personagem de Selda Potocka, escritora polonesa que colaborou no Correio da Manhã. “Se antes se escreveu tanto no jornal sobre caráter do casamento, divórcio e trabalho da mulher, Potocka voltava aos assuntos da moda, beleza e comportamento. A leitoras que perguntavam como eliminar pelos no rosto, respondia que o tratamento correto não era com cremes depilatórios, mas por meio de corrente elétrica contínua, serviço que só o seu instituto de beleza oferecia.”

A pesquisa de Lerica Garzoni chega até a Primeira Guerra Mundial, que para alguns analistas promoveu o trabalho feminino e a valorização da mulher, enquanto outros questionam que trabalho seria este, já que elas eram chamadas para ocupar o lugar de grevistas. “Mas aí está, efetivamente, a base do movimento feminista organizado. Bertha Lutz, ao voltar para o Brasil em 1916, manifesta-se pela primeira vez como feminista na imprensa, discutindo as consequências da guerra. Ela se insere num debate que vem sendo gestado há muito tempo. Dos estudos sobre periódicos emancipacionistas no final do século XIX, parece existir um vácuo até o movimento organizado do final da década de 1910. No entanto, vemos que muita coisa era discutida na imprensa diária.”

Publicação

Tese: “Arena de combate: gênero e direitos na imprensa diária (Rio de Janeiro, início do século XX)”
Autora: Lerice de Castro Garzoni
Orientadora: Maria Clementina Pereira Cunha
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)