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Blog Noblat

Queremos o enredo inteiro

Publicado em 15 setembro 2005

Por Mariluce Moura

Talvez seja pedir demais a essa altura. Talvez não passe de um desejo anacrônico exposto por alguém incapaz de encontrar o sentido límpido das coisas por entre os fragmentos, centenas, milhares de fragmentos, que constituem, parece, o modo próprio e mais adequado de revelar os acontecimentos nos dias que correm — linguagem de videoclipe, saca? Mas imagine, caro leitor, como seria bom, como seria magnífico mesmo, se um narrador onisciente nos contasse tintim por tintim, da forma mais organizada possível e num texto claro e elegante, com começo meio e fim, o enredo inteiro dessa crise política que assola o país já há quase quatro meses.
Essa personagem dos meus sonhos começaria sua narração por um simples "Foi assim:" e só depois de esmiuçadas todas as personagens, suas secretas motivações e promíscuas relações, todas as peripécias e eventuais reviravoltas do drama — de preferência em ordem cronológica, admitindo-se, contudo, um ou outro flashback que não turvasse a clareza do enredo —, colocaria o ponto final em seu relato. Teríamos assim uma espécie de aula exemplar sobre a política nacional. E teriam sido muito ampliadas nossas possibilidades de entender e interpretar as raízes e as decorrências da crise atual, nossa capacidade de opinar sobre a trajetória real do Partido dos Trabalhadores e do governo Lula e até nossa competência para tomar decisões mais acertadas no futuro. 
Em vez desse belo relato, no entanto, o que temos é uma narrativa cheia de buracos, descosida, completamente falha de arremates. Retalhos e mais retalhos que não propiciam a criação de uma peça inteira, inteligível, ainda que contribuam poderosamente para a emoção generalizada e difusa de desalento. De desânimo. Decepção. "Essa narrativa do desalento, sim, está bem fechada, bem construída, e na crise é uma das poucas que fizeram sentido até aqui", comenta Raquel Paiva, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e até poucos meses atrás, coordenadora de seu programa de pós-graduação. Raquel, uma mineira cheia de entusiasmo, esfuziante, que fez um estágio na Bahia antes de se radicar há muitos anos no Rio, é uma estudiosa como poucas das narrativas da mídia - e do jornalismo impresso em particular. E é em plena posse de sua reconhecida competência nesse campo — há pouco mais de uma semana recebeu, por exemplo, no congresso da Intercom, a Sociedade Brasileira de Estudos Disciplinares da Comunicação, o prêmio Luís Beltrão de liderança emergente na área de comunicação — , que ela observa que uma narrativa toda fragmentada em muitos casos "propicia apenas analfabetismo político e social".
E infelizmente é desse tipo a narrativa de que dispomos por ora para conhecer nossa mais nova e trágica história de corrupção e de privatização do Estado, além da triste desconstrução do PT enquanto partido legal com amplíssima base de militantes (820 mil filiados), visceralmente comprometido, segundo uma imagem longamente vigente, com a ética e com os interesses coletivos dos trabalhadores   — e exatamente por essas e algumas outras razões, visto como muito diferente de tudo que ocorrera na história republicana do país até sua criação, há 25 anos.
O problema é que a fragmentação da narrativa não parece ser casual, mas deliberada. Nada indica que ela é fruto de insuficiência de informação na origem, nas fontes, mas de uma estratégia política. E não exatamente dos jornalistas que alimentam incessantemente a mídia on line, o rádio, a televisão, os meios impressos. Não — vale aqui perceber que embora se constitua como uma das mais determinantes narrativas da atualidade, "a cobertura jornalística recorta os discursos vigentes na sociedade", como diz Raquel num texto de 2004,  A estratégia comunicacional contra a memória hegemônica e o senso comum midiático, disponível no site da Intercom (www.intercom.org.br). É justamente o discurso completo sobre o que se passou até se instalarem as CPIs, que neste momento nos oferecem um excesso de imagens que queremos saber interpretar, que não está ainda à disposição da narrativa jornalística. Sequer discursos complementares e realmente encaixáveis uns aos outros estão disponíveis no momento.
Em outras palavras, o narrador dos meus sonhos, feito possivelmente de  muitos narradores que hoje se omitem ainda, não existe nesse momento nos meios de comunicação. Mas é mesmo da narrativa jornalística, insistente na tentativa de costurar fragmentos, que pode surgir a linearidade desejável para entendermos mais completa e profundamente a atual crise política que espanta muitos, decepciona multidões e enche de gozo uns tantos.
Só para uma reflexão final: "É necessário lembrar que permanecemos numa cultura em que a narratividade mantém sua grande importância. Muitos fatos sociais vão sendo construídos pelo imaginário a partir da narrativa jornalística, responsável hoje, como se sabe, pelo conhecimento coletivo do mundo". E um toque ainda: "Mesmo que a notícia se refira a um determinado acontecimento e se realize num espaço físico muito limitado e por um espaço de tempo breve, ela atua como elemento de partida  para a rotina de rituais cotidianos. Ou seja, a narratividade não se encontra no corpo de uma notícia individualizada, mas nas notícias tomadas em sua seqüencialidade". As duas afirmações são de Raquel Paiva no texto citado. De minha parte, vou apostar que chegaremos a uma sintaxe narrativa coerente, nem que tenhamos que esperar por ela ao longo de 1.001 noites.

Mariluce Moura é jornalista e diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp