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Problemas Brasileiros

Quem tem medo de Guimarães Rosa?

Publicado em 01 fevereiro 2008

Especialista fala da importância do escritor que "cria poesia o tempo todo"


Comemoraremos, em 27 de junho deste ano, o centenário de nascimento de João Guimarães Rosa — o grande escritor brasileiro que, se o destino lhe houvesse permitido viver um pouco mais, traria certamente para o Brasil uma glória há muito sonhada, o Prêmio Nobel de Literatura. Seu falecimento repentino aos 59 anos, quando já era iminente sua indicação para aquela premiação por seus editores internacionais, aconteceu somente três dias após ter tomado posse na Academia Brasileira de Letras, e cumpriu uma previsão que ele próprio costumava fazer.

Quarenta anos após sua morte, cresce a cada momento, no Brasil e no exterior, o interesse por sua obra, com a multiplicação de estudos críticos, teses, reedições e adaptações teatrais ou cinematográficas de seus textos.

Para falar da importância de Guimarães Rosa, entrevistamos uma especialista em sua obra, Suzi Frankl Sperber, professora titular de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenadora do Lume — Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais, da mesma instituição, e autora dos livros Caos e Cosmos e Guimarães Rosa: Signo e Sentimento.


Problemas Brasileiros — É preciso que o leitor se prepare para ler e apreciar Guimarães Rosa?

Suzi Frankl Sperber — Sim, mas de um modo diferente do que geralmente se pensa: antes de mais nada, ele terá de se entregar à beleza do texto. Abandonar qualquer tentativa "intelectual" de compreensão ou preocupação inicial com neologismos, arcaísmos, ou ainda com os processos sintáticos pouco habituais do autor. Proceder à maneira de uma criança, digamos. Eu mesma fiz uma experiência com meus filhos ainda pequenos. Carlos tinha cinco anos e Lúcia três, quando li o conto "A Menina de Lá", de Primeiras Estórias. Eles entenderam a narrativa à sua maneira, conseguiram recontar a história. Outra coisa: é preciso ler em voz alta textos como os de Rosa, para poder compreendê-los.

Fala-se muito na oralidade aproveitada pelo autor, mas não se pratica a leitura em voz alta. Fiz também essa experiência. Eu havia convidado João das Neves, por intermédio de Luís Otávio Burnier, a encenar alguns contos de Primeiros Estórias com alunos de artes cênicas da Unicamp. O resultado foi ótimo, tanto o efeito da leitura em voz alta, como a encenação inesquecível de João das Neves.


PB — Podemos dizer sem hesitar que Guimarães Rosa é o nosso maior escritor?

Suzi — Esse tipo de afirmação é sempre perigoso, porque leva a equívocos. Para mim é, o maior escritor que tivemos no século 20— apesar da importância extraordinária de outros, como Graciliano Ramos, com sua prosa enxuta, Oswald de Andrade, com obra irregular, mas pioneira, Mário de Andrade e grandes poetas, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles. Quando a gente começa a recompor o elenco dos grandes, surge na memória Clarice Lispector... imensa, sim, imenso. E Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Hilda Hilst, cuja obra não conheço bem, mas que me atrai cada vez mais, porque ela aparentemente trabalha o erotismo, porém na realidade apresenta dimensões metafísicas, do sagrado.


PB — O que é mais extraordinário na obra de Rosa?

Suzi — Sua consciência ética. Os princípios que o guiaram em sua constante busca metafísica. Cada frase sua reveste-se de uma extraordinária sabedoria de vida, uma filosofia eclética, muito pessoal.

Veja: ele foi muito atacado pelo seu aparente "não-engajamento" político, tido como "alienado", "homem de direita" etc. em um tempo de cobranças ideológicas. Mas o que aparece em seus livros é um mundo de excluídos — jagunços, malandros, prostitutas, crianças, loucos, pobres coitados, bois, animais, o burrinho pedrês —, excluídos de outra natureza, não-urbanos, sertanejos, apresentados de um ponto de vista inteiramente diferente, por exemplo, dos personagens de Jorge Amado ou de outros escritores ditos "sociais". Ele os recria não como seres "limitados" — imagem fácil que os intelectuais têm do excluído —, mas como verdadeiros sábios, que não precisam que outros falem por eles, pelos "oprimidos". No caso de Rosa, os jagunços, ou os outros personagens, resolvem sozinhos suas coisas, têm discurso próprio... Até o burrinho pedrês sabe o que deve fazer, luta dentro do possível, sabe que no momento em que o ex cesso de correnteza o arrasta sua única alternativa é abandonar o corpo, deixar-se levar... É um burrinho sábio.

Fora o aspecto da linguagem, Rosa cria poesia o tempo todo. E há a astúcia usada por ele para criar a beleza dos personagens e do mundo, pela confluência entre elementos de razão, de paixão pelos e dos seres, por sua busca de transcendência permanente. Tudo isso dá ao conjunto de uma produção uma dimensão que dificilmente outras obras literárias conseguem ter.


PB — Como iniciou suo pesquisa?

Suzi — Bem, acho que precisei de coragem para empreender uma pesquisa sobre a espiritualidade, o caráter metafísico da literatura de Rosa, naquele momento histórico especial, 1968. Eu estava na contramão da história, naqueles tempos de AI-5, repressão, luta contra a ditadura, em que os intelectuais se propunham temas fundamentalmente políticos. Cheguei ao tema de um modo meio "maluco", digamos. Eu estava, naquele momento, extremamente abalada pelo diagnóstico que minha filha Lúcia, de um ano, tivera, de hidrocefalia — ela viveu 41 anos e faleceu há dois. Ao mesmo tempo tínhamos problemas financeiros. Então encontrei em uma viagem à França o professor Antonio Candido, que me disse: "Você precisa de urna bolsa da Fapesp". Para poder concorrer a essa bolsa, de doutorado, fui obrigada a fazer primeiro um mestrado muito rápido, e fiz, em nove meses, mas então Antonio Candido me pediu que, no prazo de urna semana, determinasse o tema do meu doutorado. Eu nem conseguia pensar, minha filha estava para ser internada, mas me lembrei de uma sugestão feita pelo professor José Aderaldo Castelo, "Deus e o diabo na obra de Guimarães Rosa". Só que eu estava confusa, pois o próprio Candido já estava orientando uma tese de Walnice Nogueira Galvão sobre isso. Assim mesmo, tive sua aprovação e consegui ser encaminhada à viúva de Guimarães Rosa, Aracy (ele havia falecido em novembro de 1967), para realizar uma pesquisa com o material que pudesse ser encontrado em sua biblioteca-espólio. A partir de então e até concluir minha tese de doutorado, passei períodos mais ou menos extensos alojada na própria casa da família de Rosa. De uma vez, foram até três semanas seguidas.


PB — Qual sua primeira impressão dessa biblioteca -espólio deixado por Rosa?

Suzi — Fiquei emocionadíssima de pisar em sua biblioteca, sentar-me em sua cadeira, pegar seus livros. Preciso esclarecer que Rosa não tinha apego aos livros, emprestava a todo mundo, e, além disso, com as muitas viagens deixara bibliotecas inteiras no exterior. Só valorizava os livros que anotara. Essa marginalia acabou sendo muito útil a mim, reorientando minhas pesquisas. Encontrei uma grande quantidade de obras filosóficas. Ele era um eclético por excelência, e como nunca foi professor de filosofia podia-se permitir ler de tudo, de Plotino e Platão a obras budistas, o Upanishad, obras do Círculo Esotérico, da Christian Science... Enfim, leituras espirituais de qualidade variada — até de terceira, ou quinta, categoria. O que pude descobrir logo foi que havia em Rosa uma permanente busca de Deus em si, na sua existência, unida a uma grande paixão pelos seres humanos.


PB — De que maneira essas leituras influenciaram sua obra?

Suzi — Rastreando suas leituras, pude perceber que a influência delas se fez notar muito mais na estruturação de suas obras, no estilo, do que na temática. Mas o contato com todo o material deixado pelo escritor me abriu uma possibilidade muito mais interessante: tive acesso também a seus primeiros rascunhos — ele trabalhava muito, durante anos seguidos, tanto seus contos como as obras mais longas — e pude compará-los com as versões definitivas. Fiz um demorado trabalho comparativo entre esses textos, achando que essa forma de análise textual seria mais adequada do que a aplicação de uma teoria como a estruturalista, por exemplo, que na época estava em voga. Enfim, terminei por fazer um estudo de "crítica genética" mesmo sem ter, na época, conhecimentos teóricos elaborados da prática científico-literária alemã chamada de Textkritik, que é usada para esse tipo de trabalho.


PB — Qual seria a linha geral do pensamento de Rosa?

Suzi — Encontramos em sua obra uma linha filosófica muito pessoal, eclética. Mas ele trabalha com algo que um filósofo recente, Gilles Deleuze, definiu como "a ética da liberdade e da alegria" — essas duas dimensões podem ser encontradas juntas, no mundo rosiano.

Para Deleuze, há três figuras perniciosas, na sociedade: o escravo, o sacerdote e o tirano. Seu pensamento é baseado, por sua vez, em dois filósofos, Spinoza e Nietzsche — neste, principalmente na Genealogia do Mal. O escravo (não no sentido literal, mas sim intelectual) é pernicioso porque é indiferente, não assume posições em relação aos outros e ao mundo, ao bem, ao desenvolvimento pessoal. O tirano, por razões óbvias, porque é soberbo, arrogante, oprime. E o sacerdote, porque procura imprimir no outro o sentimento de culpa. Deleuze chega assim a uma conclusão sobre uma ética que deve permanecer (não uma moral, uma ética), que é a da liberdade, a do ser que é receptivo para o mundo, não é indiferente, pensa, age e valoriza e não oprime. Busca o igualitarismo.


PB — Como esses princípios aparecem em sua obra?

Suzi — O tempo todo Rosa põe em movimento a reflexão contrária à ideologia dominante, ao que os intelectuais faziam — ele não faz a crítica da sociedade, mas tem uma visão própria do mundo, não concebe o pacto com o demônio (a escravidão) e não admite que sejam vistos como "marginais" tipos como o jagunço, prostitutas etc. Ele revê a idéia do mal — a violência, para ele, não é eterna, ela precisa ser combatida para a instauração da paz que permite aos seres humanos o pleno desenvolvimento. E um humanista, podemos dizer, um humanista do século 20 que entende o sujeito como ponto de confluência da razão e das emoções e, portanto, em perpétua mudança — um "ser em estado de transformação". Para ele, as coisas estão sempre em mudança e as pessoas não são terminadas. Como diz, no conto "Páramo", "cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até a hora da libertação pelo arcano, além do Letes, o rio sem memória".


PB — Qual o sentido da evolução estilística e espiritual do autor de Sagarana a Grande Sertão: Veredas?

Suzi — O primeiro sentido, ao mesmo tempo óbvio e fundamental, abrangido por sua pergunta, é que em certa medida ambas as evoluções me parecem estar imbricadas. Não encontrei livros do mestre e pensador Gurdjieff na biblioteca de Guimarães Rosa. Mas Vilém Flusser, seu amigo, filósofo que só fez realmente sucesso quando se mudou para a França e lá passou a publicar mais, afirmou-me, por volta de 1967-68, que Guimarães Rosa tivera grande influência de Georges Ivanovitch Gurdjieff, que viveu em Paris, durante 27 anos, morrendo em 1949. Lá ele havia criado um grupo de estudos e trabalho. Depois de sua morte, outros grupos gurdjieffianos foram se espalhando, gradativamente, por muitos países do mundo. Não sei se Rosa leu seus livros. Não é impossível. Ou teria participado de algum grupo de estudos e trabalho quando esteve em Paris? Rosa esteve lá em 1946 e depois de 1948 a 1950. Seja como for, Gurdjieff influenciou muitos artistas e sua obra prossegue inspiradora. Uma das frases do pensador nascido em Alexandropol [atual Gyumri] é "um homem pode continuar a ser um homem, ainda que trabalhe com máquinas. Há outro tipo de mecanização muitíssimo mais perigoso-ser ele próprio uma máquina". Guimarães Rosa cuidou de não cair em mecanizações, engessamentos, quer na vida espiritual, quer na linguagem. Seu estilo foi mudando de obra para obra. Num primeiro momento (Sezão — primeira versão de Sagarana), sua busca pelo "vocábulo ileso" já existe. Mas há certa ingenuidade, e ele ainda se empenha em apresentar a ficção enquanto retrato da realidade. Já em Sagarana Rosa moldava seus contos em uma estrutura que estava baseada em exercícios espirituais. Todas as narrativas desse livro seguem um padrão de parábolas, que é o ternário do medo e da força do destino, e que ele próprio chamava de "provocação-conflito-reação". Ele aproveitava a tendência para o mito das narrativas populares e criava seus personagens, moldados na realidade, e os fazia interagir nesse fundo constante. A partir de Sagarana, a coisa começa a mudar, dando-lhe uma liberdade criadora cada vez maior. A liberdade de criação lhe abre caminhos, praticamente em medida paralela ao crescente espaço espiritual que se constrói e amplia com a cotidiana prática de valorização do humano. Essa é a razão, também, que explica por que aqueles leitores que se abandonam ao fluxo discursivo rosiano não apenas têm o prazer da leitura, apreendem a beleza dos textos e se deleitam com ela, mas passam a descobrir que muitos trechos carregam filosofia, lições de vida, reflexões fundamentais.


PB —Pode falar um pouco mais de Grande-Sertão: Veredas?

Suzi — Grande-Sertão: Veredas é emoção e beleza extraordinária. Atualmente há muitas vertentes de estudos do grande romance, inclusive sobre seu contexto histórico e mesmo geográfico. Ele se presta a todo tipo de olhar crítico. O que há de contemporâneo (com o século 21) é a compreensão de que "este mundo é muito misturado...", de que "o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando". Esse ser provisório, em transformação, é a grande novidade na literatura brasileira — e talvez mundial. Ele não tem certezas: tem angústias, amores, paixões, culpa, saudade, incomensurável saudade, que atravessa a narrativa. Com recursos discursivos sutis (pontuação diferente; mudança de posição das palavras da ordem normal esperada da frase; uso de rimas, assonâncias; recurso à palavra não conhecida, ou pouco conhecida; pausas e mudanças de rumo da narrativa), Rosa consegue dar dimensões humanas, sensíveis, filosóficas, espirituais ao jagunço entendido e conhecido como tão-somente valentão, violento, agressivo. Serve até para pensarmos na representação do indivíduo e de sua ação violenta — questão do momento. Rosa evita o maniqueísmo de todos os modos, revelando uma mente e personagens que não podem ser vistos com o olhar do século 19, ou até mesmo 20. Não há preconceitos. Há luta pela justiça e pela paz. Diferentemente de tantas obras, Grande Sertão: Veredas tem a marca da positividade. Ele afirma a vida, os seres e seus valores. Não poderia ser de outro modo para quem mantém viva a esperança.

O "sertão" rosiano tem um sentido mais amplo: é o mundo, "somos nós", diz. Colocando tudo em dúvida, valendo-se concretamente de interrogações que apresenta ao interlocutor (mudo, que não lhe dá resposta alguma), Riobaldo desenvolve um discurso inigualável sobre os grandes temas da humanidade, metafísicos, mas também presentes em um cotidiano social muito concreto, particular. Seu mundo é o do "dominado", de vida traçada dentro das circunstâncias de pobreza, de violência, de discriminação social — mas nas quais será possível, ainda assim, e essa é a grande mensagem otimista do escritor, fazer escolhas, vencer o medo, desafiar "Deus e diabo". Atingindo o fim de seu grande questionamento, Riobaldo encontra sua paz interior, reorganiza o mundo, recupera sua identidade.


PB — E Diadorim?

Suzi — Ela é a neblina de Riobaldo. No início de minha reflexão, considerei que Diadorim, como as mulheres rosianas, só teria como espaço a esfera doméstica ou mundana — especificamente a prostituição. Pensei que Diadorim, na sua ambigüidade, queria ocupar os dois espaços enquanto guerreira, sendo também capaz de amor de abnegação. Afinal, é ela que impele Riobaldo para o bem — mas ela própria não consegue se libertar do seu destino edipiano. Pensei, então, que Diadorim se opunha às regras sociais do sertão e, portanto, fora tida como "abominável", só se realizando através da luta geradora de uma nova ordem, o que, entretanto, lhe custara a vida. Hoje entendo Diadorim também na acepção de bruma dos tupis-guaranis. Segundo Pierre Clastres, "a bruma com a qual poderia recobrir a terra é a mesma onde nascem, redentoras e guerreiras, as Belas Palavras". Diadorim é a inspiradora das belas palavras, porque inspiradora da poesia do mundo e da palavra.


PB — Qual o seu recado para o leitor que hesita em enfrentar os textos de Rosa?

Suzi — Ah, que o leitor não pense que é burrice sua, incompetência, sentir-se, no início da leitura, desconfortável diante da complexidade estilística e temática de Guimarães Rosa. Porque a complexidade constitui uma das astúcias desse autor. Só da "derrota" da inteligência racional e engessada do leitor pode acontecer um salto para a descoberta, para a "iluminação". Se o leitor se colocar diante de Grande Sertão com a paciência dos capiaus rosianos, aceitará as dificuldades, a relativa falta de entendimento do que lhe é dito, como elementos da narrativa que mais adiante serão transformados em conhecimento — o qual, por sua vez, o levará à sua própria transformação, à fruição plena do texto. E talvez a uma espécie de ascese espiritual.