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Quem quer dinheiro?

Publicado em 01 agosto 2001

Por Rodrigo Vieira da Cunha
Em julho, uma pesquisa da ONU chamou a atenção para um problema que ficava restrito ao meio acadêmico: a incapacidade das empresas brasileiras em aproveitar a produção de tecnologia da universidade. Por falta de inovação tecnológica, o Brasil amargou o 43o lugar em uma lista de 72 países. Mas esse quadro está mudando em São Paulo, com um programa da Fundação de Amparo Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A melhor notícia que há dinheiro de sobra na fundação - que recebe 1% da receita tributaria do Estado - para financiar projetos de inovação tecnológica dentro das empresas, grandes e pequenas. Para obter o financiamento a fundo perdido basta apresentar uma boa idéia, criar uma empresa, se no existir uma, e se inscrever. "Se houver inovação e o projeto for viável comercialmente, nós financiamos", afirma José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp. De 1996 para cá, a instituto já desembolsou 34 milhes de reais em dois programas de inovação tecnológica. O Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe), para at100 empregados, tem 162 projetos, 38 deles aprovados no ano passado. Já o programa Parceria para Inovação Tecnológica (Pite) tem 55 projetos. O maior mérito da Fapesp no a generosa quantia que está aplicando nesses projetos, mas o fato de funcionar como elo entre a pesquisa feita na universidade e a inovação tecnológica dentro das empresas. Nos Estados Unidos, 70% da inovação tecnológica vem do ambiente empresarial. No Brasil, as empresas respondem por cerca de 25% da pesquisa e desenvolvimento. A maior parte nasce na universidade. E morre ali. O programa da Fapesp está afinado com o propósito de fermentar o desenvolvimento de tecnologia no ambiente empresarial. Tanto que, em boa parte dos projetos aprovados, empresas foram criadas dentro da universidade. É o caso da Genosys Biotecnolgica, de São Paulo. Em 1996, o professor Hamza Eu-Dorri, do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP, clonou o gene codificador do hormônio do crescimento, o hGH, usado no tratamento de crianças com nanismo. Ele convidou o bioquímico Jaime Francisco Leyton Ritter para produzir o hormônio, hoje disponível no Brasil apenas mediante importado. "Penamos durante quase três anos em busca de um parceiro ou capitalista que financiasse a produção do hormônio", diz Ritter. "O financiamento do Pipe foi crucial." O EMPURRO QUE FALTAVA Antes da aprovação, entretanto, Ritter e o sócio tiveram de criar uma empresa. A Genosys entrou logo no primeiro edital, em 1997. No total, recebeu cerca de 260 000 reais para comprar equipamentos, desenvolver o produto final e fabricá-lo em escala industrial. No início de 2001, o hormônio dever estar disponível no mercado. Vai custar cerca de 30% menos que o similar importado. S com o medicamento, hoje o tratamento chega a consumir 15 000 dólares por ano no Brasil. Com base nessa cifra, Ritter e seu sócio querem atingir um faturamento anual de 10 milhes de reais em 2006. Outro exemplo interessante o do corretor ortográfico do processador de textos Word, da Microsoft. Toda vez que uma palavra fica sublinhada de vermelho na tela do seu computador ao escrever um texto, porque o software Revisor Ortográfico, criado pela Itautec, entrou em ao. Em março de 1998, a Microsoft pagou 421 000 dólares pelo direito de uso do revisor por três anos. "Eles fizeram uma busca no mercado e acharam que o nosso era o melhor produto", diz Elizabeth Costa, gerente-geral de desenvolvimento de software da Itautec. At1993, a Itautec s tinha o processador de textos, e decidiu procurar um centro de excelência para desenvolver o revisor de palavras. Encontrou o que precisava no Núcleo Interinstitucional de Lingüística Computacional, formado por pesquisadores de universidades paulistas. Três anos depois, em 1996, o projeto foi aprovado pelo Pite, o programa de parceria para inovação tecnológica. A Fapesp investiu 18 000 reais, além de 9 000 dólares para a compra de máquinas e equipamentos. Os programas da Fapesp vêm estimulando os empresários a procurar pesquisadores para desenvolver novas tecnologias, o caso da empresa de alimentos Fmaiis, que decidiu explorar um nicho incipiente no mercado brasileiro: congelamento de pães. Em 1998, o empresário Luiz Fabio França entrou em contato com a engenheira de alimentos Carmen Tadini, da Escola Politécnica da USP. Ele queria ajuda para desenvolver um processo de congelamento de pães de modo que a massa no ficasse ruim quando descongelada. "Uma das principais vantagens desse produto evitar o desperdício", diz a engenheira Tadini. A Fapesp financiou 81 000 reais e forneceu mais 43 000 dólares para a compra de máquinas. França pretende colocar o produto, comum na Europa, daqui a dois anos no mercado paulistano. "Nossa idéia abocanhar até 30% do mercado final de pães em São Paulo", diz França. "Vale a pena apostar na pesquisa. O resultado pode demorar, mas vem."