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Quem já teve Covid-19 pode ter de novo? Deve se vacinar?

Publicado em 06 junho 2021

Infecções por coronavírus podem gerar memória imunológica de longo prazo, mas infecções assintomáticas não criam resposta imune tão fortes, de modo que as reinfecções, que são raras, podem ocorrer

Nesta terça-feira, 1, Nise Yamaguchi depôs na CPI do Senado que investiga a atuação do governo federal durante a pandemia. Em determinado momento da sessão, a médica de 62 anos afirmou que não se vacinou pois já contraiu Covid-19 e porque tem uma doença autoimune. A afirmação suscitou dúvidas e discussões a respeito de quais grupos devem se vacinar. Para compreender como os imunizantes agem no corpo dessas pessoas, o ouviu cientistas da área e teve acesso a estudos que analisam as reações de milhares de voluntários à vacina.

A memória imunológica é a capacidade do organismo de reconhecer rápida e especificamente um agente estranho (ou antígeno) que o corpo já tenha encontrado previamente e iniciar uma resposta de defesa. Jean Pierre Schatzmann Peron, doutor em imunologia e pesquisador no Departamento de Imunologia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o mecanismo de defesa do organismo é baseado em dois grandes componentes: o componente celular (células de defesa) e o componente humoral (anticorpos, que são proteínas).

“Há pesquisas que mostram memória de ambos os componentes após a infecção pela Covid-19 uma primeira vez, gerando proteção ao longo prazo”, diz o cientista. “Todavia, as reinfecções, que são raras, podem ocorrer. Por isso, ”. Além disso, há estudos que sugerem que novas infecções pelo Sars-CoV-2 podem ser ainda mais graves do que as primeiras exposições ao vírus.

De acordo com a série de relatórios semanais de morbidade e mortalidade (MMWR) preparada pelo Centros de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC), o auge da imunidade adquirida pela infecção da doença acontece por volta de 90 dias após o fim do quadro de Covid-19. Uma análise dos dados do CDC foi publicada pelo Journal of the American Medical Association (Jama) em março deste ano e acompanhou mais de 3,2 milhões de pacientes que fizeram exames para detectar a doença.

Foto: Reprodução/CDC

De todo o universo amostral, o estudo acompanhou os 378 mil pacientes que testaram positivo para anticorpos contra o coronavírus. Os pesquisadores encontraram que, 30 dias depois, 11,3% deles testaram positivo novamente em exames diagnósticos para o vírus (PCR-RT). Posteriormente, dentro de 31 a 60 dias, 2,7% da amostra original tiveram um resultado positivo no teste. Cerca de 1,1% tiveram um resultado positivo no intervalo de 61 a 90 dias após o primeiro contágio. Por fim, apenas 0,3% tiveram resultado positivo em mais de 90 dias.

Esses resultados indicam que a redução do risco de reinfecção alcança seu auge por volta de 90 dias após o primeiro contágio. Doug Lowy, do Instituto Nacional do Câncer, coautor do estudo, escreveu sobre o assunto: “Há uma diminuição de dez vezes, o que é essencialmente uma redução de 90% no risco para pessoas com anticorpos positivos.”

Passado este período, entretanto, a fragilidade à novas infecções pelo Sars-CoV-2 começa novamente a aumentar. O fenômeno se justifica por dois motivos, diz Jean Pierre Schatzmann Peron. “Primeiro, o vírus durante seu ciclo pode eliminar células importantes da resposta imune, como as células T auxiliares foliculares (TFH). Além disso, a reinfecção com variantes é possível, pois a variante pode possuir antígenos que, por causa da mutação, são diferentes do vírus anterior.”

Thiago Moreno | Foto: Reprodução / Fiocruz

Dados recentes do CDC publicados em maio deste ano mostram que uma primeira exposição à Covid-19 em casos brandos ou assintomáticos pode não produzir resposta imunológica capaz de imunizar pacientes. Os autores do artigo Evidência genética e resposta imunológica do hospedeiro em pessoas reinfectadas com Sars-CoV-2 publicado na revista Emerging Infectious Disease (EID) indicam que a reinfecção pode ser mais frequente do que se espera.

Os pesquisadores coordenados por Thiago Moreno, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz), acompanharam semanalmente um grupo de voluntários por 9 meses. De 30 pessoas observadas, quatro contraíram a Covid-19 duas vezes. O genoma do Sars-CoV-2 que as afetou foi sequenciado para propósitos de comparação.

Em todos os quatro casos, a primeira infecção gerou sintomas brandos nos pacientes; mas, na segunda, gerou sintomas mais frequentes e mais fortes. “Essas pessoas só tiveram de fato a imunidade detectável depois da segunda infecção. Isso leva a crer que para uma parte da população que teve a doença de forma branda não basta uma exposição ao vírus, e sim mais de uma, para ter um grau de imunidade”, conta Moreno a Cristina Azevedo, da Agência Fiocruz de Notícias. “Isso permite que uma parcela da população que já foi exposta sustente uma nova epidemia”.

E uma terceira infecção poderia ocorrer? Thiago Moreno não acha impossível. “A gente não sabe quanto tempo dura a imunidade pós-Covid. Uma pessoa poderia ficar vulnerável a uma nova reinfecção ou mesmo a contrair uma variante diferente”, explica. O novo estudo pode dar margem a mais pesquisas, como por exemplo investigar se uma pessoa pode ter uma predisposição a contrair o Sars-CoV-2. “Mas, para isso, seria necessário um grande estudo, com uma grande parte da população, a fim de investigar uma base genética para essa predisposição entre as pessoas que não geraram uma resposta ao vírus”, conclui.

Artigo publicado no periódico europeu Eurosurveillance, analisou os efeitos da vacina Pfizer em 514 profissionais de saúde israelenses. Os autores descreveram a imunogenicidade da vacina (capacidade de provocar uma resposta imune) nos voluntários após a primeira dose. Os voluntários foram classificados por idade, sexo, etnia e infecção anterior.

A imunogenicidade foi semelhante por gênero e etnia, mas diminuiu com a idade. Entretanto, o achado realmente animador é que aqueles que já haviam sido infectados anteriormente apresentaram concentração de anticorpos muito maior do que os vacinados que nunca haviam sido expostos previamente ao Sars-CoV-2.

A explicação fornecida pelos autores é de que a vacina age como um booster, ou reforço, ajudando a reorganizar as defesas daqueles que já experimentaram uma infecção de Covid-19 previamente.

Segundo Karina Toledo, da Agência Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), há evidências de que os anticorpos gerados durante uma infecção pela cepa ancestral do coronavírus são capazes de neutralizar também a variante P.1, que emergiu em novembro de 2020 na cidade de Manaus (AM).

O Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP) realizou experimentos com plasma sanguíneo coletado entre maio e junho do ano passado de 60 voluntários infectados pela linhagem B.1.1.28 do SARS-CoV-2, a primeira identificada no país. Em 84% dos casos, os anticorpos presentes nas amostras coletadas após o 15o dia de infecção foram capazes de neutralizar a P.1 em culturas celulares.

Os dados completos do estudo foram divulgados na plataforma medRxiv e ainda estão em processo de revisão por pares. “Os resultados sugerem que os indivíduos infectados pela cepa ancestral do SARS-CoV-2 tendem a estar mais protegidos caso se deparem com a nova variante. Isso não elimina o risco de reinfecção, de doença sintomática ou mesmo de morte. De qualquer forma, traz uma mensagem de esperança num momento em que as coisas estão bem complicadas”, afirma Maria Cassia Mendes-Correa, professora da Faculdade de Medicina (FM-USP) e primeira autora do artigo.

Após ter o diagnóstico confirmado por teste de RT-PCR, os 60 voluntários com sintomas leves incluídos no estudo foram monitorados durante 42 dias e submetidos a coletas semanais de sangue para análise do perfil sorológico. Cada amostra de plasma passava por um ensaio de vírus-neutralização (VNT), procedimento que envolve o cultivo do SARS-CoV-2 in vitro e, por esse motivo, requer estrutura laboratorial com alto nível de biossegurança.

Diferentemente dos testes laboratoriais comuns, que detectam a presença dos anticorpos IgM (imunoglobulina M, o primeiro a ser produzido na fase aguda) e IgG (imunoglobulina G, que aparece no fim da fase aguda), a técnica VNT permite dosar no plasma a quantidade de anticorpos neutralizantes – capazes de se ligar à ponta da proteína spike, que é usada pelo SARS-CoV-2 para se conectar com o receptor da célula humana e viabilizar a infecção. Essa região da proteína é conhecida como RBD (sigla em inglês para domínio de ligação ao receptor).

A variante P.1 tem causado preocupação por apresentar mutações na proteína spike – algumas delas na região RBD. “O anticorpo neutralizante é uma das principais ferramentas antivirais do organismo. Sua produção ocorre gradativamente até alcançar uma quantidade suficiente para abortar a infecção. Na maioria dos pacientes, a curva sobe nas duas primeiras semanas e depois permanece estável”, conta a pesquisadora.

Nos testes feitos com a linhagem B.1.1.28, os anticorpos presentes no plasma coletado de 56 voluntários (90%) conseguiram neutralizar o vírus em cultura. Já no caso da P.1, amostras de 50 participantes (84%) foram bem-sucedidas no teste. Nos dois casos, somente após o 15o dia de infecção houve quantidade suficiente de anticorpos neutralizantes para combater o vírus, sendo que o desempenho frente à cepa ancestral foi superior em todos os momentos avaliados.

“Importante ressaltar que os testes foram feitos com plasma coletado em 2020 e, portanto, não é possível afirmar que hoje essas pessoas estariam igualmente protegidas. Os anticorpos neutralizantes, assim como os do tipo IgG e IgM, tendem a decair com tempo”, explica a pesquisadora. Para dirimir essa dúvida, o grupo do IMT-USP está repetindo os ensaios com amostras de plasma coletadas dos mesmos voluntários 180 dias após a infecção. Os resultados dessa segunda etapa da pesquisa devem ser divulgados em breve.

Além disso, os pesquisadores estão testando o plasma coletado em 2020 contra outras variantes de preocupação, como a B.1.1.7 (descoberta no Reino Unido) e a B.1.351 (da África do Sul).

Embora sejam uma das principais ferramentas do sistema imune para combater o vírus, os anticorpos neutralizantes não são a única, diz Mendes-Correa. “A imunidade celular, mediada por linfócitos [células capazes de reconhecer e destruir o patógeno], é outro mecanismo envolvido na defesa frente ao SARS-CoV-2 e também constitui importante ferramenta nesse processo. Acreditamos que a combinação desses dois mecanismos resulta na nossa capacidade de nos livrarmos de patógenos.”

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