Neste mês de maio é celebrado o centenário de nascimento do geógrafo brasileiro Milton Santos . Ele faleceu em 2001, aos 75 anos, mas suas ideias continuam sendo referências para análises socioeconômicas no Brasil e no mundo. As informações e entrevistas foram publicadas por Rafael Cardoso na Agência Brasil.
Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, e se tornou um dos principais nomes da geografia mundial . Concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.
Exilado durante a ditadura militar brasileira, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina, antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua produção intelectual. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP) e professor convidado na prestigiada Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne durante seu exílio na França.
Negro, enfrentou o racismo estrutural dentro da academia e construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade . Ele se tornou inspiração e referência para outros intelectuais negros, como a também geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, diz Catia.
A professora explica que a obra de Milton não trouxe como tema central a negritude, nem a dimensão política da relação entre classe social e raça. Porém, ele produziu uma teoria social crítica das desigualdades que ajuda a analisar as questões raciais . E nunca ignorou o tema quando era necessário se posicionar na vida pública.
“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual”, completa.
Milton Santos falou sobre isso em entrevista ao programa Roda Viva, em 1997: “Eu creio que é difícil ser negro e é difícil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, dão o que dão, não é? É difícil ser negro porque, fora das situações de evidência, o cotidiano é muito pesado para os negros. É difícil ser intelectual porque não faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra crítica”.
Além da teoria dos circuitos urbanos, o geógrafo trouxe ideias que aprofundaram a compreensão sobre as desigualdades. Para Milton Santos, o espaço nunca foi apenas o cenário onde a vida acontece, mas o resultado direto de decisões políticas e econômicas .
Isso significa que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades – como saneamento, transporte ou acesso à internet – não é acidental, mas fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios .
Ao olhar para uma periferia sem serviços básicos ou para uma área valorizada com alta concentração de investimentos, o geógrafo propõe enxergar ali não um acaso, mas a materialização de relações de poder.
No livro Por uma outra globalização, Milton Santos descreve um sistema vendido como promessa de integração e progresso, mas que, na prática, aprofunda desigualdades mundiais. Grandes obras de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, conectam países e mercados, mas também reorganizam territórios locais, pressionam comunidades e ampliam a concentração de riqueza.
Outro conceito bem conhecido do autor, o “meio técnico-científico-informacional”, descreve como tecnologia, ciência e infraestrutura passaram a moldar o território. Na prática, isso se traduz em regiões altamente conectadas, com redes digitais avançadas e logística eficiente, convivendo com áreas onde faltam serviços básicos. Enquanto alguns espaços são preparados para atender às exigências do mercado global, outros permanecem à margem desse processo.
Apesar dos diagnósticos críticos, Milton Santos também apontou caminhos de transformação. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que ampliam desigualdades podem ser apropriadas por populações locais para criar alternativas econômicas e sociais.
Iniciativas comunitárias, uso de tecnologia em periferias e formas cooperativas de organização mostram, segundo o geógrafo, que o território também pode ser espaço de resistência e reinvenção.
“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”, diz a geógrafa Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).
“Além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”, completa.
Seminário na Ufrgs
O Departamento de Geografia da Ubniversidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) realiza o seminário “Centenário do Geógrafo Milton Santos: Pensamento e Atualidade”, em celebração aos 100 anos de nascimento do intelectual brasileiro. A atividade integra uma série de eventos que vêm sendo promovidos em centros de pesquisa, publicações e espaços acadêmicos em todo o país. O seminário teve início no dia 4 de maio e segue com programação distribuída ao longo de cinco semanas com encontros presenciais.
Organizado pelo Núcleo Espaço, Território e Sociedade (NETS), do Departamento de Geografia, o evento propõe discutir a vida, a obra e a contribuição científica e social de Milton Santos para a Geografia e áreas correlatas. Ao longo dos encontros, docentes vinculados ao núcleo apresentarão diferentes aspectos do pensamento do autor. No encerramento, representantes de movimentos sociais participam de um debate sobre a atualidade de sua obra.