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Queimadas mudam chuva e cultivo em Goiás

Publicado em 24 agosto 2019

Focos de incêndio têm participação na alteração da precipitação e interferência na fotossíntese das plantas em Goiás

As queimadas na Amazônia, localizadas a quase 2 mil quilômetros de distância de Goiás, têm influências sobre a mudança na precipitação e na fotossíntese das plantas no Estado, de acordo com especialistas. O Brasil teve de 1º de janeiro até ontem, 76.720 alertas de incêndio – 85% a mais que o mesmo período de do ano passado. Destes, 40.341 ocorreram no maior bioma do País.

A Amazônia exerce um papel importante para as chuvas no País, fornecendo umidade para as correntes de ar – popularmente chamadas de “rios voadores” – que transportam o vapor d’água para outras regiões do Brasil, como a Centro-Oeste e a Sudeste, além de países vizinhos, Argentina e Paraguai. Pós-doutor pela Nasa Ames Research Center e pesquisador titular e professor da Pós-Graduação em Meteorologia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o goiano Saulo Ribeiro de Freitas explica que as árvores têm um importante papel no processo de retirar água do solo e lançar na atmosfera, mas ressalva que alterações na cobertura vegetal reduzem esta ocorrência (veja quadro). “Quando há desmatamento, esta capacidade de reciclar água é afetada. Fica menos água disponível e se torna uma região mais seca”, afirma o especialista.

Freitas acrescenta que com a queima, há a emissão de gases e fumaça na atmosfera. “Estes gases podem se combinar. Um exemplo que pode ocorrer é a formação de mais ozônio (O3), o que inibe a fotossíntese das plantas”, detalha o pesquisador.

Durante a estiagem, como o momento atual, a fuligem produzida pelas queimadas é transportada por correntes de ar semelhantes às que atuam no período de chuva. Este processo é tido como o responsável pelo anoitecer na tarde do último dia 19 na cidade de São Paulo. Freitas afirma que não é totalmente descartada a possibilidade de isto acontecer em Goiás, entretanto, as condições atuais indicam que a ocorrência do fenômeno é “pouco provável.” Na tarde de ontem, imagens de satélite disponíveis no site do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) demonstravam que as nuvens de poluição não estavam concentradas no Estado.

As chuvas em Goiás e em outras regiões do País não são formadas apenas pela quantidade de vapor d’água. As áreas também recebem influência de massas de ar vindas do oceano e frentes frias de acordo com o coordenador-geral do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), José Marengo. “Nós sabemos que a Amazônia contribui significativamente para este transporte de umidade no ar (para outras regiões do País)”, acrescenta Marengo.

O especialista explica que os modelos matemáticos utilizados nos estudos apontam que quando há significativa perda de mata, há consequências nas temperaturas e nas precipitações. “As temperaturas aumentam e o volume de chuva diminui”, explica.

Marengo chama a atenção para os possíveis efeitos negativos sobre o agronegócio. Ele afirma que Mato Grosso do Sul, Goiás e outros Estados recebem o fluxo de vapor d’água. “Isto ocorre particularmente nos meses de verão: novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e março. Depois disto, é a estação seca do ano. Este transporte diminui e quase desaparece, voltando a partir de outubro”. O fluxo originado na Amazônia coincide com o período de chuvas no Centro-Oeste.

Acordo

O especialista acrescenta ainda que no longo prazo as queimadas podem contribuir para o aquecimento global. “É extremamente importante manter a floresta, porque ela transporta umidade e absorve carbono, e por isto existem as medidas de mitigação (das mudanças climáticas) do Acordo de Paris para tentar reduzir o desmatamento o máximo possível. A floresta tira dióxido de carbono (CO2) da atmosfera”, pontua.

 

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