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Queimadas aumentam excesso de gás carbônico em até 1000% na Grande São Paulo (15 notícias)

Publicado em 07 de novembro de 2023

Por Joyce Tenório

Fumaça vinda da Amazônia, Pantanal e de queimadas da cana elevou em até 1178% o pico de excesso do poluente, que é um dos principais gases do efeito estufa

Queimada vista em meio a área de floresta próxima a Porto Velho, em Rondônia; eventos de poluição externa, como incêndios florestais, representam um desafio adicional para as cidades, em relação às ameaças à saúde pública associadas à qualidade do ar, e reforçaram a importância das redes de monitoramento de gases do efeito estufa - Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Um estudo de pesquisadores da USP e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) mostra como a fumaça das queimadas da floresta amazônica e no Pantanal, assim como a da queima da cana-de-açúcar, afeta diretamente a qualidade do ar na cidade de São Paulo. A pesquisa apurou que em dias com evento de fumaça, o pico de excesso de dióxido de carbono (CO2) foi de 100% a 1178% maior do que nos dias sem fumaça. O trabalho foi publicado em artigo da revista científica Science of the Total Environment.

A pesquisa faz parte do projeto Metroclima, criado em 2020 e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que conta com a participação de diferentes instituições do Brasil e do exterior cujos detalhes podem ser consultados neste site.

“O objetivo é a criação de uma rede de medida de gases de efeito estufa (GEE), como o CO2 e o metano (CH4), na cidade de São Paulo, para avaliação de suas fontes e variabilidade temporal. Há aproximadamente 10 anos se iniciaram as medidas de gases de efeito estufa em áreas urbanas, como exemplo em Los Angeles e Paris”, relata a professora Maria de Fátima Andrade, do IAG, coordenadora do projeto.

“Antes os dados de GEE estavam concentrados em locais remotos, mas com o tempo foi percebido que as cidades têm um papel central nas emissões e, conforme o tipo de superfície, no balanço do carbono. A meta é poder analisar a evolução das concentrações dos GEE e de suas fontes, inclusive as cidades”.

Os pesquisadores realizaram uma análise abrangente para esclarecer como as plumas de fumaça dos incêndios florestais do Pantanal e da Amazônia, bem como a fumaça das queimadas da safra de cana-de-açúcar no interior do Estado de São Paulo, são transportadas e injetadas na atmosfera da Região Metropolitana de São Paulo, onde pioram a qualidade do ar e aumentaram os níveis de gases de efeito estufa.

“Os pontos de observação estão situados no IAG, na Cidade Universitária, Pico do Jaraguá, Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), no Tatuapé, Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), em Pinheiros, e no Parque de Ciência e Tecnologia da USP (Cientec), na Água Funda”, aponta a professora do IAG. “Os detalhes dos equipamentos e das medidas podem ser vistos no site do Metroclima. As medidas são contínuas com alta resolução”.

Nos dias com eventos de fumaça na área metropolitana da cidade de São Paulo, as concentrações de material particulado fino excederam o padrão da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 99% das estações de monitoramento da qualidade do ar, e o pico de excesso de CO2 (dióxido de carbono) foi de 100% a 1178% maior do que nos dias sem evento de fumaça. Os cientistas demonstraram ainda que eventos de poluição externa, como incêndios florestais, representam um desafio adicional para as cidades, em relação às ameaças à saúde pública associadas à qualidade do ar, e reforçaram a importância das redes de monitoramento de gases do efeito estufa para rastrear emissões e fontes locais e remotas dos gases em áreas urbanas.

“Penalidade climática” Um aumento previsto na frequência, intensidade e duração das ondas de calor e um aumento associado de incêndios florestais em consequência das mudanças climáticas neste século provavelmente piorarão a qualidade do ar, prejudicando a saúde humana e os ecossistemas. A interação entre poluição e mudança climática imporá uma “penalidade climática” adicional para centenas de milhões de pessoas, de acordo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

“À medida que o globo esquenta, os incêndios florestais e a poluição do ar associada devem aumentar, mesmo em um cenário de baixas emissões”, alerta Petteri Taalas, secretário geral da OMM. “Além dos impactos na saúde humana, isso também afetará os ecossistemas à medida que os poluentes do ar se depositam da atmosfera na superfície da Terra”.

O projeto Metroclima tem a participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), Instituto de Química (IQ), Instituto de Física (IF), Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e Instituto de Geociências (IGc). Também há colaboração de cientistas da Universidade Técnica Federal do Paraná (UTFPr), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Unicamp. No exterior, contribuem com o projeto estudiosos da NASA Jet Propulsion Laboratory (JPL), National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) e Northestern University (Estados Unidos), Max Planck Institutes (Alemanha) e University of Surrey (Reino Unido). O artigo Impact of extreme wildfires from the Brazilian Forests and sugarcane burning on the air quality of the biggest megacity on South America pode ser lido neste link.

Mais informações: e-mail maria.andrade@iag.usp.br, com a professora Maria de Fátima Andrade

*Da assessoria de comunicação do Projeto Metroclima, com edição de Júlio Bernardes

**Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado