Notícia

Jornal da USP

Queimada Grande, perto do fim

Publicado em 16 novembro 2008

Um estudo sobre a primeira estimativa da população da jararaca-ilhôa (Bothrops insularis), espécie endêmica da Ilha da Queimada Grande — localizada a 33 km da costa do Estado de São Paulo, no litoral de Itanhaém — revela que essas serpentes estão ameaçadas de extinção. O trabalho, publicado na revista South American Journal of Herpetology de agosto de 2008, fornece uma referência para monitoramento futuro da tendência populacional da espécie.

Segundo Márcio Roberto Costa Martins, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências (IB) da USP, a pesquisa foi desenvolvida como parte de um trabalho de longo prazo sobre a espécie, iniciado em 1995, com aporte financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.

“Como utilizamos um método de fácil repetição — amostragens em parcelas de tamanho fixo e em locais conhecidos —, torna-se possível realizar o mesmo procedimento em épocas distintas para estimar se a população está aumentando, estável ou em declínio”, explica. “Essa abordagem era essencial para a conservação da jararaca-ilhôa porque ainda não havia na literatura científica qualquer estimativa do tamanho de sua população baseada em contagens, ou seja, não apenas baseada em impressões dos pesquisadores que visitaram a ilha.”

O pesquisador do IB, bem como seus alunos de graduação e pós-graduação, interagiram com pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan, órgão da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, durante mais de 12 anos de estudos sobre a jararaca-ilhôa. “Essa interação resultou na publicação de diversos trabalhos em conjunto e também contamos com a colaboração de dois pesquisadores estrangeiros nesse período: Harry W. Greene, da Universidade de Cornell, Ithaca, New York, EUA, e Göran Nilson, da Universidade de Göteborg, Suécia”, relata Márcio Martins.

Jardim do Édem  - O método para a estimativa do tamanho populacional, realizado em 2002, consistiu em amostrar 26 parcelas (quadrados de 10X10 metros delimitados pelos pesquisadores ao longo da ilha) e vasculhar o ambiente — no chão, em frestas entre rochas e nos galhos das árvores — à procura da jararaca-ilhôa. “Em várias ocasiões subíamos nas árvores para examinar as copas das árvores por cima, de forma a não deixar passar nenhuma serpente”, conta o especialista. “Na verdade, isso só era possível porque a floresta na Queimada Grande é baixa, raramente as copas das árvores atingem mais de 10 m de altura.”

Martins informa que no total, dentro das parcelas, foram encontradas 19 serpentes na primeira amostragem (no mês de janeiro) e 11 na segunda (entre os meses de abril e maio). “Mas é fácil encontrar até mais de 30 serpentes em apenas um dia na ilha, desde que se procure nos ambientes mais apropriados”, indica. “Na parte mais alta da ilha, por exemplo, onde a floresta é mais alta, é relativamente seguro o encontro de 10 a 20 serpentes em algumas horas de procura. Por esse motivo, chamamos essa região da ilha de ‘jardim do Édem’.”

“Cada vez que capturamos uma serpente, realizamos vários procedimentos para coleta de dados, como medir seu comprimento, coletar carrapatos, retirar amostra de sangue para estudos sobre doenças, obter pequenos pedaços de escamos ventrais para extração de DNA para estudos genéticos, contar o número de ovos em fêmeas por palpação e detectar alimento recém-ingerido no estômago também por palpação”, descreve. Além disso, os pesquisadores implantam um microchip (tranponder) em cada animal manuseado, para que possam identificá-lo em uma próxima vez que o capturem. “Isso permite o acompanhamento do crescimento do animal e de seus deslocamentos pela ilha.”

O acesso à ilha da Queimada Grande é relativamente difícil, pois no local não há um porto ou uma praia. “O desembarque é feito em um costão rochoso, o que torna essa operação muito perigosa quando o mar está agitado, o que freqüentemente impede nosso acesso à ilha”, afirma. Segundo Martins, quase metade das tentativas de ir à ilha fica frustrada em decorrência do mar agitado.

Com o estudo foi possível inferir que entre 10 e 12 anos atrás havia o dobro de serpentes na ilha. “E temos fortes evidências de que pelo menos parte dessa redução se deve à retirada ilegal de serpentes da ilha por traficantes de animais”, alerta o biólogo. “Além da remoção ilegal de serpentes, parte da flutuação pode ser resultante de causas naturais”, explica. “Por exemplo, uma diminuição no número de passarinhos migratórios, que são o principal alimento dos adultos da jararaca-ilhôa, causada por um evento natural como o El Niño, pode tornar esse recurso limitado”, explica. “Os adultos podem simplesmente morrer pela falta de alimento e as fêmeas deixam de se reproduzir por não ter como acumular reservas energéticas para a reprodução.”

Por ter sido isolada na ilha da Queimada Grande há pelo menos de 8 a 10 mil anos, a jararaca-ilhôa representa um modelo interessante para estudos evolutivos. “Além disso, sua alta abundância no local facilita a obtenção de uma grande quantidade de informações. Só para se ter uma idéia do quanto a jararaca-ilhôa é abundante, a taxa de encontro da jararaca comum (Bothrops jararaca) nas florestas da costa de São Paulo é 10 a 20 vezes mais baixa do que a taxa de encontro da jararaca-ilhôa na Ilha da Queimada Grande.”

A jararaca-ilhôa é considerada "Criticamente em Perigo" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) desde 1996 (www.redlist.org) e também pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), desde 2003 (www.mma.gov.br). No último mês de outubro, foi incluída como “Criticamente em Perigo” também na lista das “Espécies da Fauna Silvestre Ameaçadas do Estado”, o que significa estar sob um risco extremamente alto de extinção na natureza. Nesse sentido, a falta de fiscalização tem como conseqüência a remoção ilegal das serpentes da ilha. “A transformação da Ilha da Queimada Grande em Parque Nacional ou Estadual resultaria em maior fiscalização e, portanto, inibiria o tráfico de serpentes”, defende o pesquisador.