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Quebra cabeça de problemas

Publicado em 04 fevereiro 2013

Por Marinella Castro

As desigualdades sociais, que funcionam como barreira para o desenvolvimento do conhecimento e da ciência, mas que também se materializam em desafios para a sustentabilidade do planeta, vão ocupar lugar central nos debates do Fórum Mundial de Ciência, que ocorre em novembro, no Rio de Janeiro. Cientistas de todo o mundo, entre eles estrelas premiadas com o Nobel - como o médico japonês Shinya Yamanaka, que descobriu que células-tronco adultas podiam ser reprogramadas e voltar a ter características semelhantes às embrionárias - vão tentar desvendar os caminhos para um mundo mais aberto ao crescimento da ciência e do conhecimento. Na tese dos cientistas, a redução das desigualdades é o grande passo para inovar.

Durante três dias, eles vão tentar montar um quebra-cabeças em que as peças são questões complexas, como a erradicação da pobreza e o uso adequado dos recursos naturais, equações ainda abertas no mundo, com soluções que desafiam os governos, e o pensamento, das ciências exatas às humanidades. Desde 1999, o Fórum Mundial vem debatendo questões relevantes para alavancar a ciência nos continentes.

Esta será a primeira vez que pesquisadores vão apontar soluções para os desafios do planeta fora de Budapeste, na Hungria. Desde que foi criado, o encontro ocorre na cidade europeia, e a vinda do debate para o Brasil é motivo de orgulho e responsabilidade. "O fórum sempre aborda diferentes temas de caráter global. Ao final teremos uma declaração bem objetiva com as diretrizes propostas durante o encontro no Brasil", diz Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciência (ABC) que, juntamente com a Academia de Ciências da Hungria npromove o fórum, que conta ainda com a participação de outras entidades internacionais e nacionais, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Para preparar a comunidade científica, sociedade civil organizada e a população para o Fórum Mundial de Ciência estão ocorrendo pré-conferências em todo o país. Em março é a vez de Recife (PE), e em maio a sessão será em Porto Alegre (RS). Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) a pré-conferência ocorreu no fim do ano passado. As conclusões de todos os encontros serão reunidas em um documento único levado ao fórum. Na conferência de Belo Horizonte os cientistas debateram os reflexos da crise financeira mundial em países europeus e nos Estados Unidos na produção científica. Marisa Cotta Mancini, pró-reitora adjunta de Pesquisa da UFMG, aponta outros temas que fizeram parte da pré-conferência em Minas, como a produção de alimentos nos trópicos e a preservação dos recursos hídricos, passando pelo desenvolvimento urbano sustentável, educação e aceso ao conhecimento até a ética na ciência.

A vinda do evento para o Brasil é um reconhecimento do trabalho desenvolvido pela América Latina e um bom sinal para a região, que tem o desafio de vencer problemas antigos. Resultados de investimentos feitos na pesquisa, o Brasil mostra como a ciência pode contribuir positivamente para o desenvolvimento das nações. O país se destaca em setores como a indústria aeronáutica, tecnologias para a exploração do petróleo, produção do etanol, e avanços importantes nas ciências agrárias, doenças tropicais, medicina e odontologia. "Nossa ciência é recente, mas temos polos de excelência em todo o país", observa a presidente da SBPC, Helena Nader.

Bom Desempenho

O Brasil atingiu sua meta de reduzir pela metade a pobreza até 2015. A população que vive em média com R$ 70 ao mês caiu de 25% em 1990 para 4,8% em 2008. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no ano passado o percentual da população brasileira vivendo na pobreza era de 3,4% dos cerca de 190 milhões de brasileiros. Mundialmente a meta também foi alcançada. Segundo relatório do Banco Mundial, houve uma redução absoluta e relativa da extrema pobreza no mundo. Em 1981, existiam quase dois bilhões de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 ao dia nos países em desenvolvimento, representando 52,2% da população. Em 2008, o percentual era de 22,4% da população dos países em desenvolvimento, e a estimativa é de que esse percentual caia para perto de 15% até 2015.

Na esteira da redução da pobreza, a SBPC considera que a produção científica brasileira também avançou nas últimas décadas, se destacando com excelência em áreas como doenças tropicais, odontologia, medicina e também nas ciências agrárias para produção de alimentos. Dados do Tratado de Cooperação em Patentes (PCT, na sigla em inglês), mostram que o Brasil se posiciona na 24ª posição no ranking de pedidos de patentes, atrás de outros Brics: a China (4º lugar), a Índia (17º lugar) e Rússia (21º lugar). Os Estados Unidos permanecem sendo o país que mais solicita patentes, seguido por Japão e Alemanha.

Este ano, como resultado do avanço da ciência e inovação, o país está no campo para colher mais uma safra recorde. No ano passado foram 162,1 milhões de toneladas e a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é de que em 2013 o percentual cresça 9,9%.

Consumo gera mais lixo

Ainda assim, o avanço nos índices de educação e qualidade de vida das populações não só do país, mas do mundo, continuam a ocorrer de forma desigual e desordenada. Os níveis de consumo também são distintos, ameaçando todo o globo. "Poucos ainda acreditam que a interferência do homem na sustentabilidade do planeta seja tangencial", observa Helena Nader. Prova disso é um relatório do Banco Mundial que indica que o lixo produzido pelas populações urbanas aumentará 70% até 2025 e os custos do tratamento dos resíduos sólidos urbanos deverão aumentar.

De acordo com o estudo, a quantidade de resíduos sólidos urbanos subirá do atual 1,3 milhão de toneladas por ano para 2,2 milhões de toneladas/ano, um aumento provocado sobretudo pelas cidades em rápido crescimento nos países em desenvolvimento. Os dados constam do relatório "Que desperdício: uma revisão global de gestão de resíduos sólidos", publicado ano passado. Os países desenvolvidos figuram entre os maiores produtores mundiais de lixo. A liderança é dos Estados Unidos. A concentração da pobreza provoca níveis desiguais de desenvolvimento econômico, trazendo um ciclo negativo de baixos investimentos na ciência e na educação. "Os indicadores da ciência também são desiguais, com grande concentração das tecnologias nos países ricos, conhecidos como Primeiro Mundo", observa Helena.

Para os cientistas, quando as desigualdades são vencidas a ciência tem mais chances de deslanchar. Por aqui, Helena cita como exemplo a grande parcela da população que ainda convive com a falta de saneamento básico. O fórum vai abordar desde questões elementares, como o abastecimento de água e esgoto para as populações, até discussões recentes, como o uso renovável das florestas. "É preciso que se crie uma condição especial de política pública para construir essas urbanizações, da mesma forma que se criaram condições especiais para a construção dos estádios que vão sediar os jogos da Copa do Mundo", acrescenta ela.

Jacob Palis reforça o caráter global dos temas do fórum, que vão focar a ciência como caminho para inovação e sustentabilidade. Para Helena Nader, a ciência deste século tem como característica o desenvolvido entrelaçado do conhecimento entre as humanidades, biológicas, exatas e as ciências tecnológicas, e por isso todas as áreas terão representantes no fórum.

O secretário-executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, Luiz Antonio Elias, defende que o programa Ciência sem Fronteiras - que busca a expansão e internacionalização do conhecimento oferecendo bolsas para brasileiros no exterior e para estrangeiros estudarem aqui - tem contribuído para a criação de laboratórios de ponta em todo o país, incluindo as regiões do Norte e Nordeste, desenvolvendo a ciência inclusiva, em uma espécie de círculo virtuoso. "Nas regiões de floresta a biodiversidade é um agente integrador, onde a floresta em pé contribui para a valoração da biodiversidade que traz o desenvolvimento."

Para este ano, segundo Elias, a pasta de Ciência e Tecnologia terá garantido um orçamento sem cortes de R$ 4,4 bilhões. Ele aponta que a articulação dos estados brasileiros também vem crescendo, com recursos para pesquisas. Em 2006, a verba dos estados que era de R$ 1,2 bilhão, saltou para R$ 2 bilhões este ano. Desse percentual, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) fica com aproximadamente R$ 900 milhões e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) com cerca de R$ 350 milhões.

Fórum mundial de ciência

Abertura: 24 de novembro

Conferências: de 25 a 27 de novembro Local: Rio de Janeiro - Brasil

Confira a programação:

24 de novembro

Cerimônia de abertura

Entrega do Prêmio Unesco

Sessões plenárias

25 de novembro

Iniquidades como barreiras para o desenvolvimento global sustentável

Política para ciência e governança - Inventando o futuro Integridade na ciência

26 de novembro

Ciência para recursos naturais

Ciência e educação em engenharias

O papel fundamental da ciência na inovação

27 de novembro

Cerimônia de encerramento

(Jornal Estado de Minas)