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Revista Casa Vogue

Que país é esse?

Publicado em 01 março 2018

Se desde os séculos 18 e 19 o Brasil ostenta a fama de local exuberante -graças à ajuda de naturalistas como Carl Friedrich Philipp von Martius, Henry Walter Bates e Alfred Russel Wallace, entre outros que vieram até aqui para estudar a fauna e flora da Amazônia-, a imagem do país gigante pela própria natureza ficou só no imaginário coletivo.

A realidade sobre nossa maior floresta revela outra história: os cientistas recebem pouco incentivo para a pesquisa e a área em que toda a vegetação foi eliminada correspondia, até outubro de 2017, a 6.624 km2 (o equivalente a mais de quatro cidades de São Paulo), de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. Como reverter este processo? O primeiro passo é entender o rico ecossistema amazônico._Depois, é necessário conscientizar a população e, por fim, nos prepararmos para o futuro. Uma equipe apaixonante e apaixonada de biólogos e artistas está trabalhando arduamente para isso - é o que se verá na exposição Amazônia.

Os Novos Viajantes, no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE), com curadoria de Cauê Alves e da bióloga Lúcia Lohmann. Líder de uma pesquisa sobre a origem da Amazônia apoiada por Fapesp, National Science Foundation dos EUA e NASA, Lúcia levou artistas para as suas expedições, a fim de que eles criassem obras com base em suas percepções. "Sempre tive vontade de divulgar os resultados. O público precisa aprender sobre a importância do bioma para querer preservá-lo, e a arte ajuda a tocar as pessoas", explica.

''A mostra será dividida em três módulos que se conectam: no científico, o visitante vai saber mais detalhes sobre o estudo botânico e zoológico que a Lúcia cruza com informações geológicas; no histórico, serão apresentados os registros dos naturalistas que passaram pela Amazônia nos séculos anteriores; e no de arte contemporânea, serão exibidos trabalhos de Claudia Andujar, Cildo Meireles, Melanie Smith, Margaret Mee, entre outros. É um jeito de aproximar a sociedade da questão de uma forma múltipla", esclarece Cauê. Entre as obras, vale destacar a instalação de Fernando Limberger, composta por um piso de areia vermelha, tocos queimados e sementes das quais nascerão plantas. A vontade é falar sobre as queimadas criminosas induzidas para criar pastos.

A escultura de cupinzeiros de Simone Fontana Reis, por sua vez, é uma homenagem a Brancusi e um recado para aqueles que destroem a floresta. "O primeiro sinal de que um solo desmatado está começando a se recuperar é a presença de cupinzeiros. Quero questionar as necessidades humanas e suas consequências", declara a autora. Não deixe de conferir, ainda, a estufa das plantas artificiais de Alberto Baraya, que problematiza a nossa própria ideia de natureza e conceitos de paisagismo e reflorestamento -um perfeito contraponto para os documentos de von Martius e as pesquisas científicas.

O objetivo do projeto de Lúcia é compreender como a Amazônia se formou ao longo desses 20 milhões de anos. "Esses organismos já passaram por uma série de mudanças globaisclimáticas, químicas e geológicas- e, a partir do momento em que entendermos esses processos, poderemos nos preparar para o futuro", explica. Ela garante que as novas tecnologias têm ajudado nas pesquisas. Mas é impossível não fazer a pergunta derradeira com um pouco de medo da resposta: ainda é possível salvar a Amazônia? "Sim, mas estamos correndo contra o tempo e cada um de nós precisa fazer a sua parte".