Notícia

Jornal de Piracicaba

Quatro histórias de mulheres que fazem ciência em Piracicaba

Publicado em 07 março 2021

Por Ana Carolina Leal

Levantamento do CNPq revela que 59% das bolsas de iniciação científica são de pesquisadoras

As mulheres são hoje cerca de 54% dos estudantes de doutorado no Brasil. Esse número é semelhante aos dos países desenvolvidos, como os Estados Unidos, onde em 2017 as mulheres conseguiram 53% dos diplomas de doutorados concedidos no país.

Um estudo recente, no entanto, revelou que apesar de serem a maioria das pessoas com doutorados em diversas áreas, as mulheres brasileiras não estão tão bem representadas nos níveis mais altos da carreira.

Dados do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) revelam que 59% das bolsas de iniciação científica são de pesquisadoras, mas, nas de produtividade- que são as mais prestigiadas e com financiamento maior-, a parcela feminina cai para 35,5%. Dentro desse grupo existem ainda as bolsas concedidas a pesquisadores sênior e apenas 24,6% delas são para cientistas do gênero feminino.

O Jornal de Piracicaba conversou com algumas dessas mulheres, que conquistaram seu espaço nesseU ambiente competitivo e ainda machistas. Hoje, essas profissionais fazem ciência na Esalq/ USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e na FOP/Unicamp (Faculdade de Odontologia de Piracicaba).

Pesquisadora e professora da FOP, a cirurgiã dentista Brenda Paula Figueiredo de Almeida Gomes é uma das principais referências no país no estudo de microbiologia dos canais radiculares.

“ Investigo quais microrganismos estão presentes nos canais, o que eles estão causando para o paciente, como, por exemplo, os quadros de dor, dor a palpação, dor a percussão, edema (inchaço), exsudato purulento (pus), entre outros aspectos clínicos ”, explicou. A pesquisadora acrescentou ainda que os estudos também avaliam a eficácia do tratamento para redução da população bacteriana e de seus fatores, consequentemente melhorando a qualidade de vida do paciente.

“ As pesquisas que realizo ao longo dos anos, apesar de ser no mesmo tema, estão sempre evoluindo, pois temos novos métodos de detecção e identificação de microrganismos e novas técnicas de tratamento ”.

Atualmente, Brenda tem em andamento um projeto temático da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), um de produtividade em pesquisa do CNPq, quatro iniciações científicas, três mestrados, 11 doutorados e um pós-doutorado. Todos voltados à microbiologia dos canais radiculares, mas de diferentes condições clínicas.

PESQUISA

O Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq está prestes a concluir um projeto sobre aproveitamento de talos de shitake. “ A partir de um material que seria descartado pelos produtores do cogumelo, depois de todo trabalho de otimização para encontrar uma condição de processo simples, porém eficiente, obtivemos um ingrediente rico e sabor umami (um pó, encapsulado), que pode diminuir ou mesmo substituir o uso de sal em alimentos ”, explicou a docente e pesquisadora Thaís Vieira.

De acordo com ela, o pó foi testado em snacks extrusados de milho (uma espécie de salgadinho) e será testado ainda em outros alimentos. “ Outro projeto em andamento, na mesma linha de estabelecer uma via ambientalmente amigável de processo, que possa ser adotada sem problemas por produtores, é obter compostos bioativos a partir de resíduos de abacate ”, afirmou.

Esses projetos, segundo Thaís, são desenvolvidos pela equipe de pesquisadores e alunos de graduação da Esalq, em parceria com instituições do Brasil e do exterior. Atualmente, ela coordena um convênio entre a Esalq e Oniris Nantes Atlantique (França), outros setes convênios de cooperação internacional e projetos que garantem recursos financeiros para pesquisa e mobilidade de alunos e professores.

“ Assim, trabalhando em rede, podemos oferecer aos alunos a possibilidade de realizar intercâmbios ”, disse.

TRABALHO X FAMÍLIA

Assim que se formou em Administração de Empresas, com mestrado e doutorado na mesma área, Heliani Berlato entrou na Esalq/USP. “ Minha tese de doutorado foi sobre a relação trabalho e família e a questão da dual career (carreira da família). Quando comecei a estudar, vi a questão dos papéis sociais e identificou-se muito a questão da mulher nessa relação do casamento, no desenvolvimento da sua carreira. Comecei a caminhar para esses assuntos que envolviam mais a diversidade ”, explicou.

Professora do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq e coordenadora do Gecop (Grupo de Extensão em Carreira, Organização e Pessoas), Heliani se dedica aos estudos da relação trabalho e família para pessoas que vivem um relacionamento, bem como casais heterossexuais e homossexuais, para entender essa perspectiva em configurações de papéis diferentes.

“ Minhas pesquisas, hoje, são muito fruto do que vivo, mesmo com alta escolaridade, ocupando um espaço que é privilegiado perto de outros empregos, vejo que ainda não temos a voz que deveríamos ter ”.

UM OLHAR PARA SAÚDE

Se depender dos esforços e pesquisas realizadas pela fisioterapeuta Marlene Aparecida Moreno, diretora de Pós-Graduação e Pesquisa da Unimep, pacientes com doenças cardiovasculares ou com fatores de risco, como diabetes e saúde hipertensão, terão nos exercícios físicos realizados em ambiente aquático um grande aliado para melhorar os problemas de saúde.

“ Este projeto teve por objetivo avaliar os efeitos de exercícios em piscinas sobre a composição corporal, condição física e cardiovascular desses pacientes. E os resultados mostram melhora significativa após o período de treinamento ”.

Outro projeto já finalizado, que também demonstrou ótimos resultados, de acordo com a pesquisadora, envolveu jogadores de basquete em cadeira de rodas. “ Os atletas realizaram um treinamento respiratório específico e apresentaram melhora da função respiratória e também do desempenho físico ”.

A Unimep, sob a coordenação da professora, desenvolve atualmente um projeto de pesquisa voltado aos pacientes pós-infecção por Covid-19. “ O objetivo é aplicar exercícios físicos e respiratórios para a reabilitação dessas pessoas. O acompanhamento desses pacientes é importante, uma vez que a Covid, além do grave comprometimento do sistema respiratório, também promove debilidade física ”, concluiu Marlene.