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“Quando um avião cai não há uma só razão. São vários fatores. O sucesso é algo similar”

Publicado em 25 novembro 2019

Por Felipe Mendes

10 perguntas para Cesar Rengifo, vice-presidente da GSK para América Latina e Caribe

Há mais de duas décadas na multinacional farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK), o colombiano Cesar Rengifo é a personificação do sucesso da empresa no mercado brasileiro nos últimos anos. Sob sua gestão, a operação da GSK mais que dobrou de tamanho no País, com índice de evolução de 123%. Hoje, Rengifo é vice-presidente sênior da GSK para América Latina e Caribe. Uma de suas funções é mostrar para a matriz britânica que a região tem futuro. “O Brasil é uma das nossas operações mais importantes, mas meu comprometimento é com toda a região. E eu acredito que toda essa movimentação política da América Latina irá se ajustar”, diz Rengifo. Neste ano, a GSK investiu mais de US$ 30 milhões em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Para o futuro, a farmacêutica irá reforçar sua posição no mercado de oncologia para continuar crescendo. “Concentraremos nossos esforços em medicamentos para diferentes indicações e que representarão um grande avanço em inovação para pacientes e para o sistema de saúde brasileiro.”

Qual foi o segredo da expansão dos negócios da GSK enquanto o senhor esteve à frente da farmacêutica no Brasil?

Nós medimos muito a receita, mas os funcionários são uma parte importante disso. As companhias farmacêuticas têm vários jeitos de crescer. Vou falar de liderança e de estratégia corporativa. Em termos de liderança, para mim, é importante que o funcionário sinta confiança. Essa é a nossa fórmula para o sucesso. As pessoas tentam definir o sucesso em uma frase, mas o sucesso é como o fracasso. Quando um avião cai não há só uma razão. São vários pequenos fatores. O sucesso é algo similar. Por isso, eu acredito que é importante pensar mais em criar uma cultura de confiança internamente, em vários níveis da corporação. As pessoas que estão abaixo precisam acreditar naquilo que o líder está passando para elas. É importante também não mudar o discurso em momentos difíceis. É preciso valorizar as pessoas para que você tenha um time engajado. Uma mostra do nosso engajamento é que 85% dos nossos empregados falam que gostam de trabalhar na GSK. No Brasil, esses números são ainda mais altos. Além disso, nós investimos muito em inovação. Nós fazemos transferência de tecnologia desde tempos em que ninguém falava disso. Fazemos transferências com instituições renomadas como Fapesp, o Instituto Butantan, Biominas e a Fiocruz. Esses são alguns fatores que nos fazem ser referência do mercado.

Hoje, quais são as principais operações da GSK na América Latina?

Na América Latina, a metade do faturamento da operação vem do Brasil. É um país que possui uma força interessante. Nós temos um crescimento diferenciado por aqui. Para se ter noção, nós crescemos mais no País que outras multinacionais e mais que as farmacêuticas nacionais. Quando eu assumi a operação no Brasil, a empresa não tinha uma imagem muito boa. Nos sete anos em que estive à frente da operação nacional, eu consegui triplicar os nossos ganhos. A mesma coisa está acontecendo na América Latina. Hoje, nós crescemos muito bem versus o mercado. O Brasil cresce no mesmo patamar de crescimento da nossa operação na China. Em termos macroeconômicos, tenho a certeza que o Brasil, hoje, é o país que tem a melhor posição da America Latina em termos de economia e crescimento. Temos uma equipe muito forte aqui. O País está crescendo em todas as áreas de atuação. Eu tenho muita confiança porque sei que o governo e a sociedade têm clareza que os investimentos na saúde têm que acontecer. E eu não vejo nenhum risco de que existam cortes na área da saúde. Nós estamos crescendo em todas as áreas.

Mas o Brasil se mantém em uma posição de liderança muito por demérito dos outros países da região, que estão passando por crise, não?

Sim. Mas é preciso não olhar para a posição de líder da região como uma posição frágil. Eu acredito no futuro da America Latina e do Brasil, que é um país que tem uma movimentação política muito forte, mas em termos econômicos as coisas estão se arrumando. Como uma das lideranças da região, tenho comprometimento de mostrar a nossa importância para a corporação, para que os investimentos continuem acontecendo.

O que a empresa tem a ganhar com a entrada da Pfizer?

Como eu cuido da parte farmacêutica da empresa, não posso falar aprofundadamente sobre o braço de consumo. Mas, em linhas gerais, a estratégia global da companhia é que a divisão de consumo se torne uma corporação totalmente independente em três anos. Com essa joint venture, nos tornamos a maior empresa farmacêutica na linha de consumo. E isso deixa ainda mais clara a nossa necessidade de inovação na divisão farmacêutica também. Vamos continuar gerando inovação em ciência, com o desenvolvimento de soluções para oncologia e imunologia.

É por conta da união com a Pfizer que a GSK está se desfazendo de sua operação de dermocosméticos no País?

A estratégia da corporação é unir toda a parte de consumo com o braço da Pfizer. Nessa união, nós viramos a companhia número 1 do mundo em termos de consumo. E como viramos uma companhia tão grande, é normal que algumas áreas que não sejam mais o foco, como a parte de dermocosméticos da operação brasileira. É por isso que a corporação optou por fazer esse desinvestimento.

Segundo um estudo divulgado recentemente pela ONG Avaaz, sete em cada dez brasileiros acreditam em informações falsas sobre vacinação. Podemos dizer que há uma epidemia mundial de ‘fake news’ sobre a necessidade de proteção contra doenças. Como vocês monitoram isso?

A nossa preocupação é muito grande. Como algumas doenças, praticamente, desapareceram nos últimos anos, algumas pessoas começaram a acreditar em teorias conspiratórias sobre a indústria farmacêutica. Mas, hoje, com essa migração de povos, que existe na própria América Latina – casos de venezuelanos e haitianos que buscaram abrigo em outros países –, temos visto doenças ressurgirem. Isso é um problema grave. Nunca se foi comprovado que vacina gera doenças, como essas teorias defendem.

Como a GSK reage a surtos de doenças pelo mundo? É uma luta contra o tempo para desenvolver medicações para combater o vírus antes que ele se espalhe, certo?

Para H1N1 [também conhecida como gripe suína], nós desenvolvemos algum tipo de preparação. Mas, o tempo é uma dificuldade que nós temos em relação a doenças novas, que estão surgindo, porque temos que desenvolver a vacina rapidamente e, muitas das vezes, quando essa medicação fica pronta, é provável que o surto da doença já tenha sido controlado naturalmente. É uma dificuldade não só da GSK, mas que o mundo todo tem de conseguir gerar a vacina e a produção dessa vacina em períodos de surtos. Nós tentamos fazer acordos com todos os governos, mas é impossível prevenir todos os surtos. O Ebola é um exemplo. Nós tentamos fazer uma vacina. Avançamos bastante nisso. Quando conseguimos, o vírus desapareceu. Agora, a doença voltou novamente. Desenvolvemos uma vacina também para rotavírus, que tem evitado uma quantidade enorme de mortes. Hoje, nós já conseguimos quantificar isso.

Na América Latina, as pessoas têm uma maior conscientização da importância de se vacinar em relação a outras regiões?

Acho que no Brasil os meios e a população veem que as vacinas são benéficas, tanto que a população exige que elas estejam disponíveis no sistema público de saúde. Na América Latina é semelhante. Toda a região tem uma disposição muito boa para as vacinas. Os movimentos contra as vacinas são, principalmente, em lugares que já deixaram de ver essas doenças mais graves na população. Mas, quando as pessoas deixam de proteger os filhos por meio das vacinações, essas doenças acabam ressurgindo.

A empresa tem feito investimentos em inovação na região?

Aqui no Brasil, nós vimos que estamos em um desempenho comercial forte, mas que os processos de backoffice não conseguiam acompanhar. E nós temos os códigos comerciais muito regulados. Por isso, definimos dez processos chave que não estávamos acompanhando e fizemos um edital para startups que hoje trabalham nesses processos para trazer soluções. Recebemos o interesse de várias startups e selecionamos algumas. Elas estão trazendo soluções. São startups que atuam em áreas de processos de faturação, de gerenciamento de força de vendas, entre outras. Isso é algo que temos feito no Brasil, mas que deve ser replicado para outras regiões.

O futuro da empresa passa pelos investimentos em oncologia?

Compramos uma companhia de oncologia e estamos fazendo algumas investigações. Hoje, nós desenvolvemos um produto para o câncer de mama que é muito raro. O nosso objetivo é que ele vire a primeira opção do mercado. Esse produto já está sendo comercializado em outros países e deve ser submetido para registro no Brasil e em outros países da América Latina, como Argentina, Colômbia e México. Esse é o produto que está mais próximo de ser lançado, mas temos outras inovações que são fantásticas. Por exemplo, uma inovação no combate ao HIV. Agora, as pessoas só vão precisar de uma injeção em cada mês, em vez de ter de tomar vários medicamentos todo dia. É algo bem interessante. Temos uma linha voltada à prevenção da doença e outra para tratamento.

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