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Quando o parâmetro é a qualidade

Publicado em 07 janeiro 2002

Artigo de Carlos Henrique de Brito Cruz: "É preciso que Universidades públicas retomem seu papel formulador e deixem de ser federações de escolas". O autor é presidente da Fundação de Amparo a Pesquisa de SP (Fapesp) e diretor do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp. Artigo publicado na "Folha de SP": Os resultados do Exame Nacional de Cursos, o provão, ao medirem a qualidade dos cursos de graduação, também atestam a qualidade da universidade pública brasileira. No diagnóstico que o provão faz, fica patente o empenho das instituições públicas, onde um corpo docente cada vez mais qualificado, apesar das dificuldades estruturais que enfrenta, produz resultados qualitativamente melhores. A maioria dos cursos que obtiveram bons resultados se concentra em instituições públicas. Na pós-graduação, a avaliação feita pela Capes evidencia o mesmo resultado: instituições públicas em primeiro lugar. A greve de mais de cem dias nas universidades federais destacou alguns desses obstáculos estruturais, em particular a questão salarial, que pede ação imediata do Ministério da Educação e das administrações universitárias para tornar viável uma verdadeira autonomia. Quando o parâmetro é qualidade, não há termo de comparação entre as universidades públicas e as privadas. Nenhum país do mundo desenvolvido jamais baseou sua educação superior em instituições privadas com fins lucrativos. Nos EUA, menos de 1% dos estudantes matriculados no ensino superior frequenta instituições desse tipo. Em todo o mundo desenvolvido, o papel do Estado (e do financiamento público) é reconhecido como essencial e insubstituível para o ensino superior. Num mundo em que a informação cada vez tem menos valor, por ser cada vez mais acessível, cresce o valor de uma formação completa, multidisciplinar e abrangente. Não há chance de desenvolvimento econômico ou social para o Brasil se não tivermos instituições de ensino superior capazes de propiciar educação superior dentro de referenciais de excelência internacionais. Espera-se que uma boa universidade forme cidadãos, além de bons profissionais. Qualidade essencial de seus graduados deve ser a flexibilidade intelectual que lhes permita aprender continuamente coisas novas durante sua vida profissional. A obsolescência rápida de tecnologias e a sua vertiginosa sucessão em processos industriais em constante transformação, ao lado das constantes alterações de paradigmas filosóficos, científicos e artísticos, obrigam a universidade -formadora de recursos humanos de excelência- a comprometer-se radicalmente em garantir que seus estudantes aprendam a aprender. Num mundo em que a velocidade das transformações sociais e tecnológicas é quase alucinante, aprender a aprender é requisito insubstituível do cidadão, que precisa ler - e ler bem - livros, revistas e jornais, inclusive como requisito para a utilização crítica de outros meios de informação e educação. Henry Rosovsky, decano de Harvard de 1973 a 1984, em seu bem-humorado e atualíssimo "A Universidade. Um Manual do Proprietário", destaca, entre os elementos essenciais da educação completa em nossos dias, a habilidade de pensar e escrever com clareza e eficiência, ao propor que "estudantes, ao receberem seus diplomas de bacharelado, devem ser capazes de comunicarem-se com rigor e força persuasória". Efetivamente, no currículo da Harvard, destaca-se a obrigatoriedade de uma disciplina destinada a "desenvolver nos estudantes capacidade de redigir em prosa". Da mesma maneira, tanto na Universidade da Califórnia, em Berkeley, como no MIT (Massachusetts Institute of Technology), todos os graduandos devem cursar disciplinas para desenvolver habilidades de redação. Para além da leitura e da redação, as boas universidades internacionais, preocupando-se em formar pessoas que aprendam a aprender, incluem no currículo mínimo de todos os seus estudantes, além das disciplinas de especialização profissional, disciplinas que cobrem áreas fundamentais do conhecimento humano. Elas incluem, ao lado das ciências, literatura e artes, história, estudos sociais, filosofia e ética. O objetivo dessa formação básica que não se restringe a uma área do conhecimento é a formação de profissionais abertos às contribuições que diferentes campos de saber trazem. A preocupação com uma educação completa expressa a crença (corretíssima) de que, numa época marcada pela violência -como a representada pelos atentados de 11 de setembro-, por intolerância religiosa, por clones e pelas imagens da exploração de Marte, o engenheiro, o químico e o físico precisam conhecer história, filosofia e sociologia para entender o mundo. A contraparte óbvia (e igualmente correta) é a de que o antropólogo, o linguista e o sociólogo precisam conhecer os fundamentos mínimos da ciência e da tecnologia para acompanhar os eventos que estão mudando a humanidade. É preciso que nossas universidades, especialmente as públicas, nas quais a qualidade é um valor fundamental, retomem seu papel formulador e voltem a ser universidades, em vez de federações de escolas profissionais. Sem priorizar a formação de cidadãos leitores e educados nas áreas fundamentais do conhecimento, não há como formar indivíduos criadores de saber. Defender a universidade pública é defender uma política para o ensino superior em que a qualidade da formação do aluno não se traduza apenas na competência específica de uma dada profissão, mas desenvolva, com destaque, a capacidade e o interesse em aprender de tudo e sempre. (Folha de SP, 7/1) JC E-Mail 1947