Notícia

Planeta

Quando o cérebro é excessivamente masculino

Publicado em 01 agosto 2005

Por Fabiola Musarra

Autismo

A doença atinge principalmente os homens, não poupando nem mesmo os grandes gênios da humanidade — muitos deles apresentam traços de autismo. Mas por que isso acontece? Qual a importância dos genes? Qual a eficácia dos tratamentos? Pesquisas recém-divulgadas respondem algumas dessas questões.
Lançado em 1988, o filme Rain Man arrebatou praticamente todos os prêmios daquele ano Ganhou quatro Oscar  (melhor filme, diretor, ator e roteiro original), dois Globos de Ouro (filme e ator) e o Urso de Ouro no Festival de Berlim, entre outros. Não era para me nos. Mais do que contar a história de um jovem yuppie (Tom Cruise) que seqüestra o irmão autista de um asilo (Dustin Hoffinan) para levá-lo para Los Angeles, onde pretende fazê-lo abrir mão da herança paterna, o filme levou às telas do cinema um drama real vivido por algumas pessoas, mas até então pouco conhecido pela maioria: o autismo. Passados quase 20 anos desde então, a síndrome não é mais uma ilustre desconhecida da população, embora muitos de seus padrões ainda sejam uma incógnita para o meio científico, Na tentativa de desvendá-los, especialistas do mundo todo pesquisam o tema, conquistando avanços significativos para a melhor compreensão da patologia.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por exemplo, acaba de divulgar um desses estudos. Recém concluída por uma equipe do Instituto Fernandes Figueira (IFF), uma das unidades da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a pesquisa constatou que crianças autistas teriam uma ativação menor do hemisfério direito do cérebro — o hemisfério "feminino", aquele que é relacionado às emoções e às relações sociais.
O estudo foi feito com 13 crianças autistas. Com idades entre 6 e 14 anos, elas foram selecionadas de acordo com o quociente de inteligência. Na primeira etapa, os cientistas avaliaram o cérebro dos pacientes em repouso, não encontrando alterações significativas. Mas o mesmo não ocorreu quando eles foram estimulados por meio da luz, de diferentes freqüências, quando foram detectadas anomalias. Posteriormente, os pesquisadores compararam as respostas a esse estímulo com as obtidas por 16 crianças normais da mesma faixa etária, verificando que a ativação do hemisfério direito do cérebro nas crianças autistas foi menor do que nas normais.
"Se esses resultados preliminares forem comprovados, eles poderão ajudar a encontrar uma resposta neurológica padrão para o autismo. Também serão utilizados para fornecer diagnósticos específicos da doença, atualmente inexistentes", explica Adailton Po tes, um dos líderes da equipe.
"Mas para que isso aconteça — avalia ele — é preciso refazer essa pesquisa com um maior número de pessoas de ambos os sexos e fazer um perfil de outras áreas cerebrais, comparando os dados obtidos com os das demais doenças mentais. Somente depois disso é que poderemos classificar os sintomas próprios do autismo."
A pesquisa desenvolvida pela equipe de especialistas da Fiocruz vem ao encontro de uma outra recentemente propagada nos Estados Unidos; a de que os autistas têm um cérebro demasiadamente masculino. A teoria é defendida por Simon Baron-Cohen, psicólogo da Universidade de Cambridge, em seu livro Diferença essencial (Editora Objetiva).
Na obra, o autor explica que o cérebro de todo bebê está pronto a raciocinar por meio de regras e a analisar sem levar em conta as emoções, a intuição e a simpatia — características da atividade cerebral "feminina". Também acrescenta que essa tendência, confirmada inclusive pela maior incidência de autismo nos meninos (a relação é de quatro para um em relação às meninas), explicaria a origem da síndrome.
Seguindo esse raciocínio, Cohen afirma que o autismo é um exagero do processo normal de desenvolvimento do cérebro nos primeiros anos de vida, com uma aceleração das capacidades "masculinas em detrimento das "femininas".
Esse exagero patológico se manifesta já nos primeiros meses de vida de crianças com tendência a aprender as coisas com uma avaliação exclusivamente sistemática e racional. Elas também tendem a se dissociar de qual quer contato social (a ponto de ignorar seus sentimentos pelas pessoas e o impacto dos próprios comportamentos sobre os outros). Recusam-se ainda a qualquer tentativa de comunicação  com o mundo.
Por sua vez, a revista científica Neurology também divulgou dois trabalhos sobre a patologia. Em um deles, os pesquisadores recorreram à tomografia computadorizada e à ressonância magnética para confrontar as dimensões do cérebro de pessoas autistas e de indivíduos saudáveis da mesma idade. Comprovaram que nas crianças autistas de até 12 anos o volume médio do cérebro é 5% maior em relação a seus coetâneos. Depois dessa idade, a circunferência do crânio aparece ligeiramente maior nas pessoas afeta das pela doença.
No outro texto, os autores da pesquisa afirmam que até os quatro anos o cérebro dos autistas é 10% maior que o das crianças saudáveis da mesma idade e que o cerebelo e a amígdala (formação que fica no centro do próprio cérebro) são muito mais desenvolvidos. Os resultados obtidos nesse estudo indicam que o cérebro do autista cresce vertiginosamente nos primeiros anos de vida.
Alguns estudiosos, por sinal, acreditam que os problemas dos autistas têm sua origem nesse desenvolvimento cerebral precoce. Isso porque os pontos de contato entre as células nervosas que permitem uma correta trans do sinal entre os neurônios (sinapses) encontram-se bombardeados por um excesso de informações com as quais eles ainda não sabem lidar.
Desse modo, as conexões nervosas destina das a administrar as capacidades de linguagem e racionais, além das relações com as outras pessoas, entram numa espécie de colapso, especializando-se apenas em alguns aspectos ligados à racionalidade e não à esfera emocional.
A conseqüência é clara: quem sofre de autismo tende a fechar-se em si mesmo, isolando-se do mundo, embora muitas vezes desenvolva capacidades inacreditáveis de raciocínio e memória. Quem não se lembra da incrível capacidade de contabilizar de Dustin Hoffman no filme Rain Man?
Ainda há muito a se desvendar
"O que hoje sabemos é que o autismo é o mais famoso dos numerosos distúrbios pervasivos ou generalizados do desenvolvimento. Prova disso é que freqüentemente o termo autismo é utilizado para designar todos os tipos deles", explica Maria Grazia Torrioli, pesquisadora de neuropsiquiatria infantil na Universidade Católica de Roma, na Itália.
Sobre as causas da doença, no entanto, ainda há muito a ser descoberto. Na realidade, o autismo nem sempre é uma doença em si, porque às vezes está ligado a outros distúrbios dos quais não se conhece a origem. "A hipótese mais provável é que se trate de uma forma multigênica (quando não existe um único gene responsável pelo autismo), mas que sua causa seja o mau funcionamento de vários genes espalhados na bagagem hereditária", afirma a especialista.
De fato, outras doenças que implicam distúrbios do desenvolvimento — como, por exemplo, a síndrome de Rett, que é bastante parecida — têm origem em uma alteração do DNA. Sobre a predisposição genética (que pode explicar o crescente desenvolvimento do cérebro na infância) também entraria em jogo o ambiente, que pode facilitar ou não a manifestação do distúrbio.
A falta de certezas se reflete na dificuldade do tratamento. "Até hoje não existe um procedimento que possa curar o autismo. As únicas armas disponíveis são a psicoterapia e práticas de reabilitação que ajudam desenvolvimento das crianças", orienta a pesquisadora. Os remédios, porém, são úteis no controle de alguns sintomas. Em todo caso, é importante detectar o problema o quanto antes, apressando a reabilitação que muitas vezes produz melhoras substanciais e cuja eficácia é maior quando se age precocemente.
"As dificuldades de linguagem são as que mais afligem os pais", prossegue Maria Grazia. Ela, contudo, não considera isso tão grave quanto a carência de comunicação. "Em geral, quando a criança consegue se fazer entender com olhares e sinais, não há grandes problemas. Porque a essência do autismo reside exatamente no escasso contato emocional com o ambiente e, portanto, no fato de que os canais de comunicação não estão ativados", conclui.

Como detectar uma criança autista
O autismo ainda não tem cura, mas o diagnóstico precoce possibilita que os pais adotem procedimentos educativos, comportamentais, psicológicos, fonoaudiológicos e de motricidade que ajudam a criança a ter uma vida social melhor e a desenvolver uma correta comunicação.
Saiba como identificar as primeiras manifestações da patologia.
Ao contrário de outros recém-nascidos, o bebê não "cantarola".
Até os 16 meses não fala uma única palavra.
Também não pronuncia duas palavras ou frases inteiras até os 2 anos. Interessa-se pouco pelas brincadeiras e pelo relacionamento com as demais pessoas.
Não presta atenção e não responde quando é chamado pelo nome.
Evita o olhar dos outros e demonstra dificuldade em interpretar o tom da voz ou as expressões faciais alheias.
Não corresponde às emoções daqueles que convivem com ele. Tampouco olha para essas pessoas para adequar seu comportamento.
Executa atividades motoras repetitivas, como se balançar ou enrolar fios de cabelos nos dedos.
Apresenta manifestações auto-agressivas, como bater a cabeça e fazer birra.
Refere-se a si mesmo com o nome próprio, fala de um número restrito de assuntos preferidos.
Olha fixamente e por muito tempo os objetos, como a roda de um carro ou o tambor da máquina de lavar enquanto gira.