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Quando o Brasil terá seu Vale do Silício?

Publicado em 08 novembro 2013

Por Francisco Jardim

Essa questão é debatida constantemente, desde os fóruns de empreendedores até os comitês de políticas públicas. Parece que um dos grandes objetivos é criar o “Vale do Silício Brasileiro” e que isso resolveria todos os problemas relacionados ao empreendedorismo nacional.

É importante lembrar que o “Vale do Silício” não é apenas um bom lugar para ter e desenvolver ideias – é, na verdade, um ecossistema vasto de fomento à inovação. Se tivermos um olhar biológico sobre o termo, todo ecossistema consiste em um conjunto sofisticado de variáveis, endógenas e exógenas, interrelacionadas, que mantêm evolução constante, mesmo em estado de equilíbrio dinâmico. Replicar algo tão complexo não é nada fácil!

Vamos então analisar um pouco algumas das principais variáveis desse ecossistema, tentando compreender se o Brasil está, pelo menos, no caminho certo para termos nosso “Vale” no futuro.

O componente básico de qualquer ecossistema empreendedor engloba, obviamente, seus empreendedores. A disseminação de empreendedores e o surgimento de referências de sucesso é vital para a perpetuidade de ambientes inovadores. Nos Estados Unidos, pessoas como Gordon Moore (Intel) e Steve Jobs (Apple) inspiraram e lideraram uma geração de empreendedores, estimulando novas ideias e, consequentemente, inovações. No Brasil, pode-se dizer que hoje estamos no caminho adequado, com bons exemplos de empreendedores despontando, como no caso de Romero Rodrigues, criador do Buscapé. Muito provavelmente, muito dos ouvintes de suas palestras (evangelho disponível no site da Endeavor) fomentarão inovações genuinamente brasileiras no futuro.

O papel do governo é fundamental. Nos EUA, as mudanças legislativas para a atração de investimentos privados em pequenas empresas foram cruciais para a indústria de venture capital, viabilizando a migração dos desenvolvimentos científicos para inciativas empreendedoras. No Brasil, ainda estamos muito atrás nesse sentido, contando com iniciativas pontuais, como a Lei de Inovação, ainda distante em resolver o impasse burocrático na relação entre mercado e academia. A participação de instituições públicas de desenvolvimento, por outro lado, traz excelente perspectiva no curto prazo: Finep e BNDES exercem um belo papel no estímulo a fundos de venture capital e, mais recentemente, contam com o forte apoio de instituições como Desenvolve SP, Fapesp e Sebrae-SP. Um exemplo dessa nova safra de bons investidores públicos se traduz no Fundo de Inovação Paulista, iniciativa de R$ 100 milhões destinada à inovação no estado de São Paulo.

Em relação às universidades, o distanciamento entre Brasil e Estados Unidos é, sobretudo, cultural. O Brasil possui um conjunto respeitável de centros de pesquisa com destaque internacional, muitos deles próximos a incubadoras e parques tecnológicos emergentes. No entanto, a grande maioria desses centros tem mentalidade essencialmente acadêmica, burocratizando as relações com instituições privadas para a aceleração de negócios. A simbiose universidade-empresa, tão evidente entre Stanford e no Vale do Silício, por exemplo, ainda esbarra na falta de uma cultura empreendedora dos pesquisadores tupiniquins.

Os investidores também possuem papel essencial, viabilizando financeiramente o risco de consolidação de inovações disruptivas. De fato, a gênese do Vale do Silício americano dependeu de aportes de peso em iniciativas como Genentech, Apple, Atari, Sun e Oracle, empresas pioneiras na construção de um ecossistema americano de inovação – hoje líder em uma infinidade de mercados, com destaque para os mercados digitais. Aportes esses que trouxeram não apenas capital financeiro, mas também redes de relacionamento, boas práticas de gestão e muitos outros intangíveis necessários para o sucesso de uma startup com pretensões revolucionarias. No Brasil, o crescimento do número de gestoras de venture capital é animador, porém o foco de investimento ainda merece sinal de alerta. São comuns os novos fundos brasileiros focados exclusivamente em copycat de internet, tentando replicar o sucesso de empresas estrangeiras na web. Sem dúvida, uma indústria de intermediação financeira altamente especializada e madura é um dos maiores diferenciais do norte da Califórnia.

No entanto, a inovação brasileira ainda carece de atenção em investimentos preliminares. O país necessita de mais investidores dispostos a comprar o risco de tecnologias genuinamente brasileiras, auxiliando empreendedores na construção de empresas sólidas, capazes de enfrentar marcos regulatórios e erguer suas próprias estruturas produtivas. Nesse sentido, criar o ecossistema de empreendedorismo no Brasil não se trata de copiar o “Vale do Silício” americano. Muito pelo contrário, precisamos batalhar para que, um dia, possamos ser reconhecidos por ter o nosso próprio vale tupiniquim, não em caráter nacionalista, mas sim para aproveitar o que temos de melhor em nosso ecossistema produtivo. Quem sabe um dia, com muito esforço, possamos nos orgulhar de ter o nosso próprio “Vale da Jabuticaba”.