Notícia

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Quando a roupa educa o corpo

Publicado em 09 novembro 2010

Por ISABEL GARDENAL

A descoberta da necessidade de roupas específicas para a prática esportiva é mais ou menos recente no Brasil. Nas primeiras décadas do século 20, principalmente, é que a sociedade começou a exigi-las, a especificá-las e a especializar suas funções. Antes, tanto as práticas esportivas quanto as corporais eram desenvolvidas com roupas do próprio dia a dia. Uma pesquisa de pós-doutorado, com vistas à obtenção do título de livre-docente, levou a professora do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação Física (FEF) e da Faculdade de Educação (FE) Carmen Lúcia Soares a fazer uma análise sobre a história da educação do corpo, colocando seu foco nas roupas esportivas. A conclusão foi que essas roupas são constitutivas da cultura urbana, são indicadores sociais e representam pertencimentos.

Como as roupas em geral e as roupas esportivas em particular constituem a noção mais ampla de educação do corpo? Como foram se transformando ao longo do tempo? Soares estudou este e outros pontos detendo-se no período de 1920 a 1940. Isso porque foram anos no mundo em que aspectos marcantes transformaram a cultura vestimentar. Tal mudança deixou as mulheres libertas dos espartilhos, dos chapéus, dos saltos altos e de uma série de roupas pesadas que cobriam o seu corpo.

Diante de uma nova sensibilidade, as grandes cidades bem como as capitais brasileiras incorporaram o chamado estilo de vida esportivo, uma moda esportiva. O ano de 1920 foi o primeiro em que o país participou dos Jogos Olímpicos Modernos, realizados na Bélgica, e, embora a delegação tenha sido pouco numerosa, impulsionou a cultura do corpo, da educação física e do esporte no país. Assim, pouco a pouco foram criadas necessidades como o uso de roupas e calçados especiais para a prática esportiva. “Universalizou-se um comportamento vestimentar até então inexistente”, situa Soares.

Segundo ela, nessa década já podiam ser vistos os maiôs mais curtos nas piscinas e praias, e as saias nas partidas de tênis. Na década seguinte, os homens, que jogavam tênis de calça comprida, passaram a jogar tênis de short. Logo mais, outra mudança abrangeria as mulheres. Suas saias foram subindo e nunca mais voltaram ao seu estado original.

Já em outras práticas mais aristocráticas, como a equitação, os uniformes de homens e mulheres eram mais equilibrados, parecidos. As saias-calças também foram peças de roupa muito usadas em diferentes práticas esportivas, assim como as alpercatas. Já sapatos específicos para corridas começaram a ser desenhados assim como para jogos de futebol e de basquete.

A década de 1930 incentivou as práticas corporais, mediante as políticas de Estado, que incrementaram uma cultura do corpo, do vigor físico e das aparências atléticas. Também nesta década foram criadas no país publicações específicas da educação física e do esporte, contribuindo para a divulgação e a afirmação de uma cultura corporal em diferentes setores da sociedade e em diferentes classes sociais.

Na década de 1940, o Brasil alavancou a sua indústria de vestimenta esportiva, vislumbrando-se várias confecções e lojas de materiais esportivos. Contudo, neste exato momento, Soares encerrou sua avaliação pelo fato do novo período marcar uma ruptura com tudo o que veio antes – a improvisação das roupas.

Um aspecto destacado por Soares consistiu em pensar as recomendações de roupas especiais para as práticas esportivas e para os exercícios de um modo geral. “Não eram apenas práticas esportivas. Os exercícios eram feitos em casa, nas ruas ou nos clubes. Isso começou a ser concebido numa perspectiva das roupas. E foram os médicos que prescreviam o uso destas peças como uma condição higiênica”, explica. Eles fizeram das roupas “cânones da saúde”, alertando para os benefícios ou perigos da exposição do corpo ao ar e ao sol.

Os médicos recomendavam roupas de tecidos leves, largas e confortáveis. A partir da década de 1920 eram encontrados no mercado tecidos em jérsei, tricô, seda e lã. As mesmas recomendações estendiam-se aos uniformes escolares, porque sobretudo após 1930 começaram a ser oferecidas com regularidade as aulas de educação física nos colégios.

Soares afirma que a sociedade foi, ao longo do tempo, vestindo seus atletas. Na Antiguidade, conta, eles praticavam exercícios nus, “cobertos” apenas com óleos e ervas. Já as mulheres foram sendo muito mais vestidas que eles porque demoraram mais para receber atenção no esporte.

Especialização

Se a roupa esportiva ou a roupa para as práticas corporais foi sendo especializada e atendendo funções inicialmente da higiene, mais tarde elas associaram-se à ideia da performance, isso a partir das décadas de 40 e 50, melhorando a técnica e potencializando o gesto esportivo.

Assim sendo, as questões de ordem estética também passaram a ser consideradas. Olhou-se a beleza de um gesto e de um corpo que podia ser potencializado por aquilo que vestia, por meio da qual a relação entre o corpo e a roupa foi muito mais presente, por estar mais próxima do corpo real, e não daquele construído por uma roupa, como vogou até 1910, com as anquinhas e tudo o mais. “Na verdade, a roupa era uma estrutura externa que sustentava um corpo frágil”, lembra a professora.

Fato é que, a partir da década de 1920, cedeu-se lugar para uma outra cultura do corpo. “Era uma cultura de um corpo forte e ágil que desejava se mostrar assim. Então a roupa revelou-o com a cultura de uma sociedade urbana que valorizava o físico, o corporal e o esportivo”, revela Soares.

Por outro lado, notou-se uma ligação muito íntima entre a moda em geral e a moda esportiva. Uma e outra se influenciaram em termos de conforto, elegância e estilo de vida. “Quando o estilo de vida esportivo apareceu, ficou claro que uma roupa esportiva também conferia uma marca para quem a vestia. Essa roupa mostrava alguém sintonizado com o tempo, a velocidade, a audácia e com todos aqueles valores que o esporte aportava.”

O esporte, realça a professora, era um fenômeno tipicamente urbano e uma roupa esportiva traduzia valores que refletiam a cultura urbana. Até mais ou menos a década de 1960, raramente usava-se tênis na rua. Hoje ele ganhou a preferência dos jovens, adultos e crianças, passando a integrar a vida dessas pessoas em qualquer lugar.

Item indispensável do guarda-roupa, particularmente a calça comprida começou a ser mais aceita no Ocidente na década de 1960, a despeito da peça já integrar a indumentária feminina desde o final do século 19. Era defendida pelas feministas, por proteger a mulher especialmente no ambiente da fábrica.

A noção de especialização de funções também foi verificada por Soares. Quando se especializou uma função, criou-se uma roupa específica para ela. No caso, as práticas esportivas e as práticas corporais expressaram um tipo de especialização de discursos igualmente: “eu vou praticar algum esporte ou simplesmente fazer exercícios, não mais com minha roupa do dia a dia, pois aquela é uma função específica”. A especialidade de discurso construiu uma especialidade de vestimenta, refere a professora.

Consultas

Soares trabalhou com três coleções de revistas da década de 1930 para esta pesquisa: Educação Physica - Revista Téchnica de Sports e Athletismo, de 1932 a 1945; Revista de Educação Física do Exército, de 1932 até os dias de hoje; e a Revista Sport Illustrado de 1938 a 1952. Esta última difere das outras duas por não ser uma revista científica e sim um semanário com notícias esportivas e que destacava competições de várias modalidades, ricamente documentada em imagens fotográficas.

Um outro conjunto de revistas de variedades também foi estudado, como contraponto àquelas específicas de educação física e esporte, com a finalidade de sublinhar o lugar das roupas esportivas na vida cotidiana. Foram elas em especial as revistas A Cigarra, Ariel, Revista da Semana e Viver.

Embora fossem periódicos de divulgação e de variedades, traziam em muitas de suas capas moda esportiva. Em sua quase totalidade, foram encontradas referências ao uso de roupas especializadas para as práticas corporais e esportivas, seja em reportagens específicas, seja em imagens e seja ainda na publicidade desses produtos.

Soares constata que realizar uma pesquisa sobre roupas pode surpreender, já que permite indicar como em cada época existe um lugar para determinada roupa e como a roupa constitui a cultura de uma sociedade. “As roupas são verdadeiros indicadores sexuais. Com seus códigos, elas reafirmam toda uma cultura, inclusive a ideia de que a nudez é assustadora”, expõe.

Nesse sentido, aponta a professora, é preciso analisar as roupas na história porque cada época produz algumas porém apaga outras. Ademais, as roupas trazem uma visão de distinção e pertencimentos. O filósofo Simmel (1989) afirmou que, já no início do século XX, a moda era pensada como manifestação privilegiada da realidade social, ressaltando que o modo de andar, a cadência e o ritmo dos gestos eram, sem dúvida, essencialmente determinados pelo vestuário.

Do mesmo modo, os processos de distinção e de afirmação de lugares sociais foram sendo também determinados pela roupa, o que contribui para o alto valor que ela ocupa como marcador social, como traço de distinção de classe como assinalou Bourdieu (2007). Assim, a roupa, apesar de ser entendida como um aspecto banal da vida, permite conhecer camadas profundas da sociedade.

A pesquisa de Soares teve início com o projeto de pós-doutorado, financiado pela Fapesp. Com esta bolsa, ela passou em 2007 seis meses na Universidade de Montpellier III, na França, onde realizou um estudo mais profundo sobre diferentes teorias e a história das roupas esportivas.

Artigos

SOARES, C.L. Vêtements. In : Bernard ANDRIEU et Gilles BOETSCH (dir.) Dictionnaire du Corps Paris: CNRS, 2008.

SOARES, C.L. Etude des vêtements spécialisés destinés aux pratiques corporelles et sportives à São Paulo (Brésil): entre esthétique, confort et efficacité (1920-1960). In: XIIème Colloque International du CEHS (Comité Europeen d Histoire du Sport)- Sport et art: construction et réalité, 2009, Lorient. Actes du XIIème Colloque International du CEHS (Comité Europeen d Histoire du Sport)- Sport et art: construction et réalité. Lorient: Musée National du Sport (collection) Mémoire du Sport , éditions ATLANTICA, 2009. v. 1. p. 63-71.

Publicação

Tese de Livre-Docência “As roupas nas práticas corporais e esportivas: a educação do corpo entre o conforto, a elegância e a eficiência (1920-1940)”

Autora: Carmen Lúcia Soares

Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)

Financiamento: Fapesp