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Qualidade na formação

Publicado em 05 dezembro 2007

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Para Maria Helena Guimarães de Castro, secretária da Educação, universidades têm papel fundamental no desafio da melhoria na qualidade do ensino básico e precisam melhorar formação inicial do professor


O Estado de São Paulo praticamente universalizou o acesso ao ensino médio, mas não consegue fazer com que os alunos concluam o curso. Para Maria Helena Guimarães de Castro, secretária da Educação, o problema está ligado à baixa qualidade do ensino básico — e a universidade tem papel fundamental na busca de uma solução.

"Os alunos estão abandonando o ensino médio. No ano passado, 27% dos matriculados na primeira série foram reprovados e a evasão cresce a cada ano. Precisamos de formas de incentivo para o estudante, mas nosso principal desafio é a qualidade do ensino, que passa pela formação do professor", disse à Agência Fapesp.

A secretária participou, nesta terça-feira (4/12), do Seminário Internacional Ensino Superior numa Era de Globalização, na sede da FAPESP. O evento foi promovido pelo Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas (Nupps) da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Segundo Maria Helena, a melhora na qualidade do ensino básico é o principal desafio da educação brasileira de forma geral. "Para melhorar a qualidade, o ator central é o professor. Precisamos repensar nossas políticas públicas de formação inicial", afirmou.

Apontando as deficiências do ensino brasileiro, a secretária citou o estudo divulgado nesta terça-feira pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que colocou os estudantes brasileiros de 15 anos em 54º lugar em conhecimentos de matemática entre 57 países.

"Isso é lamentável. Significa que nós — estados, municípios, governo federal e sociedade — não estamos desenvolvendo as políticas certas. E o principal erro se refere aos programas de valorização das carreiras de professores", afirmou.

"Os programas de formação inicial e continuada não estão atacando os problemas reais do ensino e aprendizagem. Nos últimos cinco anos foram investidos R$ 1 bilhão em formação continuada de professores, mas esse esforço parece não estar surtindo efeito. Os alunos chegam aos 15 anos sem competência de leitura e escrita, que é a base para as outras competências", disse.

Segundo Maria Helena, as universidades precisam repensar os currículos de formação inicial e programas de estágio. "O ideal seria que os professores fizessem residência, como os médicos. Os cursos de pedagogia deviam ter estágios que permitissem uma interação entre teoria e prática."

Para a secretária, as universidades ainda discutem pouco as pesquisas sobre a educação básica brasileira. "Precisamos definir uma conexão mais efetiva entre educação superior e ensino médio. Inclusive porque a má qualidade da formação desses estudantes tem impacto também na qualidade da universidade", disse.

O pouco interesse do estudante pelo ensino médio, segundo a secretária, tem diversas razões. As principais seriam a pressão familiar para trabalhar a partir dos 15 anos, a falta de perspectiva dos que têm pouca chance de seguir um curso superior e o currículo distante das aspirações do aluno.

"Por que não oferecer um ensino médio com mais ênfase na área de humanas para quem quer fazer humanas? Espanha, Inglaterra, França e Alemanha fazem isso. Como não fazemos, o aluno acaba optando pelo Educação de Jovens e Adultos [modalidade de escolarização para indivíduos socialmente excluídos], com o objetivo de encurtar o caminho", disse.


Ambientes complementares de pesquisa

Outro tema tratado no seminário foi a relação entre o ensino superior e o sistema de inovação. Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, destacou a diferença de natureza entre as pesquisas feitas na universidade e na indústria.

"Não se deve imaginar que a pesquisa na universidade possa substituir a que é feita nas empresas. Em uma economia saudável, a pesquisa é feita nos dois ambientes, cada qual com sua missão", afirmou.

A missão da pesquisa na universidade, segundo Brito Cruz, é contribuir com o avanço do conhecimento humano e com a educação dos estudantes. Na empresa, o objetivo é resolver problemas específicos e melhorar a competitividade.

Segundo ele, no Brasil há uma assimetria entre a projeção internacional da pesquisa na academia e na indústria. "O sistema acadêmico tem um grau de competitividade internacional muito alto que a pesquisa nas empresas não alcança. A razão disso é que há muito poucos cientistas na indústria."

A colaboração entre universidade e empresa só tem sucesso, de acordo com Brito Cruz, quando há pesquisadores dos dois lados. "A colaboração só é maior nos Estados Unidos e na Europa porque eles têm mais cientistas nas indústrias. Sem isso, o diálogo é impossível", afirmou.

Para o diretor científico da Fapesp, o desafio do Estado de São Paulo em termos de capacidade científica não é mais aumentar a eficiência, mas o número de pesquisadores. "O número de publicações por pesquisador em São Paulo é semelhante ao dos países desenvolvidos — o que é uma façanha, dadas as condições. A diferença é que aqui há menos pesquisadores", disse.

(Agência FAPESP, 5/12)